domingo, 31 de janeiro de 2021

DEZINHO, MEU PRIMO-IRMÃO QUE SALVOU A PÁTRIA

Tenho mil recordações nossas. Guardo na memória mais que isto, incontáveis instantes de vida feliz em criança, na adolescência, na juventude e para sempre.

 Para tornar o nome dele meu foco de hoje, vou apenas lembrar-me da bênção musical que a ele Deus concedeu e estendeu a praticamente toda a família. Até a seus sobrinhos e sobrinhos-netos o Todo-Poderoso fez chegar o talento que o maestro José Afonso de Vasconcelos chamava de voz da alma, o som melodioso da harmonia plena.

 Vamos ao pequeno conto que jamais sairá de minha memória.

 Hoje é 7 de Setembro de 1990. Meu tio Seraphim Sanna Filho é prefeito de São Sebastião do Rio Preto. O Dia da Independência não pode ser esquecido, jamais, principalmente neste tempo de relevante patriotismo. E o Tio Lilito, chefe do Executivo Municipal, não vacila e quer registrar a brilhante data cívica.

Para o toque da solenidade só há uma velha radiola enferrujada, que arranha disco de vinil de 78 rotações. Levam-na ao alto do coreto na Rua do Rosário para “abrilhantar” a data magna, já que na cidade algo melhor não encontram naquele dia.

 Fincam três bandeiras: do Brasil, de Minas Gerais e do Município para representantes do MEC, do Governo do Estado e da Prefeitura hastearem.

 Distante, a cerca de 50 metros, está o meu personagem, aparentemente pensativo e observando as cenas que se transcorrem como últimos  preparativos para o evento. De repente, esta figura, movida por uma energia indizível, levanta-se, vai à cozinha de sua casa, pega uma faca amolada, desce até fundo do quintal e corta um pedaço de bambu.


Apressadamente retorna, afiando as pontas da taquara, abrindo gretinhas pouco perceptíveis e soprando sons quase inaudíveis. Sente-se pronto, enfia o segredo  por dentro da camisa, sobe  a escadaria e espera o desenrolar dos acontecimentos.

Enquanto isso, a sessão solene comemorativa persiste naquele atraso comum, característico do jeito brasileiro, péssimo em pontualidade. Diria que Dom Pedro I estava ainda enfiando o cabresto, barbicacho, freio, baixeiro, arreio, no cavalo, e ajeitando os pés na espora para ir às margens do Ipiranga e soltar o seu grito histórico de “Independência ou Morte”.

E meu personagem continua aparentemente invisível, vence o inimigo maior, a timidez e até mesmo a humildade, como sempre de cabeça baixa. Ia ser ligada a pequena radiola, uma máquina oxidada, mas nem um mero som arranhado, sai de suas gretas.

Todos em posição de "sentido", alunos da escola idem, professoras também. Ocorreria uma decepção incorrigível, com certeza. Mas, eis que surge a salvação: nosso herói saca a flauta improvisada, como se fosse ela a espada do Imperador, sopra-a com a força da lindíssima melodia de Francisco Manuel da Silva. A pequena multidão, puxada pelas professoras, canta  entusiasticamente a letra de Joaquim Osório Duque Estrada. Na Praça retumba o Hino Nacional Brasileiro, de bambu e apoteótica.

Inesquecível! Sensacional! Corações tremem de felicidade! Este momento precisaria de um registro gravado, guardado, apresentado num dia especial, numa praça de um milhão de pessoas como se fosse exibição de uma orquestra sinfônica.

Este é o meu personagem que faz aniversário neste 31 de janeiro. Para ele, que considero um primo-irmão há mais uma data inesquecível, o Dia da Independência do Brasil, quando fez uma pequena vara de bambu salvar a pátria.

José Cândido Duarte, Dezinho, é um gênio do anonimato, que domina a música com exímia capacidade, toca todos os instrumentos que conhece e os domina, tratando-os como seres de estimação. Ao Dezinho os nossos parabéns, na certeza de que Deus continuará sempre o abençoando e o seu doce sentimento humano tocado a sustenidos e bemóis.

Assino esta crônica simples como testemunha ocular desta passagem maravilhosa, quando só pude bater palmas, e arrepiar-me em posição de “sentido”. Depois não fui cumprimentá-lo porque a emoção não me permitiu: assento-me no meio fio, na porta da ex-venda do João Paulo, e seguro o choro com muita força. Hoje desabo-o com orgulho.

José Sana

31 de janeiro de 2012

PS: Voltei à casa dele para fotografá-lo tocando a flauta de bambu, mas ele preferiu apresentar-me uma outra, de louça, que era um presente guardado com carinho.

domingo, 24 de janeiro de 2021

DELEGAI PODERES OU CONTEMPLAI SEU FIM DE CARREIRA, SENHOR GESTOR!

Amigos e amigas, sou um mísero e obsessivo observador de fatos e manifestações dos seres humanos, obras, máquinas, equipamentos e da natureza. Não me canso de ver que em toda a complexidade inventada pelos habitantes do Planeta Terra, alterando as regras originais, só se encaixou o objetivo cruel de complicar. Somos anarquistas incorrigíveis.

Como administrar qualquer coisa, de curral de bois e cabritos a nações desenvolvidas? Faço esta pergunta de mim para mim. Vejo a resposta na prática. Minha primeira e inarredável ação de olhar resume-se na seguinte ordem desembaraçada: delegação de poderes. O administrador que centraliza as funções de seu comando não passa de um pobre errante e entra para o rol dos culpados pelo fato de estarmos num mundo doido.

Para buscar exemplos, retorno aos meus tempos da velha Companhia Vale do Rio Doce. Levado a conhecer um painel de controle de tráfego de trens da Estrada de Ferro Vitória a Minas, em Tubarão (ES), recebi aulas sublimes de sabedoria. Graças a uma memória razoável que a Deus agradeço, pude gravar lições de dirigir, gerenciar, administrar, governar. Não me perguntem se apliquei as regras porque é outra história.

Na época, não tínhamos uma internet para facilitar o quadro estampado dentro da sala técnica, mas a Vale, sempre à frente, inventara a sua internet particular. Para simplificar: no interior do ambiente e olhando para painéis luminosos, o operador sabia onde estavam trafegando os trens de carga e de passageiros, e os dirigia. Nas cabines e espalhados por todo o trem movimentavam-se  “bonecos” que só tinham a incumbência de receber ordens e cumpri-las imediata e hierarquicamente.

As regras para viver são igualmente copiáveis. Vejamos: os painéis mostram a vida como deve ser e, principalmente, as empresas e o governo como lhes convém agir. Naquele momento, para este pobre observador, não seria a Vale meu foco, mas os seres viventes que contemplavam regras fáceis de serem entendidas. Os operadores de trens, in loco, tinham determinações a cumprir. Conclui para os meus botões e zipers: assim devem caminhar as famílias, as empresas, os governos, a humanidade. Sem medo de errar.

Numa sala sofisticada, mas simplória, são vistos os componentes de viagens que não cessam, como a vida não se detém: Controlador de Tráfego, Maquinista e Auxiliar de Maquinista, Técnico em Manutenção de Sistemas Ferroviários e Manutenção Elétrica de Locomotivas, de Manutenção de Via Permanente, Eletricista de  Manutenção Geral, Ronda de Linha, Operador e Mantenedor de Via. Constituem-se responsáveis por funções e nada devem  explicações e satisfações ao Chefe Geral, embora sejam cobrados pela  liderança imediatamente superior. 

Repito a regra: delegai poderes ou contemplai seu fim de carreira, senhor gestor!

Salvo melhor juízo.

José Sana

Em 24/01/2021

sábado, 23 de janeiro de 2021

O DIA EM QUE UMA VÍRGULA QUASE ME LEVA À PRISÃO

 Amigos e amigas, tenho recebido  algumas, ou muitas,  súplicas de pessoas conscientes, amantes da comunicação. Elas pedem que escreva e insista, ou até mesmo abra uma  campanha referente à importância de falar e escrever corretamente o nosso idioma pátrio. Principalmente, explique o dever de praticar a escrita correta. Alguns alertam: "A continuar como estamos, em breve teremos dialetos confusos que apagarão a nossa história e destruirão até a lembrança de nossos entes queridos". 

 Um amigo enviou-me mensagem assim: “Por que você não deixa de comentar política, ideologias, futebol, polícia e essas bulhufas que estão nos saturando? E passe a contar causos interessantes, reflexões de valor espiritual elevado? Fale, por exemplo, a este povo sobre a nossa Língua Portuguesa, maltratada e ultrajada, uma pobre coitada!” (até rimou).

 A sugestão caiu como uma luva numa recordação que me veio à mente. Acredite quem quiser, mas vai lá o meu pequeno conto gramatical que exigiu duas viagens de táxi em Belo Horizonte por causa e culpa de uma mera e valorosa vírgula. Vou narrar o que aconteceu.


Estou em 1995 na capital mineira, e sou diretor-editor da revista DeFato. Tinha ido levar o material para diagramação, posterior montagem de fotolito e, finalmente, impressão. Cumprida a missão, deixo tudo para incumbência da gráfica. Repeti a rotina durante 20 anos, mensalmente, alternando as façanhas de acordo com a evolução tecnológica.

O trabalho de impressão duraria dois dias. Então, peguei um táxi rumo à estação rodoviária para regresso à terra itabirana e tomada de novas providências, depois só aguardar um telefonema de “tudo pronto, vamos fazer o despacho”. Mas, desta vez, inesperadamente, ao comprar a passagem de volta a Itabira, veio-me uma dúvida atroz: faltou ou não faltou uma vírgula numa determinada frase, página, coluna? — Pensei com os meus botões e as orelhas cheias de pulgas.

Paguei a passagem que já estava pronta, corri ao “orelhão” e liguei para um encarregado da gráfica. Ele não entendeu  o meu pedido e nem localizou  o buraco de uma frase onde deveria enfiar a “danada da vírgula” (expressão dele). Ainda me chateou, falando isto: “Larga essa mixórdia pra lá, o povo nem sabe onde são colocadas as vírgulas!”. Discordei e decidi ir atrás da pequena cratera em que caberia tal sinal gráfico de pontuação no qual o certo seria assim: “Não, prenda o bandido!” E estaria ou não escrito isto: “Não prenda o bandido!” (Palavra de um delegado de polícia que me complicaria). Viram o sentido da pontuação? Pois é. Arrepiei-me dos pés à cabeça. Tive medo até de ser preso (risos).

Sinalizei para um táxi e retornei ao Bairro da Floresta, no endereço da gráfica. A máquina destinada à impressão estava sendo lubrificada para o ato de arremate. Cheguei a tempo e, sob gozações incríveis do pessoal da oficina, e reclamações do gerente, abrimos as páginas. Pedi a um impressor profissional que metesse a vírgula no espaço certo, usando uma caneta especial tipo Nanquim. E estava resolvido o problema que me tiraria o sono, além de ter que suportar chateações de uma meia dúzia de intelectuais atentos e de policiais.

De volta à rodoviária, minha consciência tornou-se leve como uma réstia de algodão. Esperei mais duas horas para um novo horário de ônibus, já que  tinha perdido a passagem. Mas quando me assentei na poltrona número 25, na “cozinha”, como dizem por aí, deu para puxar um sono de paz. Pensei comigo: “Sou apenas um zé-ninguém, mas pelo menos tento respeitar o nosso idioma”.

Este amor arraigado vem dos tempos de criança, orientação de minhas primeiras professoras. Elas me ensinaram a amar a Língua Portuguesa desta forma: “... na alegria, na tristeza, todos os dias de nossa vida” como diz o padre em cerimônia de enlace matrimonial.

José Sana

Em 23/01/2021

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

“TENHO VERGONHA DE SER UM SER HUMANO!”

Está aí, no título, a mensagem que recebi de um amigo um tanto quanto calado, introspectivo, cheio de mistérios, extremamente reservado. Ele fez uma interligação do irregular verbo ser, que significa existir, no caso com o substantivo ser humano, mesmo sem conhecer a gramática portuguesa e autodenominar-se analfabeto total.

 Os porquês vieram de explicações pela sua inarredável desilusão. Disse-me que mandaria sua filha contatar-me e revelaria seus motivos cruciais. Ela o atendeu e, mais tarde, identificou-se  como Maria para retransmitir o pensamento do pai. Anotei:

 “Sei que há milhões, ou bilhões de anos, o homem labuta na face da terra para sobreviver. A partir desta consciência, esse selvagem, no início, decidiu que lhe era imposto enfrentar o semelhante também saído de uma toca.

 Fiquei mais curioso e decidi fazer-lhe perguntas. Maria, escolada, continuou a responder pelo pai, que mandou explicações de sua cabeça, sempre demonstrando senso de observação sensata e aguçada, lógica, coerente.

 “Passamos por várias fases — continuou a filha de meu amigo — e sempre guerreando, preparando armas cada vez mais sofisticadas e mortíferas, até chegarmos ao inadmissível instante maléfico do Coronavírus, essa pandemia que nos assola. Antes, como exemplo para o mundo, testemunhamos, via rádio e jornais, o ataque final da Segunda Guerra, quando os Estados Unidos atiraram bombas mortíferas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, inacreditável demonstração de selvageria acima do normal".

 “A ideia de debater, ser contra, combater, armar-se, estar afiado, pronto para o ataque, discordar, ter um lado radical para nele se postar, ser radicalmente contra tudo, sempre foi característica do habitante do Planeta Terra”, completou Maria, acho que Do Bom Senso.

 E eu, que estava assentado, lendo e ouvindo a intérprete de meu amigo X, que me pediu para não citá-lo em crônica, deitei-me, estarrecido e aturdido com a singeleza e sábias palavras, ditas com propriedade por um reconhecido analfabeto. Queixo caído, continuei deitado, contemplando o teto. Ele havia me confessado que no fim da Segunda Guerra Mundial tinha lá seus 12 anos, por aí, e sabia das notícias pelos avós e pais. Achava os responsáveis pelo conflito, Adolf Hitler e Benito Mussolini, cruéis e irresponsáveis, mas pensava consigo mesmo: “Será que não topariam fazer uma mesa redonda e resolver tudo na paz já que Nazismo e Fascismo eram para eles desejo de implantar um império mundial?”

 Reforçou histórica e filosoficamente: “O homem criou, inventou, desenvolveu, resolveu problemas inacreditáveis, mas tudo materialmente. E, fisicamente, chegou a uma situação que não lhe permite ter a coragem de encarar a verdade nua e crua: retrocedeu mil anos por 365 dias durante longas jornadas. Evitou guerras? Não, só as cancelou temporariamente e continuou armado. Buscou a paz? Não, somente por uns tempos, mas sempre pensando em lutas, terror, conflitos, revoluções, golpes, tocaias, ataques, covardias, destruição”.

 Maria vai finalizar, peço ao amigo que ela interpreta um fechamento de seu desabafo e ela me atendeu por ele: “O que fez de bom esse habitante do mundo? Nada no sentido objetivo da expressão. Praticou calculadamente o verbo dividir em tudo, separando patrão de empregado, homem de mulher, pais de filhos, criou ideologias torpes e insignificantes, discordou e discorda  sempre de quase tudo, nunca percebe o quanto erra e suicida-se ininterruptamente, de tempo em tempo”.

 “Agora este homem estarrece o mundo e chega ao cume da ignorância: enfrentamos  uma pandemia de quase um ano de ataque à humanidade, o Coronavírus ou Covid-19 e, devido ao ignominioso costume de ser dono de  opinião dita própria (e não é nada disso!), não tem sequer humildade para conversar, debater, ceder, compreender, reconhecer sua fraqueza e recolher-se à  sua insignificância devida ou desfaçatez cruel”. E só.

 Conclusão: agradeci a voz da experiência sem graduação, pós-graduação, mestrado, doutorado, PHD, e pedi perdão por mim e pelos desagradáveis negativistas de ambos os sexos ou de vários lados que vivem por aí pecando como idiotas perdidos.

 E meu amigo X ainda comparou-nos a pelo menos três burros que puxam uma carroça para três direções distintas. Não saem do lugar, não cedem mas arrastam as rédeas cada um para o seu devido ou indevido rumo. 

Somos esses animais irracionais atrelados?

 José Sana

19/01/2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

PARA RELAXAR: CONTO ELEITORAL DE SANTA BÁRBARA

Em Santa Bárbara, numa seção eleitoral que funcionava no prédio da Prefeitura, aconteceu este caso curioso e engraçado. Disputava a Presidência da República o Marechal Teixeira Lott, muito querido na cidade, com Jânio Quadros, que acabou vencendo. Era 3 de outubro de 1960.

 A fila de eleitores de toda a cidade e de todas as tendências virava o Hotel Quadrado e chegava à Casa Grande, onde nasceu o ex-presidente Afonso Pena. Os cidadãos aguardavam a chegada dos oficiais da Justiça Eleitoral.

 Às oito horas, iniciaram-se as chamadas nominais do eleitor para votação, que transcorria tranquila e com certa agilidade. Votaram os  Osvaldos, Orlandos, Ormicínios, Odilons, Paulos, Pedros, Pastores e Queiroz Sabino de Albuquerque que, imediatamente, sapecou na urna o voto para o Marechal Lott. Em seguida, a mocinha da mesa chamou o nome:


— Quinhento Reis de Bosta.

Nada do cidadão aparecer. E de novo, outra chamada:

   Quinhento Reis de Bosta.

E nada desse tal de Quinhento.

 Na fila, um velhinho de aproximadamente 80 anos, ansioso, aguardava a vez, e seu nome não era mencionado pela mocinha.

 No fim da tarde, quando todos já haviam votado, faltava apenas o velhinho ansioso, esperando, e a mesária chamou pela última vez:

— Quinento Reis de Bosta.

 Não houve resposta e ela se dirigiu ao velhinho, sozinho, mofando desde cedo, e indagou o seu nome. O idoso, feliz com a atenção de que era alvo, respondeu ligeiro:

— Meu nome é Quintiliano Reis de Bastos.

 Assim terminou mais um dia de votação em Santa Bárbara, que continua sempre com muitas estórias e histórias para contar.

 (Texto de Tião Crispim,  publicado no livro Ser Vereador, de José Sana, página 58, Editora Lastro, BH, 1999. Obs: a foto não é de 1960).

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

RESISTÊNCIA ITABIRANA (II): a Vale chegou. E agora, a Vale vai?

Era 1º de junho de 1942, Getúlio Vargas assinava o decreto-lei de criação da Companhia Vale do Rio Doce, depois de encampar as reservas de ferro até então em poder da Itabira Ore Company, desde 1911. O entusiasmo pela atividade começara, como se mostrou em Resistência Itabirana I, no anúncio, feito na Suécia, no ano anterior, a respeito do gigantismo do Cauê, o maior pico do mundo.

A vinda da Vale, viria tapar um vácuo no termo exaustão. Itabira tinha vivido o primeiro ciclo de mineração, do ouro, que trouxera o desânimo a muita gente, a exemplo de outras cidades mineiras, como Ouro Preto, Mariana, Caeté, Diamantina e Serro.



Francisco de Almeida, ou Chiquinho Alfaiate (1915-2015), tornou-se  uma fonte viva para narrar os primeiros passos da Vale em Itabira. Ele contou que, após o decreto de Getúlio Vargas, chegaram logo caminhões de alta potência a Itabira e, na hora do almoço, fizeram a festa de curiosidade e esperança do itabirano pelas ruas da cidade. 

Fernando José Gonçalves deixou, em sua autobiografia (2012), a seguinte frase: “No princípio, a Vale não tinha crédito. Dr. Pedro Guerra, engenheiro e dono de grande fortuna, foi quem socorreu a empresa, emprestando-lhe valores para sobreviver”. E conta ainda que nas casas comerciais de Itabira era comum encontrar-se o chamado de atenção em aviso afixado nas prateleiras: “Vale? Nesta Companhia não se fia!”

Hoje se foca mais em competitividade global. A mineradora foi transformada  numa das maiores empresas do mundo. Trilhou um caminho tortuoso, venceu obstáculos, agigantou-se para, depois de produzir riquezas imensas ao Brasil, preparar-se para deixar de vez o Sistema Sul. O anúncio de que vai embora para o Norte do país partiu do então presidente, Fabio Schvartsman, em 13 de março de 2018, depois confirmado por seguidas manifesta-ções de diretores e gerentes.

De novo, a volta ao principal objetivo da Resistência Itabirana, cabe uma pergunta: vamos continuar de braços cruzados? A comunidade de Itabira e regional não podem perder mais tempo. Ou deve continuar à margem dos acontecimentos? Ela precisa aproximar-se do poder público e exigir que caminhemos juntos, a passos seguros, num rumo determinado e inarredável para garantir a vida de nossos descendentes. A todo custo.  Existem sendas que podem ser bem traçadas e trilhadas para se alcançar um destino auspicioso.

José Sana

Em 15/01/2021

Foto: Roneijober Andrade



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

RESISTÊNCIA ITABIRANA (I): ou tudo ou nada!

Vivemos os anos 1939-1945. Eclode na Europa a Segunda Guerra Mundial. A luta que se trava é dos Aliados contra os do Eixo. Esses, comandados por Adolf Hitler e Benito Mussolini, têm o objetivo de implantar o Nazismo e o Fascismo no mundo. Os Aliados lutam para defender a continuidade da paz mundial. Segundo estatísticas, morreram mais de 60 milhões de seres humanos no conflito.

 Do outro lado das guerras, o Brasil  hoje vive um ambiente parecido com o conflito mundial, e ninguém sabe em que tópico está o cronograma da pandemia atribuída a um vírus a quem chamam Covid-19. Batendo o passado com o presente, conclui-se que em ambas as lutas, comparando-se as épocas — décadas de 1930/1945 versus anos 2020 —  registra-se a mesma questão da vida apreensiva, amedrontada pela iminência do caos. Morreram até agora, janeiro de 2021, quase 2 milhões de pessoas acometidas pelo mal do desconhecido.

 Enquanto a mineração aponta, em 1942,  para um futuro promissor, hoje ela deixa intranquila Itabira, porque está sendo minguada também pela pressa das necessidades econômicas, tanto da empresa quanto dos cofres públicos.

Anos 1940: extração de hematita no tempo da picareta 

O Cauê, revelado para o mundo no XI Congresso Geológico Internacional, realizado na Suécia, em 1910, como o maior ponto concentrador de riquezas de minério de ferro de alto teor no mundo, hoje tornou-se um imenso buraco. No seu entorno, minas secundárias, resistíveis ainda às custas da tecnologia transformativa, sustentam ainda a terra então promitente mas muito pouco aproveitada.

 Naquele velho tempo de nascença, a  Companhia Vale do Rio Doce instala-se em Itabira com arrancada auspiciosa. Às custas dos itabiranos, de suas riquezas e da alavancada do conflito mundial, amedrontador, terminado em 1945 (o fornecimento de minério de ferro aos Estados Unidos deu forças ao nascimento da CVRD) , a empresa transformou-se numa potência internacional.

 Da época em que “cada um de nós tinha um pedaço no Pico do Cauê” (Drummond, 1930) até a vida real, com a cava no lugar do cimo, o tempo de governar, consumido pela longa dormida no ponto, pode continuar impedindo que se trave, sem entraves, a busca pelo futuro. As sub-riquezas do pico ao redor agora têm data para fechar as portas: qualquer mês de 2028, segundo a própria mineradora.

 Diz a voz dos competentes: “Acordai, itabiranos, e não mais façais  como nos velhos tempos em que vós próprios, moradores da vila, vendestes as minas aos ingleses por migalhas de réis. Resistência agora é tudo ou nada. Cauê é cava. Não sejais vala!”

 José Sana

14/01/2021