quarta-feira, 12 de março de 2014

CENTENÁRIO DO TÃOZINHO DO GODÓ (6) (Meu Pai e Minha Tia Jacinta)

O ser humano tem que ser transparente. Sua alma precisa mostrar seus defeitos e suas virtudes. Ninguém deve esconder os sentimentos. O pensamento, quanto mais alto sair de nosso íntimo para a boca, melhor. Segredos só para a maldade, a birra, a perversidade, a iniquidade. Assim pensava Sebastião Cândido Ferreira de Almeida, o Tãozinho do Godó, também conhecido pelos íntimos como um perfeccionista. Se era perfeito, acredito que não; mas que teimava em sê-lo, tenho absoluta certeza que sim.

Maria Jacinta, sua irmã mais velha, era para ele um modelo de personalidade. Ela sofrera um terrível baque na vida. Na sua  adolescência, a dor indefinível lhe agrediu a alma. Foi o seguinte: ela levava uma irmã de 11 anos para o engenho que ficava do lado de lá do córrego, no fundo da casa-fazenda do Godó. O córrego não era o de hoje, mas, sim tão caudaloso quanto o  Rio Santo Antônio. Havia uma pinguela no meio do caminho. A menina, cujo nome prometo revelar em outra ocasião, caiu da pinguela. Maria Jacinta não a alcançou e ela se foi, só resgatada sem vida, mais tarde, pelos empregados e agregados do complexo do Godó.

Agora, imaginem o que se passou na  pequena vila. Reflitam sobre o desespero do meu Vô Godó, que já tinha sinais fortes de arrebatamento em seu espírito, e o sofrimento de minha Vó Sinhá, uma mulher admirada por todo o povoado. Ponto. Não vou falar mais nisto, por enquanto.   Só vou lembrar que uma adolescente de 15 anos, minha tia, carregou na vida um drama interno e que guardava somente para si. E não sei por que cargas d’água, o fato ficou totalmente esquecido para as gerações seguintes. Houve um silêncio sepulcral lançado para o futuro.Somente há dois anos fiquei sabendo do fato.

Tia Jacinta, profissão costureira (costurava para fora, como dizem nas cidadezinhas) era casada com o oficial do cartório local Noé Augusto de Souza e não teve filhos. Talvez por causa disso, se dedicou muito aos sobrinhos. Para se ter uma ideia, ela criou a nossa prima Raymunda Almeida Dias, a Mundica, que nos deixou há poucos dias. E nos afagava com muito carinho. Também implicava com os nossos defeitos. Certa vez, contrariada com as minhas peraltices de adolescente, invadiu meu quarto onde me enxugava depois do banho. Pegou a minha toalha e me bateu com ela enroscada.

Depois desse, só vou contar outro fato que marcou a vida de meu Pai com ela e a minha própria existência  no meio para ser testemunha e réu  ao mesmo tempo. A triangulação serve para garantir um episódio inédito na história do Tãozinho do Godó. Foi no dia em que ela me bateu com uma toalha que, a seguir, meu pai adentrou também o quarto. Eu resmungava e não me conformava em ser maltratado. Enquanto meu Pai seguia na admoestação, eis que cobrei  dele: “Olha, o senhor disse que só posso apanhar do senhor e da Mamãe, agora deixa uma tia me bater?” Ele retrucou energicamente e me deu a seguinte resposta: “Sua Tia Jacinta é uma santa e temos que aceitar o que ela faz;  tudo o que ela faz vem de Deus”.

Aceitei, é claro. Já havia pensado nisso, apesar de tudo, mesmo um pouco cético àquela altura do tempo.  E guardei  aquelas palavras, decorando  “santa” para sempre. Um dia estava em Belo Horizonte desempregado, ano de 1965, quando vem a Tia Jacinta aparecer de novo em meu caminho. Abro um parênteses para informar que o desemprego dos anos 1960 era o que mais massacrou a minha geração. José Flávio, de quem já falei, era o meu primo-colega de vagabundagem na capital dos mineiros. Durante o dia, saíamos atrás de uma vaga em algum lugar e à noite nos encontrávamos no centro da boemia para as nossas aventuras, atrás do que comer e  beber. Fecho o parênteses.

E  foi assim: José Flávio tinha arrumado um plantão numa empresa de ônibus. Ele era o manobrista na garagem, depois o ronda. Encontramo-nos na rua Guaicurus, onde, segundo Roberto Drummond, em Hilda Furacão (livro e filme), Belo Horizonte acontecia nas madrugadas. Apareceu o peralta aos gritos e berros diante de mim, me agredindo com uma notícia assustadora e massacrante: “Tia Jacinta morreu!” Nada retruquei, não tinha uma sílaba para soltar, só me bambeei da cabeça aos pés, sentei-me  no meio-fio e comecei a chorar. Tive saudade imensa dos pitos e raios, dos puxões de orelha dolorosos que sofria e, com destaque, daquele dia em que me  espancou com uma toalha de banho enrolada como um rocambole.

Em seguida, José Flávio me deixou só na Avenida Santos Dumont e se dirigiu ao emprego que era apenas um “bico”, um quebra-galho. Continuei na solidão de uma  amargura comum em todas as noites, desta vez incomum  por causa da morte inesperada da tia.  Com fome e sentindo frio, só tinha  duas coisas  pela frente: a noite de BH e a fome em BH. 

Andando  a esmo pela avenida, de repente assentei-me de novo, lembrei-me das palavras do meu Pai: “Sua tia é uma santa”. E, então, não querendo colocar no paredão da vida a santidade de Tia Jacinta, mas acreditando com todas as forças de que naquele dia tinha partido para o Além uma Serva de Deus, fiz uma oração cheia de muita fé por ela. E apelei a ela com o seguinte pedido: “Mate minha fome, minha Tia!” Estava em frente uma empresa comercial que era fornecedora da loja de meu Pai. Abri os olhos, levantei-me do meio-fio e...

... de repente, olhei para o chão e lá estava um pequeno pacote. Afoito, apertei-o contra o peito. Ninguém perto de mim, a madrugada já entrara para mais horas de agonia que me assolaram durante quase dois anos. A avenida completamente erma, tomada de um paradeiro próprio daquele horário.  Desatei o maço e constatei sofregamente que era  mesmo dinheiro. Que é isso? Dinheiro vindo do Céu?. Olhei, pasmo, e chorei de novo, agora mais copiosamente do que antes. Não podia acreditar naquilo que estava acontecendo.  Era um atendimento ao pedido que acabara de  fazer. Não tive dúvida nenhuma.
  
Saí em desabalada correria no rumo da  Rua do Bonfim reencontrar o meu primo. Ele me recebeu de olhos arregalados,  fez o “Nome do Pai”, agradeceu à Tia Jacinta, encerrou o expediente e seguiu para jantar comigo no Restaurante Santos Dumont. Antes de pedir o chamado “prato sortido” (arroz, bife, ovos, salada, tropeiro) contamos a grana do pacote, com valor suficiente para comer, beber, dormir e até vestir-se durante um mês. Até paguei um mês de aluguel adiantado no Bairro Coração de Jesus, onde dormíamos num quarto acanhado e sem banheiro. 

É claro que tive pena de quem perdeu aquele pacote de notas, mas  conclui de mim para mim que não estava fazendo falta a ninguém, já que me apareceu por obra e arte sagradas. Estava, para José Flávio e eu, naquela madrugada, ou naquele dia, canonizada uma santa de minha família, a inesquecível Tia Jacinta.

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