quarta-feira, 6 de maio de 2015

O fantasma voltou?

Corre celeremente o ano de 1966. Chega o dia 28 de maio. Estamos no auditório da velha Companhia, ouvindo uma palestra sobre a empresa. Era o meu primeiro dia de trabalho na Vale. Depois de muitos e muitos anos lutando contra o desemprego, eis que consigo ingressar no sonho de muita gente na época, cuja função nem sabia de que se tratava, embora a chamassem de “apropriador”.

Na palestra do escritório do Areão, o apresentador, o saudoso Sinésio Valeriano Alves, que seria o meu primeiro chefe, falou muito de exaustão do minério de ferro. Desconhecedor do tema, saí daquele ambiente tomado de depressão. Pensava com os meus botões e fechos ecleres: “Que droga! Vivo tempo me esticando para conseguir um emprego e já passo a me preocupar com o minério que vai acabar!”

Trabalhei durante 13 anos na grande Vale e aí comecei seriamente a vida profissional. Tornei-me chefe nela, até daquele que fora o meu superior dez anos mais tarde. Demitido, tornei-me dono do meu próprio nariz em duas frentes de atividades: primeiro no Cantinho do Pão de Queijo, com três lojas na cidade e, depois, na revista DeFato, onde permaneci como editor durante 20 anos. Fui vereador, promovi seminários, encontros, debates; apresentei projetos, propostas diversas; o I Encontro de Cidades Mineradoras me custou o próprio cargo na mineradora por causa de minha função pública cobradora. Em todas as etapas em Itabira, de vida particular a pública, o meu e o tema geral era uma obsessão só que tocava a marcha fúnebre de somente uma nota: “o minério vai acabar”.

A privatização da antiga CVRD, em 1997, apesar de ter eu lutado contra, tornou Itabira viável por mais anos, previsão para mais 75 anos de fartura. Assim, as prospecções, somente possíveis graças à privatização, salvaram a terra de Drummond pelo menos na expectativa do povo. A partir do anúncio da longevidade da mineração, a cidade borbulhou de gente,  empregos chegaram a virar a tendência de todas as crises, arranha-céus subiram no céu itabirano.

Mas ninguém pensou nas palavras do  presidente Fernando Antônio Roquette Reis, meu até então chefe imediato, que alertou não para o fim do produto que a natureza dá de graça, mas direcionado à falta do mercado consumidor, item fatal no caso do empreendedorismo. Tivemos outro alerta faz alguns poucos anos e agora, num verdadeiro coice de mula, como dizem lá na minha terra, o presidente da empresa, Murilo Ferreira, anuncia a possibilidade muito forte de fechar as minas. A Vale teve quase dez bilhões de dólares de prejuízo em três meses de 2015, o preço do minério de ferro está abaixo de uma dúzia de bananas verdes e o estoque interno subiu consideravelmente. Fazer o quê? Rezar, dizem as beatas nossas de cada dia.

Será que o fantasma voltou? O minério de ferro existe; estrutura para extrair, concentrar, enriquecer, cumprir as etapas da logística com grande competência não constituem obstáculos. A queda nos preços acompanha a lei natural de oferta e procura. Só resta lembrar, por enquanto, o nosso eterno Drummond, quando citou num de seus poemas, com o nome “Itabira”, a estrofe a seguir, que era, também, uma de suas profecias:

“Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê.
Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.
Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na
derrota incomparável.”

E  pergunto, perplexo como no meu primeiro dia de Vale: o fantasma itabirano voltou?
  

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A VIDA SEGUE EM ITABIRA DO MATO DENTRO. TRISTE E BARULHENTA...

No centro da cidade, ou porta de um banco,  um cidadão meio filósofo, disse-me que estava ali assentado, observando o semblante das pessoas. Como ele se referiu à tristeza e eu que sou inimigo número um dela e estou pregando para os quatro cantos que a vida é bela, resolvi assentar-me junto dele para ouvi-lo com atenção. Engraçado era que ele anotava o que via. Quando pude falar, perguntei como foi a minha classificação: otimista, pessimista ou realista? Ele chegou a dizer que eu era mais ou menos. Foi quando pude contestá-lo com expressões extraídas de alguns livros que li, simples como qualquer coisa: “Aparências não são verdades” e “Quem vê cara não vê coração”.

Dali retornei ao meu caminho de sempre, o de casa. Pelas ruas Água Santa e Tiradentes, depois as avenidas João Soares da Silva, Carlos Drummond de Andrade, João Pinheiro e Mauro Ribeiro pude sentir, apreciar e anotar a barulhada que toma conta de nossa cidade. O que intriga qualquer um é que a origem dos tremendos ruídos não é mais a propaganda eleitoral, e nem sequer comercial, que azucrinam Itabira cotidianamente. O que tumultua o ouvido do itabirano são os sons que seriam comuns se não fossem particulares. Hoje em dia, o sujeito que se julga bom da boca, rejeita colocar um rádio e um toca-fitas com um pequeno alto-falante no seu veículo para a sua serventia. Mas apela apaixonadamente por um som maligno, que faz tremer até um prédio de cimento armado.

A propósito, alguém fez uma pesquisa do barulho passageiro em três avenidas de Itabira, exatamente a Daniel de Grisolia, João Pinheiro e Mauro Ribeiro. Informa o resultado que de quatro em quatro minutos, a zoeira dessas vias atinge o mais insensível dos ouvidos estridentemente. Já na Mauro Ribeiro, o barulho é mais contundente: somam-se aos sons de veículos, o estrondo de motos cheias de vontade de voar, que explodem sobre os quebra-molas inofensivos e oferecem uma perturbação de deixar louco o mais surdo dos seres humanos.

Então está aí uma dica para a fiscalização. Senhora Fiscalização de Sons com Decibéis Malignos, eu vos declaro inerte, preguiçosa e rude diante do que fiscalizam. Sei que atendem reclamos da população, mas, infelizmente, ninguém se queixa do tal barulho passageiro, ou seja, aquele que vem, passa, mas é substituído por outros, talvez em formação de uma quadrilha contra a nossa saúde mental.

Para este pobre escriba, Drummond explica, numa estrofe de Confidências do Itabirano, a tristeza detectada por meu amigo sentado á porta de um banco:

... Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro...

Para o tumulto ensurdecedor das vias públicas, no entanto, o nosso poeta não teve uma só palavra, mesmo porque foi ele de outro tempo, diferente época, apreciou outros ares. Escreveu ele sobre outro barulho o seu Poema Patético assim:

“Que barulho é esse na escada?” – escreveu ele...E era apenas coisa leve, mais de sentimentos.

Agora são outros quinhentos. O poeta não gostaria de ouvir, com certeza. Se já tinha medo de ver as transformações itabiranas, retornaria na mesma condução em que acabava de chegar, seja de carro, de ônibus, de trem, de cavalo, ou no primeiro automóvel, a tal “Que Coisa-Bicho” do Chico Osório.


E a nova aurora, que não é a mesma de outrora, agora é a destruição de nossos tímpanos e o anúncio de que vamos para o hospício, em breve. E sem retorno para a vida normal, nunca!

domingo, 5 de abril de 2015

UMA DITADURA EM CONTA-GOTAS

Um ex-professor meu (repito sempre que um ex de qualquer coisa sempre merece mais respeito do que os demais), me enviou uma mensagem assim: “Você fica falando em comunismo, em ditadura. Caso isso viesse a  ocorrer, os Estados Unidos viriam aqui e acabariam com a festa”. Sem saber, um outro mestre negou a possibilidade dessa intervenção de outra forma: “Aqui não tem mais pra eles”. Pergunto: em quem  confiar? Fica a questão flutuando.

Discordo dos dois. O Brasil está sendo levado a protagonizar uma  ditadura comunista de última categoria, em conta-gotas. E já me esclareci sobre o processo. É a seguinte uma das manobras: temos 56 milhões de miseráveis — a informação vem de Dilma Roussef, atual presidente do Brasil. A diferença entre o que sustento e o que ela diz é somente ela pensar que tirou cerca de 26% de brasileiros da linha de pobreza, dando-lhes a famigerada Bolsa Família. Cada um dos beneficiários ganha em torno de R$ 75,00 por mês, o que daria para comprar uma caixa de leite. Agora, questiono: quem tem 30 litros de leite por mês está salvo da fome?

Que vergonha! Somos em torno de 200 milhões de moradores do Brasil. Sobram 144 milhões de não beneficiários do Bolsa Família. Desses, 33,9 milhões trabalham com carteira assinada e 12 milhões sem carteira. Quer dizer que cerca de 46 milhões ralam para sustentar o resto. E o golpe petista é deixar esse povo dependente, rastejando para precisar do governo infinitamente. A Bolsa-Miséria tira meia fome, neutraliza o trabalho e mantém a perpétua dependência de um pobre povo, que nunca evolui. Que país é esse?

A segunda manobra não chega a ser uma manobra, mas o objetivo principal do governo do PT. Está claramente dito pelo senhor Lula, o manda-chuva do partido e até do país, que a ideia de dominar a América Latina foi parida no conhecido Foro de São Paulo, fundado em 1990 por ele e o caudilho Fidel Castro, amante incondicional dos regimes de exceção. Do começo da caminhada rumo ao comunismo e à ditadura (não existe comunismo sem ditadura) até hoje alguma coisa foi feita. O Brasil injeta bilhões de dólares em pseudopaíses da América Latina. Com isso garante a sua liderança. E foi Lula quem disse o seguinte: “O PT tem que se manter no governo porque somos o maior país do continente”. Alguém tem dúvida? E nós, os carneiros mansos, vamos sustentando esses loucos por tirania.

O comunismo, principalmente o ditado por Karl Marx, nunca deu certo em lugar nenhum do mundo, ou mais esclarecidamente, nunca saiu dos livros e panfletos. Temos dezenas de exemplos: de Cuba à Venezuela, passando pela Bolívia e Colômbia, até o Panamá  predomina uma miséria que até fede, apesar do petróleo que jorra na terra do trapalhão Maduro. Riqueza sem aproveitamento  porque os venezuelanos que comandam o país são uns incompetentes inqualificáveis; na Europa, o caso das Alemanhas é muito ilustrativo, com a Ocidental rica (até depois de ser destruída na II Guerra Mundial) e a Oriental paupérrima, cujo povo pedia esmolas entre si; a unificação salvou o lado merreca do muro e trouxe progresso quase imediato a ela; no Leste Europeu, não se tem um só exemplo de algo acertado, tanto que se auto-destruiu. Na antiga URSS, quando Lênin, depois Stálin, mais tarde Krutchew, tentaram progredir a União Soviética, tudo ficou ruço para o povo russo.

Agora, imaginem que os pés-rapados e lambedores de rapadura do Brasil querem fazer um bolo mas não têm uma receita confiável. Esses ingredientes que dariam alguma coisa para a mistura estão azedos desde as mais longínquas eras. Quem governa o mundo é o capitalismo. E não é porque tem bagagem ou é o regime certo, mas porque o que mais se aproxima da condição natural do mundo. Não posso deixar de dizer que o mundo enquanto não reformar as mentes nele existentes não terá perfeição. A árvore imperfeita não dá fruto de bom sabor. Dos males, o menor, ele segue liderando. Mas, ao invés de procurar um modelo nas receitas que produzem o bolo ideal, o governo brasileiro mergulha-se de olho fechado na contramão do progresso. A guloseima  vai azedar ou se queimar, com absoluta certeza.

Conclusão: o PT sabe que a ditadura não virá na marra porque o Brasil contaria com forças externas para garantir-lhe a autonomia. Também, a “petezada” não consegue tirar de seu fracassado e sem lógica pensamento ideológico o suficiente bom senso para garantir a paz democrática. Então, o que o PT faz é a busca do comunismo paulatino, de gotas pingadas. Até agora, anda trôpego, mas anda. A contramão vai sendo seguida até aparecer uma carreta pesada e passar por cima dos mongolóides. A solução deles será sugar quem sabe sonhar e são os burros de cangalha desta nação. Quem não gosta e nem aprende a trabalhar é que vai continuar mamando nas tetas que um dia secarão. Irremediavelmente. E o caos virá, infelizmente e com amargura total, porque o futuro para o qual o PT trabalha é o chamado Apocalipse Now.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

SÃO SEBASTIÃO DO RIO PRETO NA ERA DO "QUASE"

Depois de quase oito anos de ser uma cidade quase sem lazer, São Sebastião do Rio Preto quase tem pronto o seu campo de futebol. Quase fiquei bravo demais e as pessoas pensam que nunca tive nem uma quase razão. Sempre senti as dores de meus conterrâneos, muito mais dor que todos, porque a maioria quase nem sente ou nem sabe o que é dor.

Para tirar as quase últimas e quase terríveis dúvidas, fui lá conferir e falar com uma única pessoa, José Eugênio Gonçalves, irmão de minha ex-quase amiga Ana Maria Gonçalves, que me deletou no Facebokk porque eu era mais que um chato e quase insuportável. José Eugênio é vereador, presidente da Câmara Municipal, secretário de Obras e, obviamente, quase prefeito, filho de meu saudoso amigo Jovino Valério Gonçalves.  E é o funcionário municipal que faz quase tudo na cidade. O resto a sua mana Ana completa.

Olhei o campo quase pronto, grama bonita, vestiários prontos, uma arquibancada concluída e a outra em obras. Só me restou ligar para o gentil José Eugênio que, rapidamente, desceu de moto e me encontrou no Estádio Dr. João Rodrigues de Moura, quase às 17 horas de quinta-feira, 26 de março de 2015.

Uma enxurrada de perguntas desabou sobre ele, aquela que viria em forma de água na famosa enchente de São José e este ano não veio, a menos que esteja reservada para abril. Mas o Eugênio, notadamente, não se esquivou de nenhuma questão, apesar de ter demonstrado explicitamente os equívocos públicos municipais. Por exemplo, as arquibancadas construídas nas extremidades do estádio, quando se faz isso com destaque, nas laterais. Há explicações dele, mas apenas quase convincentes, porque, seriamente não houve o que deveria ter havido, o planejamento. Prova disso é que a empresa que executava as obras abandonou a empreitada porque não tinha projeto para nele trabalhar na última fase da obra. Mas vamos, por itens, resumir o que José Eugênio deixou claro:

DONO  DO CAMPO — O dono do Estádio Dr. João Rodrigues de Moura (nome concretizado em lei de autoria do saudoso prefeito Luiz Gonzaga de Almeida) é mesmo o São Sebastião Futebol Clube e quase ninguém mais. A sugestão é fazer um documento de cessão de imóvel, tal como a Prefeitura de Itabira fez com o Valeriodoce Esporte Clube. Assunto encerrado, o único não quase.

CAVALGADAS — Jamais serão realizadas cavalgadas dentro do campo porque não é um evento próprio para o local. Arrasa a grama, que é difícil de ser implantada. Apesar disso, José Eugênio ia e vinha nas suas alegações, quase afirmando que em algumas cidades as cavalgadas ocorrem nos campos de futebol. Parece que queria podar a grama, que cresce semanalmente, com os comedores de capim: burro, cavalo, égua, mula, besta e, sei lá mais, vacaria.

POSTE — Existe um poste fincado dentro das linhas do campo, quase no interior de uma das grandes áreas. Será preciso removê-lo. Quem deve executar esse trabalho será  a Cemig, mas quem determina a sua mudança é somente a Prefeitura. Espera-se que seja feito em quase breve.

MANUTENÇÃO — José Eugênio assegura que o campo vai ficar quase abandonado — vejam que bruto desafio para os jovens da cidade e o SSFC! — e fica aí aberta a decisão de assumir, de verdade, as obrigações de manutenção e zelo. Mas adiantei a ele que alguns deveres a Prefeitura deveria (ou deverá) ser a responsável.

BELO ESTÁDIO — Segundo José Eugênio, inúmeras pessoas que vêm de fora elogiam o campo e dizem que, agora, é quase o melhor da região. Concordo com ele, mas não pude deixar de mencionar vários tópicos cujos pecados são exclusivamente oficiais municipais, seja qual for o prefeito ou os prefeitos (ir) responsáveis: 1. A demora matou pelo menos quase três gerações de adolescentes, a época em que se aprende ou não se aprende nunca a jogar futebol. 2. As arquibancadas são quase  novidades, mas poderiam mesmo ser levantadas em  lugares mais corretos caso houvesse o planejamento quase adequado. 3. Também os vestiários distantes um do outro e construídos fora do lugar, mereciam ser alvo de estudo quase aprofundados. 4. Será construído um campinho para crianças no quase grande espaço que sobrou em uma lateral; essa poderia ter sido melhor aproveitada caso houvesse previsão do aterro feito.

CONCLUSÃO — Data de inauguração não há ainda, há uma quase previsão de que será em setembro. A Prefeitura executa a obra dos vestiários fora do lugar, utilizando a sua verba de contrapartida prevista em contrato com a Anglo American. A necessidade de mobilização da comunidade agora é imprescindível porque na inauguração não podem ser sacramentadas injustiças. Nessas, os meninos que subiram de 12 para 20 anos de idade, são as vítimas reais e indiscutíveis, nada de quase neste caso.


E continuo afirmando que sou mesmo um mais que ranzinza. Foi o que aprendi no exercício de mandatos legislativos e, principalmente, na imprensa. Apesar de muitos dizerem que não, nasci aí e amo a minha terra. Esse campo foi um dos principais palcos de minhas mais que alegrias da infância, adolescência, juventude e adulto. Os quase bons ou totalmente bons são-sebastianenses  que me sigam ou, pelo menos, adotem o Estádio Dr. João Rodrigues de Moura como a Oitava Maravilha de São Sebastião do Rio Preto.

quinta-feira, 19 de março de 2015

SUCESSO PARA A NOSSA AMIGA ELISÂNGELA

Há pouco tempo, cerca de seis meses, escrevia eu sobre o “foragido” gerente Bruno Barcelos Amaral, do Restaurante e Pizzaria Apricci, ponto nobre localizado no porão de meu apartamento. Digo porão porque quase tem uma escada para o chope obrigatório de todas as sextas-feiras. Depois de viciar os clientes com um atendimento diferenciado, eis que ele fugiu, se foi, tirou o time de campo — é o que digo sempre de alguém que deixa saudade.

Informei nas mal traçadas linhas que veio uma senhora de fino trato para ocupar o seu lugar. Elisângela Guimarães, belo-horizontina, vinda de Governador Valadares, casada, mãe de um belo casal. Ela tinha uma meta bastante arrojada: substituir um gentleman que se vivesse há mais de dois mil anos seria o garçom da Santa Ceia. E ela, “Do Lar”, como escrevia o meu tio e escrivão de São Sebastião do Rio Preto, Noé Augusto de Souza, para definir uma mulher que cuida da casa. E executiva, como diz hoje o linguajar popular ou mesmo o especializado.

Aula dos filhos, gripe, tosse, noites maldormidas, corre-corres diários, alimentos na hora certa, faltam pizzaiolo, chope, iguarias, cozinheiro, garçom, caixa — o acúmulo de tarefas para uma só heroína a faz pular como pipoca em panela quente, dia e noite, noite e dia. E ela tem que se virar. Ela se virava de moto, até enfrentava o perigo das noites agitadas ou quietas, sempre um risco, principalmente para elas, as mulheres.

O segredo de comprar e vender numa casa de comidas e bebidas está no equilíbrio do estoque. Não pode faltar, como não pode sobrar. Todo excesso resulta em prejuízo para quem administra ou sustenta a casa comercial. É sério o caso da mão de obra, apesar do choro geral de que vivemos em pleno período de desemprego. A verdade é outra: falta profissional qualificado no mercado, um pouco porque o governo resolveu engessar a preguiça do cidadão com o famigerado Bolsa-Família e outro tanto por culpa da cultura brasileira.

Refiro-me a uma mãe de família e executiva ao mesmo tempo. Que carrega no cérebro cotidianamente as palavras amor, carinho, orientação, compreensão, bondade e, ao mesmo tempo, é obrigada a deixar entrar os ataques de real, dólar, mercadoria, caixa, entrada e saída, fluxo de caixa, viabilidade econômica e outras expressões financistas incompatíveis. Mas o seu cérebro é abençoado e ela consegue o equilíbrio disso tudo, como do estoque e da paz no ambiente de trabalho.

Confesso de sã consciência que toda vez que entrava no Apricci, seja para almoçar ou para uma chopada com a família e/ou amigos, olhava com muita pena essa nossa amiga Elisângela. Vez por outra tinha que sentir o seu olhar meio triste, desculpe-me se estou sendo um mau e falso psicólogo, mas era a pura verdade.

Acostumamo-nos com a sua receptividade. Seu incomum jeito de ser tão notável que ela, por estratégia comercial já conhecida, sempre reclamava de ausências e faltas. “Você sumiu!” — a queixa sempre acompanhada de um forte ponte de exclamação. Mal tinha tempo para olhar para todos os lados e ver as brechas do comércio, a distração do funcionário, o atendimento, tudo enfim, mas não lhe faltou o tempo do carinho aos seus clientes.

Agora, finalmente, Lis vê realizar o seu sonho. Ela própria  um dia me disse: “Casei-me para estar sempre com o meu marido e a minha família”. Agora alcança a meta, trabalhando como ela sempre quis, isto é, sem sair do Grupo Tia Eliana. Só que estando em BH, vai se afastar de nós, itabiranos, como um dia o Bruno o fez, e deixar uma grande lacuna na amizade que construiu.

Mas a vida continua. Chega para junto de nós, no Restaurante e Pizzaria Apricci, Delmo Coelho e esposa, acostumados em nos servir com o atendimento na indelével Farmácia do Dario (saudosa figura) para outro tipo de serviço, igualmente digno de nossa apreciação.

Que todos sejam felizes nos novos rumos que tomam. A amiga Elis, a quem dedico esta página, que leve a sua simpatia para outros lugares onde possamos vez por outra ir usufruir desse seu especial jeito de ser. Abraços.

terça-feira, 17 de março de 2015

UM PAPO MUITO ANTIGO: O GOLPE DO JOÃO-SEM-BRAÇO

Desde as mais remotas eras  os  presos das cadeias públicas brasileiras comentavam entre si: “Estamos aqui por causa de meia dúzia de galinhas que roubamos e fulano de tal roubou milhões e continua solto”. Apesar do choro, que é livre, ninguém ouviu as lamúrias dos pobres-coitados. Os tempos passaram, pelo menos deixaram uma saída para os condenados de hoje.

Dizem que avançam as investigações da tal Lava a Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). A defesa dos pré-condenados, que a inteligência popular brasileira sabe quem são, se alicerça de várias formas. Primeiro, nomearam um tal de Dias Toffoli para presidir o julgamento do STF. É a mesma história do galinheiro, cuja tomadora de conta, a Senhora Raposa, jamais oferece segurança, nem para as galinhas e galos, nem para os amantes das aves indefesas.

A outra defesa dos futuros réus é mais uma escapatória: “Já que estão mexendo aqui, então vamos fazer uma limpeza geral”. Querem dizer, se não pegarmos todos os bandidos não haverá bandidos. Essa  é de amargar. Como dói! Dói mais que a última estrofe de Carlos Drummond de Andrade em Confidências do Itabirano. Ah, os ladrões de galinhas reclamaram faz tempo, mas somente agora lhes dão ouvidos? Convém cair no golpe do joão-sem-braço?

Assim caminha a humanidade: pequei, errei, cometi absurdos, mas vou pagar se todos pagarem. Se não houver uma unanimidade de condenações, estou livre, absolvido, sem culpa alguma.Bem, convenhamos afirmar que aqui o mundo é imperfeito e cheio de defeitos. Não tem como esperar endireitá-lo para proceder ao julgamento. Em outras palavras, não existe agora clima para um Juízo Final. E Juízo Final não é com a gente aqui neste buraco negro.

Na área política existe mais um obstáculo que os novos condenados mencionam. Muito simples e todos aceitamos estas alegações: bandido não pode julgar bandido. E mais uma que destrona a idéia do “todos condenados” e cito-a me lembrando de palavras de um ex-juiz de Direito de Itabira: “A Justiça só age de ofício”. Quer dizer, o julgamento é dos fatos conhecidos, denunciados, colocados ao alcance dos tribunais, que fazem parte do processo e não de possíveis defeitos humanos tomados num todo.

Então, fica assim o que queria dizer por hoje: deixem as águas rolar. É provável que o Brasil continue como está. Provável e o pior: se perdoarem os atuais corruptos que, por exemplo, quebraram literalmente a Petrobras, haverá uma desvairada corrida para a sujeira ainda mais alucinada. Lama sobre lama. E o que mais nos ameaça a esta altura do tempo sabem o que é? A grande divulgação internacional sobre o que está ocorrendo no Brasil. Antes, lia eu jornais de vários países, como Le Monde e Le Figaro, da França; El País, da Espanha; Clarín, da Argentina, Corriere Della Serra, da Itália: New York Times, dos EUA; BBC, da Inglaterra; Correio da Manhã, de Portugal e muitos outros que  nada falavam do Brasil. Agora somos alvo de piadas e da chacota por milhares de órgãos de imprensa do mundo todo. É triste, viram?


Cada um que procure melhorar a si próprio, porque somente assim alcançaremos o futuro esperado. Mas não vamos esperar esses gloriosos dias para darmos o golpe já falado, o do joão-sem-braço. Muito cômodo e golpista esperar  todos  melhorarem para julgar a manada toda. Sendo assim, teríamos que acabar com os presídios e as cadeias do baixo  meretriz. Seria uma bagunça mais que geral. Um salve-se sem puder de arregaçar a vida de todos. Isso não! Alto lá!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

EM NOME DA PAZ AGORA E SEMPRE

Não há mais espaço para contar a história macabra do campo de futebol de minha terra, São Sebastião do Rio Preto. Digo macabra porque o meu vocabulário não tem outra expressão mais condizente com as matanças de esperança que ocorreram nesse filme de terror. Se aparecer por aí um escritor anônimo ou não que queira escrever um livro sobre o tema, será um bom assunto para contar parte da história triste são-sebastianense. Por isso, vou resumir em apenas um tópico: uma fábula verdadeira de dois réus e quatro vítimas. Réus: Departamento de Estradas de Rodagem (DER) e Prefeitura de São Sebastião do Rio Preto; vítimas: comunidade local, São Sebastião Futebol Clube, mocidade e o futuro.

Mas vamos colocar um ponto final em alguns desses dramas porque, no dia 1º de março, data de aniversário da cidade, deverá ser reinaugurado o campo, originário de doação de meu avô Godofredo Cândido de Almeida (fato que me dá alguma autoridade para escrever por minha família – além de outros netos, há dois filhos em plena consciência, graças a Deus –) denominado por lei, de autoria do prefeito Luiz Gonzaga de Almeida, Estádio Dr. João Rodrigues de Moura.

Posso dizer aqui que o crime contra as vítimas citadas tem praticamente dez anos de vigência, paciência e tortura. Uma tortura silenciosa, que eliminou duas gerações de adolescentes e jovens, que se abstiveram de praticar o esporte no praticamente único local para tal na cidade. Quantos se descambaram para as drogas por falta de lazer? Não se sabe. Levando em consideração que o futebol no Brasil é um passo para alguém ser famoso e rico, quantos não puderam mostrar o seu talento no campo que já contou com bons jogadores noutros tempos? Não se sabe. Destruído o palco do esporte pelo DER, a Prefeitura teve mais que paciência para tolerar a imposição sobre o  nosso terreno, demorou a tomar decisões e, no final, finalizou um trabalho que foi interrompido por uma empreiteira. Sem esclarecimentos, nem há pistas de como e onde a Prefeitura conseguiu verbas para concluir a obra. A Anglo American participou com um valor que acabou sendo insuficiente.

A data de reinauguração está marcada? Nada oficial e nem se sabe o motivo porque faltam somente dez dias para a “festa”. Escrevi “festa”, mas pergunto: será que haverá festa? Festa de quê? Comemoração? Não acredito. Creio, sim, que deveria haver um ato público de “Solicitação Oficial de Perdão” às vítimas desse crime para mim hediondo que se cometeu contra as vítimas já citadas. Para explicar o crime, deixo para outra ocasião, caso haja a necessidade ou a obrigação de fazê-lo. Mas, se preciso for,  irei aos tribunais para defender o que afirmo: crime hediondo, não prescrito no nosso Código Penal, mas com todas as características que um bom advogado poderia, sim, enquadrar.

Mas o momento é de agradecimentos – e há tempo para preparar o programa da “festa”, já que faltam dez dias e ainda não foi feito  – a gratidão não pode faltar.  Primeiramente, a José Eugênio Gonçalves, que, além de exercer as funções cumulativas de presidente da Câmara Municipal e secretário Municipal de Obras, fez tudo pela reconstrução da obra. Esse moço teve uma reunião com a Diretoria do SSFC, na minha presença e da saudosa Raimunda Almeida Dias, em sua casa, ela como membro do Conselho Consultivo. Na reunião, prometeu o seguinte: quando tudo estiver regularizado, ou o campo pronto, devolve ao clube o registro de sua propriedade que foi indevida mas reconhecidamente passado em nome da Municipalidade sem o conhecimento e a participação do verdadeiro dono do terreno.

E outros agradecimentos, até mesmo a Anglo American que, na verdade, com o problema nada tem a ver, apesar de ter, sim, outras dívidas,  tanto sobre a passagem de carretas nas ruas como do mineroduto que não traz progresso. Poderia ser uma estrada de ferro, não? Mas agora não é hora de tratarmos de problemas vencidos. Acertos são outros e, alguém vai ter que explicar na hora certa o porquê de construir arquibancadas detrás do campo e não numa das laterais. Vejam bem: em todos os jogos de profissionais, os preços de ingressos atrás das traves são a metade do preço, sinal de que a  localização feita não é a melhor. E nós, torcida, nada merecemos?

Só isto basta para concluir este mal traçado texto. Sem polêmica, como se fosse um escrivão de Paz, instalo a paz. Que a verdade seja sempre dita e respeitada e que a nossa terra se livre para sempre da terrível politicagem que a persegue e trava o seu caminho rumo ao progresso. E assino.