quarta-feira, 26 de junho de 2019

A BABOSEIRA DO PRECONCEITO


Gente, eu devo estar estupidamente errado se penso como penso. Se alguém me lê, aconselho que desista logo para não ter que me chamar de babaca, bobo alegre, jacu da corte, por aí. É claro que o preconceito existe. Existe porque está no dicionário. Mas pergunto: tem problema algum humano ter um conceito previamente formado? Tenho um conceito prévio de que o Planeta Terra é redondo. Faz mal? Também admito interiormente que todas as pessoas que carregam deficiências físicas são como as outras, ou seja, iguais. Talvez mereçam ser melhor tratadas. Como não merecem respeito algum, vamos à lei da compensação.

Todo cego é, automaticamente, portador de outros sentidos mais desenvolvidos. Por exemplo, têm mais tato, olfato e mais percepção. Tive uma colega na faculdade que é cega. Mas ela fazia coisas, subia escadas, pegava elevadores, encontrava a sua sala de aula, o banheiro, distinguia os prédios com enorme facilidade. No aprendizado, usando a linguagem própria, o alfabeto braile, se destacava entre seus colegas. E conhece ainda hoje as pessoas pelo cheiro à distância, pela voz e o som da respiração. Não é incrível?

Quem é cadeirante merece uma rampa para subir, a preferência em atendimentos em bancos e repartições públicas, mas não precisamos ter pena deles. A natureza os compensa com incríveis vantagens sobre os demais seres viventes e mortais. E vivem, quase sempre melhor que todos, principalmente se a condição deles seja de nascença.

Quanto a questões como "ideologia de gênero", esta é uma expressão usada pelos críticos da ideia de que os gêneros são, na realidade, construções sociais. Para os defensores desta "ideologia", não existe apenas o gênero masculino e feminino, mas um espectro que pode ser muito mais amplo do que a identificação somente com masculino e feminino. Discordo em gênero, número e grau, e trato o ser humano conforme ele se apresenta: se com roupas conhecidas masculinas, como menino, rapaz, homem; se vestido na moda feminina, como menina, moça, mulher. O resto que se dane! Outro dia vi numa repartição pública um funcionário fazer a ficha de um cidadão e perguntar a ele: “Você é homem ou mulher?” Pensei com meus botões e fechos-ecleres: se alguém me fizer um questionamento deste  digo “bom dia, boa tarde, boa noite” e desisto do tal cadastramento.


Homofobia, racismo e outros conceitos condenados por aí são questões de interferência da falta de inteligência artificial que massacra a inteligência natural. Fui criado com mulheres negras — babás, cozinheiras etc. — e da infância à juventude, passando pela adolescência, só fui sentir que não podia chamar alguém de “preto”, “branco”, “gay” etc quando já tinha esses meus cabelos brancos, ou seja, depois que o mundo me corrompeu. E como me degradou!  Antes eu era puro como uma água cristalina que cai degraus sobre degraus e pensava que todos sejam filhos de Deus e iguais em tudo. Até dos animais irracionais demorei a aceitar que eles tivessem diferenças dos chamados racionais. Agora, a sociedade quer mostrar o seu arrependimento e adula cães e gatos como se eles frequentassem igrejas, campos de futebol, voleibol, escolas, associações etc.

Escrevi tudo isso e o espaço me aperta para concluir. E ainda não cheguei ao objetivo deste texto. Vou ver se consigo resumir tudo para não ter que esquecer estes rabiscos no computador. É o seguinte: nasci surdo, quase sem ouvir. Não sei como aprendi a falar. Passei uma boa temporada entre o curso primário, o ginasial (fundamental), o segundo grau (médio) e o superior sendo não apenas discriminado, o que dói de verdade, mas achincalhado, pisoteado, tomando tapas nas orelhas, recebendo apelidos acintosos, humilhado. Foi duro! Mas sobrevivi. Quando inventaram o aparelho auditivo, reforçado pela avaliação da audiometria, achei que tinha alcançado o céu.

De verdade, alcancei, sim, o paraíso. Mas, por fora de tudo, a discriminação é que prevalece. E ela veio dura como uma rapadura. Não acredito que todos os surdos do mundo percebam o quanto são colocados de lado, às margens. Imagine: concluí cursos superiores, estudei idiomas, dei conta, trabalhei em empresas, montei empresas, atuei na imprensa, editei, editorei, tudo graças a próteses que, quase sempre, ficam ocultas. Mas a partir de quando comecei a usar os mais avançados aparelhos auditivos, esses ficam às vistas claras. Aí, veio uma palavra que não pode ainda, a meu ver, sair do Aurélio: segregação.

Não entendo por que os óculos são considerados objetos normais, estampados em rostos, e seus portadores não estejam no foco da marginalização. Talvez porque  óculos sejam mais comuns, cheguem a ser objetos de realce de belezas e seu uso vai para além dos  seres humanos que têm miopia ou hipermetropia ou astigmatismo. O sujeito chega no camelô e compra um sem nenhum esforço ou cerimônia e o mete na cara só com ajustes  e sai de sol a sol exibindo o charme.

Quando um ser da mesma raça humana que usa próteses auditivas segue para ser atendido, por conhecidos ou não, num lugar qualquer – consultório, loja, agência –  o dono da palavra, seja um médico (e principalmente um médico), ou gerente de banco, ou funcionário de alguma repartição, ou loja, esses vocês sabem o que fazem? Simplesmente, desviam a atenção dele e vão falar com o seu acompanhante, eleito ali como o interlocutor que merece atenção. Eis aí a verdadeira discriminação, jamais punida, sempre sentida pela vítima, e nunca reconhecida pelo seu praticante.


Por esta razão, e outras que ainda posso mostrar, é que digo: retirem do dicionário a expressão preconceito, esta sim, não cabe lá, já que o principal é desconhecido e ignorado.  Porque, maliciosamente ou não, as principais figuras que resolvem os nossos problemas — e até os que recebem pagamento para tal — adoram praticar esse tipo de ação que deveria tipificar o crime como bárbaro, hediondo, contra a humanidade ou pecado que abala o Céu, a Terra, o Purgatório e até o Inferno.

José Sana

Em 26/06/2019

sexta-feira, 14 de junho de 2019

EM 2020 SEREI CANDIDATO A PREFEITO. E AVISO QUE JÁ ESTOU EM CAMPANHA


Resolvo abrir o verbo, talvez desrespeitando as leis eleitorais, arruma pra lá, mas sou sincero e me declaro candidato a prefeito de Itabira para concorrer em outubro do ano que vem. Não volto atrás. Não desisto. Não abro. Repito: sou candidato a chefe do executivo itabirano para governar os 119 mil moradores do município a partir de 2021.

Sei que o leitor vai dizer: “Eu sabia que esse safado queria  mesmo tomar a prefeitura e tornar-se persona non grata”. Verdade. Quero ser isso mesmo para quem pensa que sou muito mais esperto que todo mundo. “Fica bobo aí” – esta é uma frase que aprendi em minha terra natal, São Sebastião do Rio Preto, e sigo na vida levando da teoria para a prática.

Sou candidato e lanço a minha  plataforma de governo. Anote quem quiser e me cobre caso eleito for:
- A partir da primeira semana de janeiro de 2021, demitirei todos os funcionários da prefeitura. Sei que o leitor ou eleitor vai dizer que não pode porque tem lei assim, assim, assado, mas eu digo que pode, sim, porque o que adianta ter funcionário e não ter dinheiro para pagar? Recorram à Justiça e, então, eu abrirei os cofres municipais para todos os juízes e desembargadores existentes no Planeta Terra. Que confiram lá a teia de aranha que nascerá dentro desses imaginários cofres.

- A partir da primeira semana de administração, terei apenas um setor de trabalho, a do “pega pra capar”. O chefe desta repartição, que se chamará Secretaria Castradora, tomará todas as providências para mandar emitir boletos de cobrança de impostos. Nesse setor teremos um advogado que fará cobrança judicial endereçada a todos os devedores municipais. Para pagar o trabalho do funcionário da SC faremos uma coleta diária de valores na praça, com chapéus de palha e balaios.

- A cidade não terá nem limpeza urbana nem coleta de lixo. E ficará super limpa porque quem ajudar a limpar o entorno de suas portas terá significativos descontos em seus impostos. Quem oferecer um caminhão para entregar o lixo no aterro sanitário e, além de limpar, entrar com um caminhão na coleta, será isento de impostos por quatro anos.



- O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) será privatizado. Será arrecadado um bom dinheiro que servirá para pagar eventuais dívidas mais que normais.

- A prefeitura atenderá a todos os pedidos de esmolas, como cestas básicas, ajuda para construção (pedras, tijolos, areia, cascalho, cimento etc.), mas o suplicante terá que prestar serviços para pagar o que leva. Será aberto pelo chefe da Secretaria Castradora encaminhamento de pessoas trabalhadoras. Nada de carteira assinada, nada de ajuda financeira: somente o registro de troca de serviço por contribuição de materiais de construção.

- Se até 2021 ainda existir o Hospital Municipal Carlos Chagas, será reprivatizado. Nada de incumbências impossíveis que não deixam nem a empregada doméstica do prefeito dormir.

- Se a prefeitura arrecadar algum dinheiro, este será para reservas de contingência, ou seja, ficará no banco de sobreaviso para cobrir as intempéries e os gastos obrigatórios que poderão surgir eventualmente.

- Eu, prefeito e o vice-prefeito (esse é claro, porque onde já se viu vice-prefeito receber para ficar à toa?) nada receberemos de remuneração. Quanto aos vereadores, problema deles:  se querem alguma contrapartida em dinheiro por seus valiosos serviços, tomem as suas providências particulares, mas no meu governo eles não receberão nem um centavo, a não ser que existam tostões disponíveis nos cofres públicos já que, como já disse, nos cofres somente teremos teias de aranha.

- Depois do primeiro ano de administração, a maioria dos locais de trabalho será vendida como bem imóvel.

Pronto. Sei que muitos vão exclamar aliviados: “Graças a Deus, você não será eleito!”. E eu respondo: “Sei disso, estou mais do que certo, pois, talvez, nem eu mesmo votarei em mim. Mas deixo bem claro que a única saída para Itabira, caso o andar da carruagem continue no mesmo trote, isto é, do nada fazer pelo que vem por aí, o prefeito que fizer o contrário não terá dinheiro nem para comprar papel higiênico.

Um abraço

José Sana
Em 14/06/2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

A “PROFISSÃO” DO MOMENTO

Gente, proponho focalizar um assunto que pode ser importante. Quando focalizamos o passado e tentamos analisar o presente o assunto é para adultos e idosos. Mas quando tentamos vislumbrar o futuro, convenço-me de que as crianças são "experts". Por isso tremi da cabeça aos pés ao presenciar um diálogo em sala de aula, de uma professora com seus alunos, esses na faixa de 11-12 anos.

PROFESSORA – Mariazinha, o que você quer ser quando crescer?

MARIAZINHA – Quero ser médica, fessora. Tenho um tio que é médico e ele ganha um bom dinheiro e ainda faz as pessoas felizes ao curar doenças. Ele vive feliz.

PROFESSORA – Muito bem. Espero que escolha uma boa especialidade...

MARIAZINHA – Eu vou ser pediatra, fessora. Quero ver o sorriso das criancinhas...




PROFESSORA – Parabéns, menina! E você, Pedro, o que quer ser quando crescer?

PEDRO – Eu vou ser igual o meu pai: vou ser engenheiro e construir muitos prédios. Quero encher cidades de arranha-céus. Meu pai fala arranha-céu, acho que é exagero. Mas quero ser engenheiro civil.

PROFESSORA – Boa escolha, Pedrinho. Mas e você, Gabriel, está pensando em qual profissão para o seu futuro?

GABRIEL – Vou ser advogado, se tudo der certo como meu pai e me mãe apoiam. Eles são advogados e têm uma boa clientela. Defendem a justiça e contribuem para um mundo de paz.

PROFESSORA – Está certo. Você, Adriana, já escolheu a sua profissão de quando estiver moça grande?

ADRIANA – Estou pensando em ser dentista. Temos muitos dentistas na família. Todos felizes, ganham dinheiro e ainda promovem sorrisos bonitos.

PROFESSORA – Que beleza de pensamento, Adrianinha! Mas agora quero saber do João:  Joãozinho, o que você pensa em ser daqui a uns anos que vêm aí?

JOÃOZINHO – Não penso não, professora. Já decidi. Quero ser um hacker em breve e já estou treinando no computador e no celular. Quero saber da vida de todo mundo, quero descobrir segredos das pessoas em troca de dinheiro, muito dinheiro.

PROFESSORA – Que é isso menino? Quem botou isso na sua cabeça? Está maluco?

JOÃOZINHO – Que maluco que nada! Eu sou um visionário, minha mãe diz isso pros vizinhos. Médico, dentista, advogado, engenheiro, já era, professora. Eu quero é viver a vida, trabalhar para políticos, empresários, gente rica. Eles querem fuçar a vida dos outros, saber de tudo, ter o mundo em minhas mãos.

PROFESSORA – Belo exemplo acaba de receber de gananciosos que querem tomar o poder, hein Joãozinho?  Olha, vamos ter uma conversa mais profunda. E quero, também falar com os seus pais.

JOÃOZINHO – Cuidado para eles não virarem a sua cabeça! A senhora deixará de dar aulas e será minha aluna ou minha sócia. Vamos faturar alto.  A senhora topa?

José Sana
Em 12/06/2019

quarta-feira, 29 de maio de 2019

AVENIDA MAURO RIBEIRO LAGE, PISTA CRIMINOSA DO TRÂNSITO DE ITABIRA


No início do século, governo de Ronaldo Lage Magalhães, foi construída até então a mais concorrida ou promissora avenida de Itabira, que recebeu o nome do grande empreendedor que foi o senhor Mauro Ribeiro Lage. Pistas largas ladeadas por construções modernas, em extensão só perde para uma outra via urbana concentrada em quatro nomes: Carlos Drummond de Andrade, Carlos de Paula Andrade, Cristina Gazire e Prefeito Li Guerra

Alguém que me acompanha eventualmente deve ter pelo menos lido ou ouvido falar da  Isle of Man,  linha em que mora uma comunidade autônoma, situada no mar entre a Irlanda e a Grã Bretanha, onde se realiza uma vez por ano, em suas ruas, a mais perigosa corrida de motocicletas do mundo. Como em nosso planeta tem doido para tudo: muitos sonham em correr nessa ilha violenta, onde milhares de pilotos morreram nas lépidas disputas. Outro tanto de curiosos desejariam mesmo conhecer e também milhares vão até lá para ver de perto as corridas em que em algumas cenas mostram o vento voando, tal é a velocidade incrível que imprimem em rodas de assombrosos equipamentos.

Quem conhece Itabira normalmente sabe onde fica a Avenida Mauro Ribeiro Lage. Ela é, sem dúvida, a mais perigosa e violenta de todas as avenidas da cidade, ou do mundo, e talvez só perca mesmo para a europeia Isle of Man. Diria alguém que os motociclistas de Itabira são violentos e furiosos como naquele filme, eu discordo radicalmente.

O grande culpado de tudo chama-se Serviço de Trânsito da Prefeitura. Os mais insensíveis, além desses decisivos donos da vida ligeira itabirana, estão assim listados:  o prefeito, os vereadores, a comunidade, todos nós enfim e, especialmente, a vigilância do trânsito que tem o nome de Transita. E acho que a Polícia Militar também está nesse grupo de responsáveis ou irresponsáveis que há quase 20 anos deixam as águas rolar, ou rodar.


Está aí o vilão maior de todos: os chamados quebra-molas na linguagem popular e lombadas para os mais letrados. Vamos denominar  esses pretensos redutores de velocidade  da Mauro Ribeiro de simplesmente convites à presteza, mesmo porque nada quebram de molas, não destroem e são o maior estímulo à velocidade dos motoboys itabiranos ou visitantes.  Mais que incrível, mais que soberbo, mais que inacreditável é que não se vê, não se houve, nunca se nota movimentação alguma de entidades comunitárias, religiosas, políticas e nem a polícia prestarem a atenção nesse absurdo barulhento. Vou fazer um desafio: procurem saber se a pista de velocidade da Avenida Mauro Ribeiro Lage está entre os fatores mais cruéis do trânsito itabirano. Não deve estar. O que a Transita mostra claramente como sua função é somente multar  no trânsito central da cidade, fator que dá retorno, dinheiro aos cofres públicos, lucros desmesurados e massacra a comunidade que tem pressa para trabalhar, comprar, se virar, ir ao dentista, ao médico, viver.

Além da velocidade louca e dos atropelamentos que ocorrem (eu, pessoalmente, já assisti vários e um com morte imediata de uma senhora), existe o barulho incrível. Parece que as motocicletas ou motos itabiranas estão equipadas com canos de descarga de Boeing 707, tal é o estrondo que provocam nas suas aventuras pela citada mais importante avenida de Itabira.

Até quando esse descalabro vai durar? Quem pode me dar uma resposta taxativa e séria?

José Sana
Em 29/05/2019

sexta-feira, 24 de maio de 2019

CRÔNICA DA DESGRAÇA ANUNCIADA: SALVE-SE QUEM PUDER!

Jamais pensei em escrever algo assim em que se inserisse a expressão horripilante “desgraça”. Por mais que o mundo nos ofereça e oferece mesmo panoramas desanimadores, sempre acreditei naquele adágio popular que diz “depois da tempestade vem a bonança”. Hoje confesso que a expectativa de fatos desagradáveis nos conduz a um sofrimento maior que enfrentar a fúria de um fato já consumado.

Neste momento, Barão de Cocais, cidade de uns 25 mil habitantes, situada a cerca de 60 quilômetros de Itabira, a menos de 100 de Belo Horizonte, bem aqui pertinho de nós, está com um aviso pregado na mente do povo que se resume em interrogação sobre o que virá. A mineração, que nem tanto assim premiou os cofres do município, mais dedicado à siderurgia, pode decretar pelo menos a metade do fim da cidade e de outras situadas nas proximidades, além de acabar com nascentes promissoras e rios caudalosos.


Não vou  desfilar algumas informações sobre Gongo Soco, originário do Cico do Ouro, onde está armado o front de uma nova guerra ambiental. O sítio tem sua história iniciada em 1745, esteve nas mãos de ingleses, depois da Mineração Socoimex (leia-se Diogo Bethônico) e, finalmente, caiu em poder da famosa, poderosa e quase intocável Vale (ex-Companhia Vale do Rio Doce), tendo sido a mineração transferida em massa para a extração de minério de ferro, em 1986. Até hoje, o acervo ambiental e histórico da região continua de pé.  Mas não se sabe até quando isso durará porque o fim está sendo anunciado até pela mineradora que era orgulho dos mineiros.



Vai romper. Não vai romper. Talude cede. Talude não cede. Barragem idem. Vão-se embora cidades (pelo menos umas três estão mencinadas em relatórios técnicos). Rios morreram e vão morrer, como sucumbiram vários cursos de água  assoreados  por lamas. Minas Gerais ameaça sumir do mapa, pelo menos o nome pode ser mudado. E a Vale age de forma inexplicavelmente misteriosa. Ela própria, depois dos apertos ocorridos a partir de 26 de janeiro deste ano, em Brumadinho, resolveu mudar de tática, não nega rompimento de barragens, nem destruições, nem fim da fauna, flora e até de homens, mulheres e crianças. Pelo contrário, pratica o que os terroristas do Oriente Médio pregam, a implosão de tudo. Explicável isto porque a mineradora, estatal ou privada, não existe, não tem cara, não tem personalidade. O que ela tem: o jeito novo de ser madastra-bomba, substituta do terror pregado por Bin Laden, que mostrou a estampa do homem-bomba. E as sirenes tocam como trombetas do Apocalipse.

Barão vive a expectativa do fim, apesar de alguns cocaienses, ingênua ou sabiamente, acreditarem que tudo não passa de mentiras deslavadas. Imaginem a cidade invadida por centenas de máquinas, quase milhares de caminhões novos, que impressionam, nenhum “pé de pomba” dorme mais, bancos fechados, não se pagam contas nas redes, empréstimos vencem, dobram os preços dos alimentos, paralisa-se a sua indústria siderúrgica, os políticos ficam cada vez mais perturbados por informações desencontradas. Cadê a Vale? Já escrevi acima: ela não existe, está agora, somente, fazendo um novo papel para dizer que tenta salvar todos, incluindo a antecipação da própria tragédia. Inventou até — e em toda a região — a chamada “Rota de Fuga”, placas abundam em todas as cidades mineradoras de Minas Gerais. Em outras palavras, a mineradora, mundialmente conhecida, tenta socorrer os atletas, somente aqueles que sabem correr, abrindo mão de crianças, idosos, deficientes físicos e mentais, talvez mais de um terço dos que pelejam normalmente para sobreviver e vão dar suas vidas pela segunda maior empresa de mineração do mundo.

Primeira vítima da Vale foi Mariana. Depois chegou a vez de Brumadinho. Barão está na sua rota. Acordem, gente, porque pode chegar a vez de sua cidade-mãe, Itabira.

No lugar da seta indicativa que a Vale colocou escrito “ROTA DE FUGA”, ela deveria rapidamente mudar a conotação para ficar mais autêntica, menos demagoga e definitivamente ex-covarde: “SALVE-SE QUEM PUDER!”

José Sana
Em 23/05/2019

quinta-feira, 23 de maio de 2019

ECONOMIA PODE MESMO SER SINAL DE PORCARIA


Estamos no ano de 1999, por aí, e viajo sempre para o Sul de Minas, onde descobri a mina de Salomão. Baú de riquezas não em meu poder, mas de um casal que se instalara à beira da Fernão Dias, rodovia que liga Belo Horizonte a São Paulo, capital. Era um senhor muito simples, quase analfabeto, se é que existe mesmo esse percentual equivalente à sabedoria de trás para diante. O senhor Melquíades tinha uma história que resolvi até escrever na época e publicar na revista digital.

Seu Mel, como a vizinhança o chamava, resolveu vender caldo de cana na beira da estrada. E foi se aprimorando: entrou com água de coco; inventou a garapa na água de coco; sua companheira começou a fritar uns pasteis e não parou de crescer. Fez um banheiro masculino e outro feminino, bem perto  usando as técnicas de fossas assépticas; instalou umas cadeiras, depois lonas para proteger os clientes que ele chamava de “freguês”. Dona Maria o ajudava muito; o filho, de uns oito anos, o Paulinho,  já cortava cana, puxava a dita fornecedora da garapa numa dupla de cabras, e até coco da Bahia arrastava num carrinho de mão de um fornecedor a duas léguas de distância.

Continuou a expansão.  Apareceu  um advogado vindo de São Paulo, que parava sempre ali e o aconselhou  a estender o terreno para os fundos, ofereceu-lhe serviços jurídicos gratuitos caso precisasse, enfim, acompanhou o avanço do amigo por pura simpatia pelo jeito que Seu Melquíades trabalhava e sua simplicidade que atraía atenções. Trouxe pra ele um projeto de extensão de energia elétrica, ajudou-o a montar, no aspecto técnico, com outro trabalho gratuito de um eletricista seu amigo. E o comércio teve uma transformação incrível, o empreendedor analfabeto fez do Caldo de Cana do Seu Mel o Empório Melquíades, que virou também restaurante bem frequentado, depois pousada, ainda um grande posto de combustíveis. Quem diria que Seu Melquíades fosse chegar a tanto e chegou a empregar umas 60 pessoas.



Já velho, mas ainda entusiasmado e trabalhando, trouxe o filho que estudava em Batatais para mostrá-lo a amigos, à família, com muito orgulho. Não era filho único, tinha uma moça também que se tornara professora. Paulinho formou-se em Economia em Batatais (SP). Tranquilo, graças à riqueza dos pais, não corria tanto para buscar ou um emprego ou uma sociedade para ganhar a vida daqui para a frente.  Chegou de diploma na mão, menino bonito, pomposo, fluente num português correto, ao contrário de seu Mel, que “só falava batata”, como diziam na região. Eram expressões do tipo de “nós foi”, “nós vai”, “vou pra riba”, “desci pra baixo”, que davam até vergonha no economista metido que acabava de chegar, e  assustado.

Assustado, sim, com o crescimento assustador da empresa de que foi tirado o seu sustento escolar e até uma boa-vida  no interior paulista. Absurdo, começou a pensar. Via caminhões entregando enlatados, cervejas, refrigerantes, combustíveis,  sacas de milho,  arroz, feijão, porcos, frangos e bois para o açougue, movimentação que o fez chamar o pai num canto e lhe fazer sérias admoestações: “Pai, o senhor está maluco? Vivemos uma terrível crise lá fora; a inadimplência toma conta do Brasil; a pobreza se expande; empresas e mais empresas estão caindo na falência, e o senhor comprando essa quantidade de mercadorias?”

E virou rotina nos dias em que o novo economista estava por ali, ele falava todo dia, abordando expressões que iam de  crises, falências e conselhos desanimadores  que não saíam de nuvens negras. Procurava, enfim, colocar na cabeça de Seu Mel que ele não podia continuar  assim, assinando cheques e mais cheques, comprando carretas e mais carretas de mercadorias para a revenda. Seu Melquíades, então,  já preocupado, começou a não dormir. De madrugada era pilhado em terríveis insônias por Dona Maria.

Ambos, mesmo na calada da noite, começaram a pensar nisto: “Se o nosso filho estudou muito, tirou um ‘deploma’ e tem um anel no dedo; se foi premiado com medalhas  por ser bom aluno da faculdade; se viveu na cidade grande e viu tudo acontecer e sabe o que está aconteceno, a razão tem que tar com ele, nóis é que tá fazendo coisa errada”. As ordens de Seu Melquíades  para os outros empregados passaram a ser constantes, então, a partir dessas reflexões voltadas para a redução nas compras cada vez mais, menos bebidas, menos enlatados, menos cereais e começaram a faltar até gasolina, óleo diesel e álcool nas bombas. Os clientes, sentindo que havia  falta de entusiasmo no Empório da Rodovia, foram mudando de hábitos e afastavam-se naturalmente dali, não eram encontradas mais uma comida boa e nem cigarros, nem caldo de cana, nem coco da Bahia naquele lugar que começou do nada com um senhor muito simples.

É claro que o economista de nome respeitado pelo pai e pela mãe foi perdendo também o seu espaço naquele lugar, pois não havia mais dinheiro sobrando para o seu jeitão esnobe. Restou-lhe cair fora e foi ver se arranjava um emprego lá por onde era reconhecido como profissional do ramo de finanças. Tornou-se fácil  concluir que o Empório do Melquíades foi  pras quintas do inferno, faliu-se, não daria outro resultado. Seu Mel caiu numa  pobreza tão triste que  decidiu ver se conseguia uma aposentadoria  de um salário mínimo com o mesmo advogado que o havia incitado a crescer na vida. Era a sua última esperança sob uma sabedoria que até os pobres de espírito sabiam entender, ao justificar o fracasso dos conselhos do filho: “Santo de casa não faz milagre”.

E registrei esta triste  história verdadeira na revista digital que editei pouco depois da publicação impressa, entre o seu princípio e o meu adeus ao cargo de editor-chefe.

José Sana
Em 23/05/2019

quinta-feira, 16 de maio de 2019

ÚLTIMA CRÔNICA: CADA UM NA SUA ROTA DE FUGA

Anunciei a meia dúzia de eventuais leitores que estaria chegando ao fim estas enfadonhas crônicas. Prometi parceria somente com o computador. Para tristeza deles, resolvo adiar a realização do sonho tipo pesadelo. Se me perguntarem o porquê desta decisão estapafúrdia, deixo a explicação por conta de cada um.

O principal motivo está ligado a uma expressão mais que horripilante popularizada pela antiga Companhia Vale do Rio Doce: “Rota de Fuga”. Hoje em dia, Itabira e sua região mineradora têm mais setas indicando o caminho para que sejamos espertos, ágeis e egoístas que conselhos de paz e harmonia propagados nos templos religiosos. Como no filme “Me pegue quem for capaz”, a Vale dá aulas de como fugir em várias circunstâncias. Serve também para ludibriar a polícia caso no meio dos fujões existam criminosos e bandidos. Já somos proclamados como esses malfeitores. Aceitemos que dói menos, parece nos dizer a dita cuja mineradora.

Se é que nesta vida ainda não fiquei do lado mais fraco, redimo-me agora do pecado  mortal para fazer algumas defesas, com unhas e dentes, pela ordem: os idosos — as leis até me garantem o privilégio de estar eu junto deles; os deficientes físicos de todas as naturezas; as crianças e adolescentes lembrados pelo estatuto próprio, o ECA; os sem pernas, ou os sem braços;  os surdos (e me insiro entre esses) e os surdos-mudos; os cegos; os portadores de síndrome de Down (e tenho uma irmã consanguíneo); os autistas; os complexados de toda ordem; os tetraplégicos; os psicopatas e os a caminho desta situação depois de viver tantos alardes ao som de alarmes; as vítimas de quaisquer problemas que se colocam à margem dos demais; enfim, todos aqueles prejudicados por uma causa congênita qualquer.


Em nome de todos os citados e de algum esquecido, pergunto à poderosa Vale: o que será desses excluídos dos treinamentos que se desenrolam em esperados incertos dias previstos para a tragédia do rompimento de barragens?  Um casal, morador do Bairro João XXIII, resolveu copiar a insanidade da mineradora e expôs defronte sua casa o seguinte aviso, em placa, pintada com arte: “Aqui estamos aguardando a morte”. Ironia? Talvez. E se não for?

E não somente Itabira, berço da velha Companhia, é contemplada com o pavor e o horror. Acrescentem outras cidades, entre as quais se destacam Barão de Cocais, Santa Maria de Itabira, Santa Bárbara, São Gonçalo do Rio Abaixo, Brumadinho, Rio Acima, enfim, onde há ou houve minério de ferro.

Não há o que se acrescentar, senão relatar um aviso conhecido mundialmente depois do fatídico ataque suicida às Torres Gêmeas de Nova York, em 2011:  “A organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda declara que habitantes dos Estados Unidos da América do Norte jamais terão paz”. Não se sabe que se sarcasmo do destino, com seus atos inexplicáveis e suas providências cruéis e malucas, a Vale quer se tornar um novo Estado Islâmico ou Al-Quaeda sem Bin Laden e outros comparsas.

Antes de entender a sentença que nos é imputada, como não sou um desesperançado total, resta-me render-me de joelhos em apelo à mineradora:  reveja seus conceitos e ações e nos dê pelo menos um fio de esperança na existência do futuro. Assim, quem sabe, possamos sentir-nos novamente  humanos, tal como Deus nos talhou.

De nossa parte, que sejamos reais e corajosos para recuperarmos a perdida vergonha na cara. Sem medo de ver aonde chegaremos, acreditamos que há um fio dessa esperança vagando à nossa frente. Sigamos esses sinais.

Então, conclui-se que não queremos que a mineradora Vale retorne ao seu tempo de Madrasta, quanto menos de Mãe. Desejamos, sim, que ela  negue a veracidade das centúrias de Nostradamus e, mais ainda, a conclusão mais difícil de ser engolida: que ela não seja a pavorosa  Besta  do Apocalipse. Mas os alarmes bradam como sirenes mortais e não são anjos que sopram seus sons fatídicos. Até quando vamos suportar esse terrorismo?

José Sana
Em 16/05/2019