quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

CENTENÁRIO DO TÃOZINHO DO GODÓ (3)

Tãozinho é o primeiro da Banda do Zé Grande, pai do Godó, em 1923


Vamos voltar no calendário, agora mais antigamente ainda, a 1923, ano muito importante na vida de Sebastião Cândido Ferreira de Almeida, o Tãozinho do Godó.  Naquela distante época, nasceu, em Ouro Preto, aquela que seria, a partir de 30 de outubro de 1943, a sua companheira para a vida toda, depois  minha mãe e de mais nove  pequerruchos, Itália Sana. E, também, ocorreu um fato que foi importante para a família do seu pai, Godofredo Cândido D’Almeida, a chegada triunfal da imagem de São Godofredo a São Sebastião do Rio Preto. Um dia inesquecível, segundo José Lucas Ferreira.

Naquele tempo, como se diz nos evangelhos, era usual aos católicos ter, cada um, um santo protetor para a vida toda. Esse escudeiro tinha no nome dado ao filho de Deus, o último nascido, levado ao cartório e à pia batismal. Assim, chamo-me José por causa de São José; meu pai  Sebastião, em homenagem ao santo combatente da fome, da peste e da guerra. Mas meu avô não sabia quem era São Godofredo e ansiava pela sua presença em imagem. Então, ele, sempre um homem determinado e de muita fé, não se contentou e começou a luta à procura do seu especial defensor no Céu e na Terra.

Godó saiu  procurando  afoitamente um desconhecido São Godofredo qualquer, desde que fosse bom, que chamasse Godofredo e nem precisava ter sido beatificado. Tive acesso, por meio de uma tia, Luzia Cândida Ferreira de Almeida Dias, às correspondências dele dirigidas ao Vaticano, com as suas respostas e  a outras cartas dirigidas ao Bispado de Reims, na França. Nas buscas, meu avô constatou que na França vivera o exato “santo” que se encaixava dentro de suas exigências. Assim, com base em informações recebidas, por correspondência, da embaixada francesa, organizou a biografia de seu santo preferido e encomendou uma escultura de madeira ao velho santeiro Alfredo Duval, em Itabira. O fato de ter sido esculpida a imagem em madeira, em Itabira, foi narrado  por uma das filhas de Duval, Maria, a mais nova da família, em 1993.

Depois de tudo providenciar, uma  festa de recepção à imagem foi marcada e muito bem organizada  para o mês de julho daquele ano. Chegaram à Vila de São Sebastião do Rio Preto seis bispos de outras cidades, especialmente da Diocese de Diamantina, e até a Banda de Música do seu arqui-inimigo declarado, Marciano Moura, desfilou pelas ruas são-sebastianenses. A Banda do Godó ainda não era a Banda do Godó, mas do Zé Grande, pai de meu avô. A foto abaixo mostra Godofredo com vários de seus parentes, incluindo, pela sequência, os filhos Tãozinho, Zezé e Maria Jacintha, todos ainda crianças. Ele, imponente, segura o seu instrumento musical que o acompanhou pela vida afora, o Oficlide, que nós chamávamos para correção imediata do velho Godofredo e o seu esbravejar de “ore, ore”, “Pé de Mamão”.

A imagem super aguardada saiu de Itabira, mas a informação é que sua origem teria sido Portugal e passou por Morro do Pilar, carregada num andor com todas as pompas. A  festa foi mesmo de arromba, é claro, para José Lucas ou Zezé da Maricas, como a mais animada de todos os tempos.  São Godofredo aportou no alto do Cemitério, carregada por uma multidão e  desfilou pelas ruas do arraial saudada por uma barulhada intensa e ensurdecedora: bandas de música, marujos, caboclos e um foguetório sem tréguas. Era pároco na época o Padre Manoel Madureira, filho da Terra.

Aí entra a narrativa oral de meu pai, Tãozinho. Ele tinha nove anos. Zezé e Maria Jacintha  pouco mais velhos. Ele viu e ouviu tudo com detalhes. Seu pai, o Godó, fez,  no final do desfile, ou profissão, um empolgante discurso. Num trecho de sua oratória, fez uma saudação especial à imagem e a chamou o novo santo de “Meu querido xará”. Milhares de pessoas que assistiam àquela apoteose caíram na gargalhada, mas, também ecoaram palmas intensas naquela euforia indescritível.

Depois da festa, São Godofredo passou a ocupar lugar de destaque no altar-mor da   Igreja do Rosário. Nos anos seguintes, Padre Argel também permitiu a presença da escultura  no principal altar da antiga Matriz, que se localizava na Rua do Rosário. Mas, a partir da década de 1950, o novo pároco, Padre Raul de Melo, cassou a santidade do ex-bispo de Reims, cuja imagem encontra-se até os dias atuais escondida entre outras num canto da sacristia da atual Matriz de São Sebastião. De acordo com o vigário local, o santo não fazia parte dos beatos canonizados pela Igreja Católica. 

A Banda do Godó, que brilhou naquela festa, continuou a sua vida. Ela teve Tãozinho e Zezé nas suas fileiras, além do pai. Mais tarde, Godofredo e alguns sobrinhos — filhos de Dona Maricas e Dona Naguita entre tantos.  Nas gerações seguintes, foi sempre renovada por maestros contratados pelo meu avô, enquanto a Furiosa, do Marciano Moura, com sede na localidade do Porto, colocava um ponto final em sua existência.

A Banda do Godó merece um capítulo à parte, principalmente na época em que fiz parte dela, com meu pai, e os irmãos Carlos e Sebastião; praticamente todos os primos que residiam na Vila; ampliada por jovens moradores locais, de adultos e outros que eram considerados  sequência da Família do Godó. Vale lembrar que Tãozinho se tornou exímio músico —  tocava vários instrumentos, inclusive violão, e o principal de todos, a requinta, que se assemelha à clarinete.

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