quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

“COMUNISMO É COISA INFERNAL”, DISSE O PADRE DA MINHA TERRA (Capítulo 2)

 

Disseram também os senhores de engenho e do dinheiro que é “uma canoa furada”, mas agora embarcam na mesma canoa. Pode?


A exemplo da regra geral, que propõe mudanças de comportamento e ideias em nossas vidas, depois de eleito e reeleito vereador em Itabira, com novos ambientes — educação, trabalho e sociedade — senti que seria o momento de pensar e repensar a minha função no mundo. Ou melhor dizendo, saí à procura de  resposta à pergunta: o que estou fazendo por aqui nesta terra desconhecida, onde nem fui apresentado?

 

Nas trilhas de buscas, iniciadas dentro de mim, deparo-me com várias dúvidas e ocorre um esclarecimento ao meu jeito contra tudo e contra todos desprezado, finalmente. A análise começou da raiz com um esclarecimento só meu: sou um indivíduo capitalista, liberal, socialista ou comunista?  Esclareci, então, como primeira dúvida um motivo externo.

 

Uma das razões  consiste  no seguinte fato: o padre de nossa paróquia e os seus seguidores (eu fui também, inclusive coroinha) pregavam em altares, esquinas, botecos e salões de barbeiro, que fulano, sicrano e beltrano não podiam receber votos nas mixurucas urnas do arraial. O trio seria de esquerda amaldiçoada, garantiam.

 

Em contraposição, porque olhavam para este  adolescente desprezado com cara condenatória, fiz campanha exatamente a favor  dos que faziam parte da lista negra, ou vermelha, da chamada elite do lugar. Antes disso, nos meus 14-15 anos, acompanhei pelos jornais (meu avô e meu pai assinavam até “Tribuna da Imprensa”, do perseguido Hélio Fernandes). Esse ocupava uma ponta de iceberg do acontecimento que culminou com dois nomes: Revolução de 1964 e/ou Golpe Militar.

 

Anos antes, na década de 1960, em Brasília, o então ministro cubano “Che” Guevara fora condecorado por Jânio Quadros, presidente que empunhava uma vassoura como emblema e  que renunciaria sete meses depois da posse. A medalha agitadora chamava-se “Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul”.

 

O ato da condecoração, muito comentado mundo afora e  fartamente debatido nos altares da Igreja Católica, era aplaudido pelo arcebispo de Olinda (PE), Dom Hélder Câmara, considerado ateu completo. Como indício, escreveu o colunista de O Globo, Nelson Rodrigues, em 1968: “Dom Hélder só olha para o céu para ver se leva o guarda-chuva”.

 

A debandada de atos institucionais chovia em Brasília, meu primo Zé Flávio e eu chegamos a ser presos duas vezes numa só noite-madrugada: uma, por politicagem, empanturrados como bandidos no Dops (Departamento de Ordem Política e Social)  e outra por vadiagem, embora eu trabalhasse de repórter no Diário de Minas e de revisor no Estado de Minas. Meu primo tinha cargo na Viação Venda Nova, depois Viação Serro.

 

Em 1974, com a ditadura em pleno apogeu, o deputado Ulysses Guimarães lançou-se candidato a presidente da República, com Barbosa Lima Sobrinho de vice, chapa sem perspectiva de vitória no Colégio Eleitoral, dominado pelo partido do governo, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Guimarães chamou-se “anti-candidato, que disputa a anti-eleição” (Fonte: Agência Senado).

 

Filio-me, a convite de Marcos Evangelista Alves, Gabiroba, no MDB, candidato-me a vereador,  obtenho  693 votos, em 15 de novembro de 1972, primeiro lugar na cidade, o segundo no município. José Braz Torres Lage, da Arena, partido do governo, alcança exatos 700 sufrágios.

 

“Comunismo é coisa infernal”. Esta continuou sendo  a mais nova chamada de assunto na sociedade brasileira, principalmente entre os cristãos. Além de Guevara e Fidel Castro, apareceram outros, como Mao Tsé-Tung e Nikita Khrushchov, cujos nomes eu rabiscava  nos muros e eles próprios, nomes difícil grafia, denunciavam-me como “único alfabetizado”, diziam meus inimigos.

 

Os padres e seus seguidores não eram os mesmos, mas a Igreja, sim. Resolveram virar a casaca para socialistas/comunistas. Quer dizer, tomaram a  expedição anti-Cristo, da Nova Ordem Mundial (NOM), adotaram a bíblia chamada “Teologia da Libertação”, despistando no Evangelho.

 

Conclusão, caso sigamos a lógica, a turma moralista me promove à condição correta do ser humano e, infelizmente, assumem ser eles, sim, amigos do capeta.

 

José Sana

14/12/2022

 

(OBS.: No terceiro capítulo vou contar como os padres embarcaram em canoa furada e não estão nem aí com a satanização do cristianismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário