terça-feira, 24 de novembro de 2015

A VIDA COMO ELA NUNCA DEVERIA SER (1)

Amigos, acabei de assumir definitivamente o cargo de “procurador”. A partir de então a minha missão é ficar procurando o que perdi ou de que necessito. Exemplos: procuro chaves de carros, portas, gavetas; e procuro celular, meias, sapatos, chinelos, papéis, contas a pagar, recibo de contas pagas, pente, caneta, lápis, régua, borracha, escova de dente, pasta de dentifrício, sabonete, papel higiênico, sacos de lixo, endereços, números de telefones, e-mails, whatsApp, facebook, sites, fotos, textos, livros, senhas, cartões, remédios. Alguém diz que é a idade, mas contesto veementemente porque o mundo moderno, com a desculpa de evoluir, resolveu bagunçar todos. A desorientação é geral. Quem não perde nada todo dia?

Esta semana uma mulher, de origem pobre e  de uma cidade da região, tinha que fazer uma cirurgia num dos hospitais de Itabira. O médico, chamado com todo o respeito de doutor, marcou para o dia tal, hora tal, da semana passada. A paciente como a chamam (e isto talvez provoque o abuso) se preparou, saiu de casa cedinho, viajou duas horas, chegou, se apresentou e passou o dia nesse hospital com ainda um detalhe: estava em jejum. Quando já tinha passado a hora, o senhor doutor mandou dizer a ela, confinada com a barriga vazia numa enfermaria, que não podia fazer a tal operação naquele dia porque estava sobrecarregado. Mandou a senhora ir embora e que aguardasse de novo o um chamado. Isso pode acontecer? Abuso, mil vezes abuso!

Mariana entrou para o noticiário nacional. Ou mundial. Não porque as obras de arte que a cidade exibe estão em fase de muita procura e acessibilidade. Aleijadinho, Mestre Athayde e outras ilustres celebridades fazem promoção de revelar a cultura da cidade histórica? Não. Rompeu uma barragem da Samarco Mineração e ele, o tsunami,  fez mais que na Revolução Francesa, derrubou a Bastilha, decapitou ex-heróis, saiu rasgando cidades, matando seres humanos, liquidando paisagens e destruindo o meio ambiente. Até o Oceano Atlântico carrega agora a sordidez do rejeito de minério de ferro, que passa por quase 200 km do Rio Doce, e empobrece completamente uma região. Alguém já calculou o prejuízo? A natureza não negocia mais nada com o homem. Agora é apocalipse e fim de papo.

Mas um fato é interessante e acredite quem quiser. A Samarco, sob a pressão da Justiça, alojou famílias de Bento Rodrigues e adjacências nos hotéis de Mariana e proximidades. Deu-lhes franquia absoluta para o atendimento de serviços diretos como restaurantes, lanchonetes, bares, salões de beleza e outras regalias supérfluas. Contam-me que durante o dia está assim no território marianense: entram nesses hotéis e deles saem cabeleireiras, pedicures, manicures, fazedores de sobrancelhas, além das normais entregas de produtos farmacêuticos e os deliverys de pizza. Sem tocar no tema do sofrimento  pra xiri do pessoal, que continua na vida de incertezas e  agora pega o melado total e se lambuza. Repito: contaram-me. Repito mais: absorve quem quiser!


Para encerrar, alguém me pergunta por que demora tanto o resultado da Operação Lava Jato da Polícia Federal e as apurações da Justiça sobre trapalhadas, roubos, ataques à mão armada, surrupios e outros adjetivos impublicáveis praticados por um número incontável de políticos, empresários, lobistas e tanta gente mais. Há um bandidão no meio de tudo isso que quase todos querem ver preso, mas ele leva uma vantagem sobre muita gente: nunca frequentou escolas, sabe mal e mal desenhar o nome, declara-se pior que semi-analfabeto, mas tem PHD em ensinamentos de Maquiavel. Seu grupo passou a vida juntando provas sobre os outros bandidos de modo que está sendo possível trançar rabos em extensão incalculável. Alguém que move a cauda puxa dezenas ou centenas de outras. Ninguém ama ninguém, mas todos temem todos; abrir a boca é pecado. A frase de Luiz Inácio Lula da Silva sintetiza a tese dos rabos atrelados que atravessam este PPP (País da Piada Pronta) de ponta a ponta e ela foi transformada numa justificativa de ação neste 24 de novembro, em pleno Congresso da Juventude do PT: “Quero saber se o dinheiro do PSDB veio da sacristia!”

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

NOS BASTIDORES DE CRUZES AO VENTO

Amigos e inimigos (esses são os leitores mais certinhos que tenho), como sempre estou em fila de banco. Desde quando instituíram o caixa eletrônico não conhecia o que era se sentir enfileirado, em disciplina militar. Até porque entrei para o grupo dos atendidos prioritariamente, ou acima de 60 anos. Mas o Projeto Drummond, parceria com a minha prima Afra Sana, de nome um tanto parecido com romances de Érico Verísimo, “Cruzes ao Vento”, me mostrou uma nova humildade a que o ser humano deve sempre se sujeitar: entrar em bichas (como dizem em Portugal e está no dicionário) sem reclamar. E com as ordens dadas pela prima me tornei um piolho de banco, como já era de farmácia, padaria, supermercado e pracinha.

São várias as modalidades de acesso a um estabelecimento de crédito se não se pode ir ao caixa eletrônico. A tal inovação, neste bendito projeto, só me permite ir à cata do saldo, ou seja, pegar um extrato (de tomate é no hiper ou no armazém da esquina). A primeira etapa é para tirar senha. Tem prioridade para os especiais, sim, mas a questão é que os candidatos estão bem acima dos 80. Então, não se pode furar a bicha. Demora, demora, demora. Demora porque os meus amigos octogenários e nonagenários enxergam um pouco menos que eu, carregam muitas capangas, eu somente uma bolseta, não sabem usar o processo de digitação e dependem de um funcionário extra do banco para cutucar as teclas. Pronto, passei na porta de acesso ao salão principal, depois de tirar os sapatos, chaves, celular e produtos de metal, como nos aeroportos.

Subo a escada e não há lugar para se sentar. Problema não. Tenho a senha na mão e posso me encostar num cantinho. Não estou tão velho como imaginam os que me qualificaram de idoso. Uma senhora me pede para sair da frente porque ela quer ver o painel das senhas. Desculpo-me e fico perdido no salão. A minha senha é A-00011 e a última chamada foi A-901. Ou seja, existem 20 idosos, grávidas, carregadoras de crianças, lactantes, deficientes físicos na minha frente. Esqueci-me de contar um fato que ocorreu lá em baixo. Um velho reclamou com uma menina de uns presumíveis 15 anos porque ela não poderia estar na fila de atendimento prioritário. Eis a resposta da garota: “Então pegue aqui na minha barriga e vê que estou ou não grávida!” O velho não se conteve: “Não vou pegar, é claro, mas pelo visto você, se estiver neste estado, deve estar com pouco mais de meia hora de gravidez.” Os risos foram gerais.

São decorridos 55 minutos que estou em posição de espera. Minha água, que me acompanha direto e reto, acabou. E estou com fome também, porque já passou de meio-dia. Recebi a senha às 11h15. Quer dizer que da próxima vez devo trazer também uma marmita. Vou ao bebedouro e reformo a água. O painel mostra a senha chamada: A-0909. Faltam 11 lesmas para a minha vez. São 8 atendentes para um grupo de 40 cheios de problemas. Ou mais. Cada um demora meia hora. Imagino que serei atendido depois que encerrar o expediente bancário. E começo a pensar na minha prima, também no Laudimir Vieira, imagino o vento balançando as fitas das cruzes em Ipoema, Roneijober faz estripulias para fazer as suas fotos, Canela e equipe pulam como pipoca em gordura quente, e o caixa não me chama.

Ronca a barriga e olho no relógio: são 16h10. Não se tiram mais senhas. Como ia dizendo, penso na Afra, ela é do tempo do Zé Nico, ou seja, faz tudo só de pensar rápido. Esta é a décima quinta vez que venho aqui neste prestimoso banco. Todos os funcionários, inclusive os vigias, já me conhecem e eu os conheço. No ano passado eu só conhecia um gerente que foi embora e o Saulo, filho do meu amigo, ex-vereador Antônio Cunha. Além de ser piolho de banco, também estou manjado na Fundação Cultural, onde a amiga Juliana tem toda a alegria de me atender. Isso sem contar o Albino na Transportes Cisne, nossa patrocinadora, cujo tempo é poupado pela simpática Eliana.

Pronto. Agora fui atendido. Foram somente 15 minutos de conversa e resolvi tudo. O problema era um suposto erro em dois extratos (de papel mesmo). Mas, como? Um erro deste jamais ocorreria! Faltavam R$ 9,60 na conta e não pode sobrar nem faltar 1 centavo. O funcionário me acalmou. Mas me deu ordens: “Você tem de ir ao caixa eletrônico e tirar um novo extrato assim, assim, assim, assado, porque você não  requereu de todo o do vencido mês de outubro. Entendido? Tudo bem. Obrigado. Desci as escadarias.

Agora o salão de acesso aos caixas eletrônicos está menos cheio, mas sobram filas no espaço. Lá se foi uma nova garrafa de água e a fome foi, voltou, sumiu. Nas bichas, de novo, o pessoal do fim do século passado. Quer dizer, jovens de ambos os sexos, todos espertos. Mas e eu? Até que enfim cheguei lá. E a dificuldade desta vez? O meu cartãozinho do projeto é limitadíssimo. Tem validade curtíssima. Devido às suas características, sempre dá uma informação na tela do caixa: “Problema na leitura do cartão”. Ufa! Desisto, desisto, desisto. Consigo depois da ajuda do funcionário extra. Cruzes! Sem vento porque o calor nem pode ser citado.

Não desisto. Vou continuar. A Afra sumiu. O Mequinha ganhou. A Maria Gadu cantou. Estou livre. Quem vem agora é o Laudimir. Vamos à luta, Lau!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Eu escrevo, tu escreves, ele escreve; eu não leio, tu não lês, ele não lê

Muita gente pensa que os viciados em Zap-Zap e Facebook, pelo fato de escreverem muito, também leem exageradamente. Ledo engano. Temos ótimos escritores, sensacionais comentaristas, mas pode ser que seja lido por uma meia dúzia de gatos pingados. Posso dizer isso de cadeira: fiz uma longa pesquisa e ficou esclarecido com a maior clareza que ninguém perde seu “precioso” tempo com o que pensa, de antemão, que nada irá lhe acrescentar. E me perguntam: “E você, também não lê?” Tenho a coragem de responder: só o que me interessa. Falta sempre tempo e o brasileiro é, por natureza, um semi-analfabeto declarado. Ouço as pessoas dizerem desde antigamente: “Não leio as notícias de jornais; prefiro passar os olhos nas manchetes.”

Mas o interlocutor insiste e quer saber mais: “Mesmo sabendo que ninguém o lê, ainda tem a coragem de escrever? Afinal, para que ou para quem você escreve?” Digo que escrever é um vício inevitável, é uma espécie de desabafo, um despejo de ideias que se estabelecem no nosso apartamento interior. Fico com pena de algumas pessoas, catedráticas, portadoras de conhecimento de causa, que praticamente todos os dias deixam um longo ou vários longos textos de graça para uma plateia imensa. Em vão. A minha pesquisa foi feita assim: comecei a postar no Zap-Zap e no Facebook chamadas de temas que pouco tinham a ver com o link anexado. Conclusão: os comentários fugiam radicalmente do assunto. Motivo: não era aberto o link relacionado.

Desde a Idade Média, ou mesmo antes dessa época longínqua, o ser humano gosta de falar, sempre falar, só falar. Nunca ouvir, ouvir, ouvir. As pessoas até são engraçadas mesmo. A gente passa por uma turma conversando nas ruas, avenidas, praças, ônibus, salões de beleza, velórios, botecos e esquinas, e observa. Normalmente, alguém está gesticulando. O interlocutor é obrigado a ouvir, se é que tem educação ou interesse no tema. Se o falador já ultrapassou a serra da boa esperança na vida, com certeza tem mais vontade de abrir o bico para contar causos. Isso é um impulso que nasce sempre na terceira idade.

Leio muito, desculpem-me dizer isso, se é que ofende. Os que detestam livros não gostam do assunto. Não sou um bom ouvinte, a não ser se encontrar um ambiente arejado, por causa de minha baixíssima audição. Quando entro num papo interessante, seja sobre história, geografia, política, polícia, esportes e humor, sou todo ouvinte e até aumento o volume de meu aparelho auditivo. Fico observando: alguém começa a contar um caso, chega uma terceira ou quarta pessoa e interrompe o bate-papo. O contador de causos é interrompido e, normalmente, ninguém volta ao assunto. Até porque ele percebe que tudo era apenas fingimento, ninguém queria mesmo ouvi-lo.

Exemplos de desprezo são dados por pessoas que não respondem sequer a mínima mensagem de um amigo. Julgam, às vezes, o assunto encerrado, quando o outro, do lado de lá, aguarda um sinal de que está na hora de parar ou de continuar. Alguns, quando não lhes interessa o tema (uma cobrança, algo que pede decisão etc.) os espertinhos simplesmente ignoram a mensagem. Só quero concluir assim: quando você me ouvir numa palestra, se ouvir, vai perceber que esse ato de desprezo precisa ser combatido. Falo muito a este respeito. Afinal de contas, a nossa felicidade não pode ficar nas mãos dos desleixados sem educação que só vivem para si e a sua vida particularmente egoísta.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A velha rixa Gambá x Cabrito

Gambá é São Sebastião do Rio Preto. Cabrito é Passabém. Os motivos são outra história. Esses bichos não eram mascotes, como existem hoje na maioria dos times de futebol profissional, mas apelidos mesmo e que geravam ódio mortal. Quem gritasse a ofensa no terreno do outro podia levar um tiro na cabeça. Nunca ninguém morreu por causa disso, é o que sei, mas já houve guerras. Certa vez os exércitos gambasenses e caprinos caminharam celeremente para protagonizar uma batalha épica no Alto do Veado, mas houve intervenção de um sacerdote, o Padre Manoel Madureira, que apaziguou os ânimos.

E me lembro de outra batalha marcada para acontecer. Aí presenciei, mesmo de calças curtas, as discussões para a batalha.. Todos os moradores do arraial de São Sebastião tinham armas de fogo, foices e machados. Como índios ferozes, afiaram as suas esquadras e, novamente, marcaram encontro no lendário Veado. Eita morro danado! Do outro lado, vinha Passabém, também empunhando parece que canhões. No meio do caminho a ameba, um verme que dá medo, pegou em cheio os dois exércitos, que recuaram para os seus quartéis.

Um de meus avós, Godofredo Cândido de Almeida, que nunca foi de correr nem atrás de baratas ou formigas,  levava a rixa bem a sério. Proibiu os filhos e netos de passarem dentro de São José do Passabém ou, se houvesse a imperiosidade da passagem, que fosse sem parada. Houve um tempo em que o ônibus de São Sebastião a Itabira, via Dona Rita e Florença, só transitava no centro de Passabém para buscar ou desembarcar passageiros. Então, os gambás viajantes ficavam parados no entroncamento aguardando a manobra na terra passabeense para o reembarque. Que tolice!

No meu tempo de adolescente, tínhamos em São Sebastião um quase imbatível time de futebol. Sabedores disso, os passabeenses não aceitavam jogar contra o nosso esquadrão. Certa vez, fomos ao campo de Passabém reforçar o time de Santo Antônio do Rio Abaixo. A equipe visitante se enxertaria de seis gambás na luta contra os cabritos. Mas na hora  do jogo houve o impasse discutido solenemente por prefeito e vereadores: “Gambá não pisa no nosso terreno”, bradaram de bom tom. Resultado: Santo Antônio jogou apenas com um dos fedorentos e esse cara era eu, o goleiro. Afinal, não era permitido jogar com a meta vazia.

Durante o jogo levei varadas antológicas nas duas pernas que até se sangraram. Eram as moças da terrinha anfitriã que queriam me ver engolir um frango. Acreditem quem quiser: ganhamos de 3 x 0 e há muitos amigos de lá como testemunhas, como Aristone e outros, todos de uma educação polida e invejável. Outros, infelizmente, não posso citar, pois não se encontram mais entre nós. No momento de ir embora, na porta da igreja, o ônibus esperava a caravana para o retorno. A torcida punha fogo no ambiente e gritava sem parar: “Gambazada, Gambazada, Gambazada!” Até que na saída, os visitantes reagiram, mas com o veículo em movimento: “Vamos pro Gambá comer Cabrito?” Aí a raiva de nós voltou a esquentar a praça.

Vejam hoje. Não houve, a meu ver, transmissão do terrível ódio mútuo de geração para geração. Ambas as cidades vivem em paz completa, graças a Deus!  Ou nem sabem das brigas passadas. Quando os mais velhos contam as passagens daquilo que chamo de Idade Média aos jovens atuais, esses até se assustam. É preciso entender que o ser humano não age sozinho, mas, sim, de acordo com os sentimentos, costumes e a própria ignorância de cada época globalmente. Um conjunto contra outro conjunto. Virgem Maria! Não tenho saudade dessa loucura!

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O dia em que uma cueca virou coador de café

Tinha eu 16, 17 anos. Zé Quintão, meu colega de igreja, bagunças e galinhadas, a mesma idade. Afinal, somos de época idêntica, diferença de poucos meses, e nos encontrávamos nas férias ou intervalos de aulas em São Sebastião do Rio Preto. E ocorreu uma noite inusitada. Às 20 horas, quando saí de casa num instante qualquer,  meu pai me avisou: “Se você chegar hoje depois de dez horas vai ficar na rua.” Não dei bola para aquela advertência. Entrei no meio da turma e daí esquecemos as horas, depois de galinhadas e seresta. Deu 3 horas da madrugada, veio sono pegar a turma, menos os dois Zés. Contei pro meu amigo: “Olha, se a porta de minha casa estiver fechada, vou sumir do mapa”. A resposta do Quintão veio em cima do que imaginava: “Vou com você!”

E partimos Rio Preto acima, depois de arrumar as trouxas. Biscoitos, bolos, pães, panela, caçarola, sal, gordura, arroz, carne e um litro de cachaça, uma capa e um cobertor. Pegamos a beira do rio nas proximidades da Praia da Conquista. Marchamos. No corpo, uma roupa só. O dia de amanhã não interessava. Caminhamos, pedras sobre pedras, com uma lanterna, tudo produto da casa do Zé.  De repente, chegamos defronte uma cidade, já cansados. — Uma cidade? — era a nossa arguição. Ao  olhar e manjar, constatamos que aquele seria o povoado do Porto, localizado a seis quilômetros da Vila de São Sebastião.

Dormimos a primeira madrugada, depois de uns tragos e um bom sanduíche, quando o dia ameaçava raiar. Como dormimos: no chão, nas folhas, cobertos pelos cobertores. E o dia raiou. Nem uma escassa alma passava por lá. Zé Quintão resolveu tomar uma decisão: foi à rua, como dizíamos, fazer uma feira. E de lá trouxe algumas frutas e um reforço para o almoço, com garfos e facas, dois pratos e anzóis. Passava eu o dia sozinho, foragido, quieto, pronto para viver naquele ambiente delicioso, as cachoeiras fazendo barulho, o rio  caudaloso, eu nem aí, pensando no para sempre. Cobras, soins e lagartos não nos preocupavam. Essa solidão transcorria durante o dia, até que aconteceu, lá pela sexta noite, Zé Quintão não voltou. E venci a madrugada na solidão completa que parecia dos cem anos de Gabriel García Márquez.

E foi assim até o 15º dia. Pescando, lendo, bebendo cachaça, também com limão, fritando peixes e vivendo como indígenas ou eremitas. Nem queríamos saber o que pensavam de nós e daquela loucura juvenil.  Até hoje não sei e nem procurei me inteirar das fofocas. Meio mês só com água e cachaça, sentimos falta do café. Então, o amigo Quintão foi novamente à rua e trouxe apetrechos para o moca: pó, açúcar, vasilhame, tudo parecia certo. Mas na hora de virar a água no pó, cadê o coador? Não tinha. O que havia, sim, era a minha cueca, tipo samba-canção, que tirei para lavar. Zé Quintão, muito zeloso, deu a ela mais limpeza ainda e, usando sabão de barra, a esfregou com esmero e vontade.

Depois de lavadinha, a esticou no vasilhame todo de metal. Virou a água fervilhando no pó, sob o reino da fumaça, que cheirou no lado oposto  do rio, nos disseram depois quem passava por aquelas bandas. Estava limpo o novo modelo de coador, ninguém viu, ninguém comentou e guardamos o segredo durante mais de quarenta anos. Em comum acordo com José Quintão de Almeida elegemos aquele café o melhor de toda a nossa vida. Afinal, fazia 15 dias não tínhamos contato com a civilização, nem com café fraco ou forte. 


Devido à insistência e os recados que recebi, voltei para  casa, depois de meu pai implorar, e daí para a frente nunca mais fechar a porta da casa. Consegui, então, o passaporte para a liberdade nas noitadas de minha terra. Essas passaram a ser notáveis, brilhantes, inesquecíveis.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Por uma Itabira mais humana e sem precisar de mártires

Vinha eu na Avenida Mauro Ribeiro Lage, onde os cidadãos preocupados com a forma física escolheram como seu espaço de caminhada, era quase nove horas e o tempo de quem trabalha estava vencido. Inesperadamente, do outro lado, a dez metros de mim, ou a um passo, diria, uma figura feminina voa ao ser arremessada por um dos 60 mil ou mais veículos que inundam Itabira de odor de combustível e fumaça. Não sei o que penso e passo depressa ao lado da mulher, pálida como uma santa, totalmente inerte, para conferir o seu semblante, já que só podia ligar o 192. Sem pensar, cercado por uma multidão que começa a se formar, como acontece sempre comigo escurece a visão, vem uma quase incontida tonteira e tenho que zarpar para não me tornar mais uma vítima.

Em seguida, da janela de meu apartamento vejo as cenas, depois de ingerir a  necessária água. O rápido Samu chega com dois veículos e agora o que interessa é saber se aquela santa-mártir sobreviverá. Não, infelizmente, o presságio de sua morte invade o meu cérebro, mas registro o momento como marcante em minha vida negativamente. Em pouco tempo, redesenho na mente a estampa pálida da septuagenária senhora, recordando que se tratava de uma viúva, religiosa, piedosa, de bondade que transparece além dos gestos e atos. Eu a conhecia, sim. Tratava-se de Rosa Severiana de Freitas Oliveira, 72 anos, voluntária do Santuário de São Geraldo, ermida que tem em seu comando o querido Padre Cléverson Pinheiro e quase cotidianamente o também estimado Padre Luciano Simões.

Tento esquecer a cena dramática, marcante, dolorosa, para me localizar em problemas estruturais de Itabira. Hoje a cidade carrega um peso terrível que é o seu trânsito caótico, imposto sobre a maioria de suas ruas ou estreitas ou tidas como “para descontar o tempo perdido”, o que é, de verdade, a Avenida Mauro Ribeiro Lage, onde ocorreu o fato com data, hora e minutos anotados por mim: segunda-feira, 31 de agosto, 8h52 exatos. Vejo os quebra-molas abundando por vias e mais vias urbanas e praticamente inócuos. Vejo as rotatórias sendo mais um motivo de medir a impaciência e o egoísmo das pessoas do que uma disciplinadora para todos. Vejo a Avenida João Pinheiro e outras mais, como Cristina Gazire, Li Guerra, Almir Magalhães entre tantas sendo transformadas em pistas de corrida e pergunto: onde está a educação do motorista?

Além da falta de polidez há a desatenção. Em raros momentos são vistos os agentes da empresa que cuida do trânsito fiscalizando velocidade, segurança do pedestre. Na Mauro Ribeiro os motoboys abusam sem limite nas 24 horas do dia. Já os guardas se concentram quase na fiscalização dos estacionamentos, querem o talão marcando o tempo de permanência do veículo, ou nem querem, porque o melhor para eles é, sem dúvida, arrancar uma multa, fazer subir a arrecadação. Diz a  boca pequena que a Prefeitura se anuncia como “quebrada”, embora não tanto quanto o povo, sugado, dolorido, maltratado, em processo de humilhação pelo desemprego, salários corroídos pela inflação ou mesmo esgotados pelo esquema pernicioso que o governo impõe aos aposentados de há muito tempo.

Depois de dizer tudo isso, volto à Dona Rosa, a verdadeira responsável por estas linhas e mártir que aparece para chamar a atenção e fazer com que Itabira volte a ser humana como já foi um dia e seja uma cidade das crianças, jovens, adultos, idosos e não de carros novos, velhos, importados ou chiques. A vida virou uma correria desenfreada rumo ao dinheiro, mas as autoridades precisam pensar mais no ser humano, na sua segurança. Governar não é apenas arrecadar e punir. Na falta de um líder para chamar todos à responsabilidade, nomeamos a humilde Dona Rosa, que deu sua vida para o retorno da educação e do espírito humanitário, que pode estar dizendo isto agora: “Morri para que todos vocês, religiosos de qualquer crença; membros de clubes de serviço, de jovens, de mães, de lazer; profissionais da imprensa, do ensino, da justiça, das empresas; dedicados a associações de bairros, sindicatos de classes, organizações de toda ordem e bem-intencionadas; para que Itabira inteira se junte, se abrace, se confraternize faça uma promoção do fim da violência em todos os níveis e, principalmente, no trânsito, que faz vítimas inocentes em praticamente todos os dias."

E aí convocamos todos a entrar na mesma sintonia daquela senhora que teve morte violenta mas que poderia ter sido, como muitas outras que ocorrem sempre, para mudar a nossa história. Viver bem e saber evoluir na face da Terra é a missão de todos nós. Os mártires são outros quinhentos, esses morrem para suprir a nossa ignorância. E chega de burrice e desamor!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

De volta a neurose tipicamente itabirana: diversificação econômica

A nossa mente é povoada de termos do senso comum ou mesmo adotados pela linguagem técnica. Já houve tempo em que só se falava que “o minério não dá duas safras”, “o petróleo é nosso” e outros slogans não menos importantes ou votados. Na década de 1960 entrou em vigor uma obsessão chamada “diversificação econômica”. A classe política, empresarial, das donas de casa, estudantes e trabalhadores tomavam café, almoçavam, lanchavam, jantavam e dormiam a tal diversificação, drama típico das cidades mineradoras. Em Itabira, ai de quem não fizesse um discurso em cada esquina e citasse o termo como expressão chave. Da busca incessante de alguma atividade que pudesse se encaixar na diversidade de tão nobre objetivo, outro tema apareceu em forma de questionamento com o seu linguajar próprio: qual seria a nossa vocação econômica?

Surge, então, a primeira tarefa: descobrir o que se ajusta ao dom não individual, mas coletivo, da terra em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e a Vale. Aí começam os planos diretores que ocuparam o trabalho de consultores na cidade. O primeiro foi elaborado por Radamés Teixeira lá pelos idos de um mil novecentos e lá vai Daniel Grisolia e Wilson Soares. O urbanista previu Itabira crescendo para o lado do Parque de Exposições.  Certo. Contudo, seu erro até agora foi admitir que o bairro Novo Amazonas, com a sua Avenida Ipiranga, fosse se transformar numa Savassi Itabirana.

Paulo Haddad também visitou a cidade inúmeras vezes para dar o seu sinal profético dos números e dos fatos. Na frente ou por trás de eminentes futurólogos, estiveram várias fundações. Uma delas, a João Pinheiro, arriscou inúmeros palpites. Em 1976, esteve debatendo na Câmara Municipal o então presidente do CDI/MG, Celso Mello Azevedo. A partir de sua apresentação, foi agilizada a construção do Distrito Industrial de Itabira, inaugurado em 1984 com uma fábrica de ferro-gusa. Está em atividade esse DI, mas não consegue, nem de longe, assumir a grande responsabilidade de substituir a indústria extrativa mineral.

Nas primeiras páginas dos planos estavam inseridos os nomes de nossa vocação econômica. A primeira aposta foi na atividade metal-mecânica. Por pouco tempo sustentaram esse título e tão logo mudaram o disco para polo moveleiro. A Vale chegou a inaugurar uma pequena fabriqueta de madeira, que funcionou durante algum tempo como modelo experimental. Com base nessa experiência e para aproveitar a vasta produção de pinus e eucalipto na região, despontou-se um grande  projeto chamado Medium Density Fiberboard (MDF), um tipo de trabalho com compensados de madeira, que empolgou toda a região e logo caiu no esquecimento.Via-se facilmente que o mais difícil era encontrar a tal vocação. Até montadoras de automóveis pareciam querer montar os seus galpões por aqui.Tudo no papel.

O termo preferido nunca deixou de ser diversificação econômica, neurose itabirana de doer os tímpanos. Mas, por ironia do destino, nenhum político pensou em educação como capaz de carregar nos ombros o peso da economia de uma Itabira em que o dinheiro voa, corre, disputa  provas, maratonas e nem se cansa. Estão aí as faculdades itabiranas crescendo e se despontando. Hoje, Itabira tem não menos de cinco mil alunos matriculados em cursos superiores. Mais do que isso, podemos espelhar pelo menos em duas cidades brasileiras que praticamente vivem, e muito bem, dessa fonte de receita: Barbacena, a 160 quilômetros de Belo Horizonte e Itajubá, no Sul de Minas Gerais. A Unifei veio exatamente dessa próspera cidade sul-mineira e caminha para, em breve, atender a não menos de dez mil alunos.


Vejam, pois, que presente natural chega de mãos beijadas! Nenhum instituto ou fundação ou consultoria pensou nisso em seus planos, mas se agiganta de forma concreta e visível e palpável e pungente a Cidade Universitária de Itabira. Cadê a poluição que só fica como bem maior na cabeça de ultrapassados políticos e empreendedores do passado? Cadê os problemas que causam aos rios, córregos, nascentes de água essas ultrapassadas indústrias de gusa, aço e similares? A indústria está chegando. Não mexam com a diversificação econômica porque ela surge naturalmente em forma de infraestrutura. Agora a ordem é fabricar conhecimento. Mas, atenção: é importante crer e abraçar a ideia do saber que não ocupa lugar  em nosso cérebro.