sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

QUERO A MINHA SANTA MARIA DE VOLTA

Santa Maria de Itabira foi a primeira cidade em que pisei com os próprios pés forrados  de sapatos tipo “vulcabrás”, os chiques da época. Detestava ser levado ao Dr. Costa, o médico mais famoso da região, encaminhado pelo meu avô farmacêutico, Seraphim Sanna. Confortava-me pensar que viria um almoço delicioso no Bar e Restaurante Pires, cujo cardápio era arroz, feijão, bife e tomate da roça, dos que não mais se plantam.

Sabia também que, antes de ir embora, meu acompanhante me levaria ao Bar do Amarílio, para outra delícia incomparável, o famoso “pão moiado”, apenas um pão francês com rapa de fundo de panela e gordura de porco. “Eita trem bão!” – exclamava a imensa clientela. A viagem era via Morro Escuro, de cavalo, 24 quilômetros, durava mais de quatro horas puxadas, e ainda retornava no mesmo dia.

Quando a jornada era para Belo Horizonte, dormia na Pensão do Jota. Sem vaga lá, tinha a opção dormida do Seu Raimundo, situada na ponta da rua principal, calçada e com escoamento de água no meio, onde os burros e cavalos tilintavam as ferraduras.




Uma delícia acordar de madrugada e pegar a jardineira do Levy Guerra e do Rocyr, dois parceiros, ora dirigida por este ou pelo Jovino Valério Gonçalves. O trocador, sempre o mesmo, o lendário Jacó, também entregador de jornais e revistas com notícias que, naquele tempo, eram quentes. Jacó viveu mais de cem anos e, dizem, trabalhou até por volta de 90.

O percurso à capital durava mais de um dia se não chovesse. Em tempos mais remotos, a jardineira, com balaiadas no teto, era chamada “cata-jeca”, mas todos gostavam. Anos depois, veio o ônibus conhecido como “108”. A peregrinação passava por Itabira, São Gonçalo, Bárbara, Barão de Cocais, Caeté e Sabará, chegando a BH quando a noite já rachava de adiantada, poeira, barro e buracos à vontade.

Voltando a Santa Maria, ao Bar e Restaurante do Sebastião Pires, ou do Nonô Pires, ele se situava na rua estreita, a principal. O atendimento era do próprio dono ou pelo Tarcísio, um garçom dos mais polidos que conheci. Além de nos servirem bem, contavam boas estórias e causos. Um pouco abaixo, o único lugar de abastecimento, o Posto Itagiba, antes existia o cinema onde, certa vez, meu tio Líbio me levou para ver “Branca de Neves e os Sete Anões”.

As compras locais ou de visitantes ocorriam na Casa Carvalho, das mais famosas da região, propriedade do Seu Geraldo Guerra de Carvalho, que foi contador da Fábrica da Gabiroba, além de seu vendedor-viajante e até prefeito de Santa Maria. Ele, católico de arder os joelhos, casou-se, com Ester Pires Lage, esta metodista fervorosa. Ambos viveram sempre em paz durante mais de 70 anos, mesmo praticando religiões diferentes. Como professor prático de comércio, Seu Geraldo ensinou muitos a trabalhar e a progredir, dentre os quais Divaldo Pires, Clerton Lage, que virou contador, Nazareno Cabral, Sudário, Adair Araújo, entre tantos.

Aquele era o tempo em que havia bem no centro da cidade uma casa comercial, ou melhor, tipo drogaria, com a seguinte placa: "Farmácia Paz, de Agenor Guerra". Boas histórias víamos e ouvíamos mais.

Vou dar um pequeno salto no tempo e chegar aos meus 17 anos. Virei motorista, sim, dos poucos naquele tempo, que fazia do jipe de meu pai uma verdadeira ambulância. Transportava doentes, machucados, agonizantes e vez por outra assistia mortes horripilantes em plena viagem. Quando não havia recurso no Hospital da Terra da Garrucha, onde nunca vi uma arma de fogo, levava o sofredor para o hospital de Itabira, o Nossa Senhora das Dores. 

Começava aí uma nova luta inglória: não existia o SUS e a casa de saúde não aceitava atender pacientes de outras regiões. Tinha que correr atrás de Dr. Mauro de Alvarenga, ou Dr. Edson Machado, à procura de guia assinada na rua,  em cima do caput quente do jipe. E levava o meu paciente como um triunfo sem ser senão um motorista fora da idade legal.

Mais um pulo no tempo, tornei-me  candidato a deputado estadual, em 1982, fui quase eleito, obtive mais de 15 mil votos, sendo exatos 1.019 em Santa Maria de Itabira, capitaneados por Plínio Guerra e Robésio Alvarenga Duarte. Feliz por sentir-me amado por aquele povo humilde e que só me requeria um abraço, um sorriso, nenhuma promessa, nunca mais me esqueço da oferenda eleitoral.

Agora vejo Santa Maria transformada num lamaçal indescritível e inimaginável. Perlustro fotos incríveis, amigos e amigas, doutores, professores, comerciantes, fazendeiros, donas de casa, idosos, até crianças e, toda barrenta, lambuzada, a minha contemporânea de faculdade, Luciene Cássia Soares, quase irreconhecível. Vejo estampado em seu rosto, o sentimento de milhares de outros que vivem aquele drama para nunca mais ser esquecido. Mas que sirva de estímulo e de coragem intimorata o que a vida que sempre nos requer.

Antes de findar este simples traçado de palavras, que transformo em lamento e súplica,  quero bater palmas para quem está ajudando durante 24 horas ininterruptas na recuperação de uma cidade que, como veem, sempre esteve a mim ligada, como a muitas criaturas deste mundo, e quero homenagear a quem se abastece de forças divinas para dar as mãos  e ajudar a amenizar o drama.

Desculpem-me quem pensa mal de meus desejos e ousadias, mas me sinto no direito  de fazer um apelo nem tão audacioso, mas entendo ser justo: quero a minha Santa Maria de volta, seja vinda de três forças materiais que já deveriam ter-se declarado seus  reconstrutores: Governo Federal, Governo Estadual e Vale S.A, todos sob a inspiração de  bênçãos divinas.

Repito mil vezes este nome: Vale, ou ex-Companhia Vale do Rio Doce. Tantos santa-marienses deram a vida por ela. Agora chegou a hora de doar um pouco de sua riqueza imensurável de volta.

E repito: quero a minha Santa Maria de volta!


José Sana

Em 25/02/2021

8 comentários:

  1. Extraordinário, Sana. Como santa-mariense do Cuité, fico emocionado ao ler este post. Me lembro de várias das personalidades citadas. Todos nós queremos nossa Santa Maria de volta! Parabéns pelas belas palavras.

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  2. Como e bom ouvir os 'causos ' de antigamente.😍

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  3. Belo texto. Também sou santa-mariense mas moro distante desta minha terra. Minha família ainda mora em Santa Maria e acompanho de longe todo o drama e esforço deste povo guerreiro. Vendo as imagens desta tragédia sinto que esta não é a minha Santa Maria. Que om dia eu também possa dizer: esta é a minha Santa Maria.

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  4. Parabéns 👏👏👏👏 María Inês Drumond Rocha

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  5. Que coisa mais gostosa de ler esse texto (cronica? Não sei, meu negócio é numero)sou de Itabira, minha mae de sta Maria, zelia alvarenga. Essa chuvarada ninguém podia prever né conterrâneos. Mas como doi

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  6. Parabéns José sanna pelas lembranças e histórias incríveis

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  7. Comovente suas palavras ( bela trajetória de andanças por Santa Maria) e para mim é uma cidade - bairro de Itabira---

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  8. Verdade tudo que disse,sou .mais novo mas lembro de tudo.

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