sexta-feira, 25 de julho de 2014

MEUS PERSONAGENS DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO PRETO (1)


Ali nasci. A minha única contrariedade foi que na terra natal não tem mar. Mas se queria ser de Minas Gerais não havia outra escolha. E aí cresci até completar 12 anos. Apesar da ausência, estou sempre na terrinha, quando não física, espiritualmente. Algumas vozes estranhas e mal intencionadas costumam dizer que não gosto de lá. Não estou nem aí. O que um ou outro pensa de mim não é da minha conta.

Como todo humano, sem exceção, tem os seus personagens da vida, tenho os meus e os cultivo. Em cada cidade em que pernoito por pelo menos duas vezes, guardo de lá aqueles nomes, quase todos folclóricos, que nunca saem de minha memória. Tenho-os, os venero e os defendo em qualquer circunstância. São, na verdade, entes especiais, os quais podem ser humanos ou não. Na terra em que nasci talvez sejam até mais que folclóricos, como o Sapo que vivia debaixo da ponte do Córrego Posses e para lá deve estar regressando, graças ao fim das agressões de máquinas e equipamentos da mineração às ruas da cidade.

Abro um rápido parêntese para dizer que em Itabira há uma numerosidade intocável por ser a cidade em que mais vivi anos e anos, e destaco o Pedro Rapadura, o Mané Gato, a Loira do Campestre, a Loira do Parente, o Pé de Pato, entre outros. Em Guanhães, onde passei um bom tempo da pré-adolescência, era o Seu Nabuco, maestro da Banda de Música em que andei empunhando um bombardino; os incríveis pés de jabuticaba, os quais visitei no meu primeiro ano guananhense; o Seu Fonseca, português letrado do Ginásio; o Porteiro do Cinema, que me dava entrada franca de domingo a domingo. E até de Capelinha guardo uma inesquecível lembrança: da Convertida, uma cadela do padre da matriz, que ia para todos os cantos em que havia movimento, como festas de aniversários, casamentos, o que fosse que juntasse gente, principalmente, velórios. Fecho o parêntese.

Mas agora estamos em São Sebastião do Rio Preto e, além do Sapo do Córrego, ou Sapo da Minha Terra Natal, aparecem outros, os quais tentarei descrever sem muitos detalhes, um de cada vez. Depois do Sapo, que coaxava, infalivelmente, a partir do entardecer, tenho a destacar o Zé Vaqueiro (vai essa para o amigo Antoniel de Sá). Ele era goleiro do Iris F. C., depois do São Sebastião Futebol Clube, por quem nutria uma inigualável e inarredável admiração.

Outro, inesquecível e ídolo, o João Lagoa, de cuja repercussão etílica acabava dando numa filosofia mais que perfeita, com espanto geral,  porque se tratava de um analfabeto, além de tudo, eterno morador de fazendas e que, pelo que me consta, jamais frequentara uma escola. João Ferreira Neto era o seu nome próprio, de cartório e pia batismal, e ele o proclamava solenemente quando se referia a si próprio para esnobar o seu chamado “complexo de riqueza”. Quando saía de um boteco e ia embora, ou para outro boteco, bradava de bom tom e som: “Se alguém perguntar por João Ferreira Neto, pode dizer que João Ferreira Neto tá pra trás acertando negócio!” E repetia inúmeras vezes, de pescoço envergado, a ênfase que dava à última frase:  “Tá pra trás acertando negócio!” Até reduzir a última expressão: “Acertando negócio!” E ele tinha outras tiradas incríveis. A covarde polícia da época o prendia numa precária cadeia, sem cama e sem cobertores, apenas porque filosofava rua afora. Mas as pessoas, compadecidas, lhe levavam sempre uma “marmita de boia”. Ele recusava a caridade com a expressão: “Homem enfezado não come!” Mais uma: o José Damásio Soares, conhecido como Zé Leitoa, adquirira uma linha de ônibus, que fazia horários para Itabira. Ao amanhecer do dia, João Lagoa, que às vezes passava a noite ao relento, gritava na janela da pensão: “Acorda, Zé Leitão, acorda, Zé Leitão! Passarinho que não deve nada a ninguém tá voando há muito tempo!” E o Leitoa (e não Leitão) tinha feito a aquisição a ser paga em parcelas.

Os outros personagens, vou apenas citá-los agora, prometendo voltar a cada um detalhadamente em outra ocasião. São eles (e não eram eles): Joaquim Sete Léguas, Jabutirica, Zé Loriano, Godozinho (não o meu primo Godofredo Duarte), Estrogildo, Antônio Adolfo, Maria Branca, Zé Buty, Chica do Godó, Todinho da Rosa, Raimundo Garangui, Joaquim da Loló, Nega do Pal a Mato, Orlando Juventino, Sô Godó, Seu Dé, Tatão Cidreira  e mais alguns dos quais ainda me lembrarei, sem esquecer dos citados no início.
                                                                                    
E repito, para encerrar, pelo personagem inesquecível que acabo de homenagear: João Lagoa merece pelo menos um registro na história de São Sebastião do Rio Preto.

PS: Só para lembrar alguns mal intencionados que gostam de interpretar como querem o que escrevo, reafirmo que a imagem do Burro é do autor e de mais ninguém. Este blog se chama Zé do Burro e Vice-Versa. Esclarecido?

                                  

2 comentários:

  1. Gostaria de obter informações a respeito da marujada do engenho . A marujada de Raimundo Garrangui

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  2. Gostaria de obter informações a respeito da marujada do engenho . A marujada de Raimundo Garrangui

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