sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O dia em que uma cueca virou coador de café

Tinha eu 16, 17 anos. Zé Quintão, meu colega de igreja, bagunças e galinhadas, a mesma idade. Afinal, somos de época idêntica, diferença de poucos meses, e nos encontrávamos nas férias ou intervalos de aulas em São Sebastião do Rio Preto. E ocorreu uma noite inusitada. Às 20 horas, quando saí de casa num instante qualquer,  meu pai me avisou: “Se você chegar hoje depois de dez horas vai ficar na rua.” Não dei bola para aquela advertência. Entrei no meio da turma e daí esquecemos as horas, depois de galinhadas e seresta. Deu 3 horas da madrugada, veio sono pegar a turma, menos os dois Zés. Contei pro meu amigo: “Olha, se a porta de minha casa estiver fechada, vou sumir do mapa”. A resposta do Quintão veio em cima do que imaginava: “Vou com você!”

E partimos Rio Preto acima, depois de arrumar as trouxas. Biscoitos, bolos, pães, panela, caçarola, sal, gordura, arroz, carne e um litro de cachaça, uma capa e um cobertor. Pegamos a beira do rio nas proximidades da Praia da Conquista. Marchamos. No corpo, uma roupa só. O dia de amanhã não interessava. Caminhamos, pedras sobre pedras, com uma lanterna, tudo produto da casa do Zé.  De repente, chegamos defronte uma cidade, já cansados. — Uma cidade? — era a nossa arguição. Ao  olhar e manjar, constatamos que aquele seria o povoado do Porto, localizado a seis quilômetros da Vila de São Sebastião.

Dormimos a primeira madrugada, depois de uns tragos e um bom sanduíche, quando o dia ameaçava raiar. Como dormimos: no chão, nas folhas, cobertos pelos cobertores. E o dia raiou. Nem uma escassa alma passava por lá. Zé Quintão resolveu tomar uma decisão: foi à rua, como dizíamos, fazer uma feira. E de lá trouxe algumas frutas e um reforço para o almoço, com garfos e facas, dois pratos e anzóis. Passava eu o dia sozinho, foragido, quieto, pronto para viver naquele ambiente delicioso, as cachoeiras fazendo barulho, o rio  caudaloso, eu nem aí, pensando no para sempre. Cobras, soins e lagartos não nos preocupavam. Essa solidão transcorria durante o dia, até que aconteceu, lá pela sexta noite, Zé Quintão não voltou. E venci a madrugada na solidão completa que parecia dos cem anos de Gabriel García Márquez.

E foi assim até o 15º dia. Pescando, lendo, bebendo cachaça, também com limão, fritando peixes e vivendo como indígenas ou eremitas. Nem queríamos saber o que pensavam de nós e daquela loucura juvenil.  Até hoje não sei e nem procurei me inteirar das fofocas. Meio mês só com água e cachaça, sentimos falta do café. Então, o amigo Quintão foi novamente à rua e trouxe apetrechos para o moca: pó, açúcar, vasilhame, tudo parecia certo. Mas na hora de virar a água no pó, cadê o coador? Não tinha. O que havia, sim, era a minha cueca, tipo samba-canção, que tirei para lavar. Zé Quintão, muito zeloso, deu a ela mais limpeza ainda e, usando sabão de barra, a esfregou com esmero e vontade.

Depois de lavadinha, a esticou no vasilhame todo de metal. Virou a água fervilhando no pó, sob o reino da fumaça, que cheirou no lado oposto  do rio, nos disseram depois quem passava por aquelas bandas. Estava limpo o novo modelo de coador, ninguém viu, ninguém comentou e guardamos o segredo durante mais de quarenta anos. Em comum acordo com José Quintão de Almeida elegemos aquele café o melhor de toda a nossa vida. Afinal, fazia 15 dias não tínhamos contato com a civilização, nem com café fraco ou forte. 


Devido à insistência e os recados que recebi, voltei para  casa, depois de meu pai implorar, e daí para a frente nunca mais fechar a porta da casa. Consegui, então, o passaporte para a liberdade nas noitadas de minha terra. Essas passaram a ser notáveis, brilhantes, inesquecíveis.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Por uma Itabira mais humana e sem precisar de mártires

Vinha eu na Avenida Mauro Ribeiro Lage, onde os cidadãos preocupados com a forma física escolheram como seu espaço de caminhada, era quase nove horas e o tempo de quem trabalha estava vencido. Inesperadamente, do outro lado, a dez metros de mim, ou a um passo, diria, uma figura feminina voa ao ser arremessada por um dos 60 mil ou mais veículos que inundam Itabira de odor de combustível e fumaça. Não sei o que penso e passo depressa ao lado da mulher, pálida como uma santa, totalmente inerte, para conferir o seu semblante, já que só podia ligar o 192. Sem pensar, cercado por uma multidão que começa a se formar, como acontece sempre comigo escurece a visão, vem uma quase incontida tonteira e tenho que zarpar para não me tornar mais uma vítima.

Em seguida, da janela de meu apartamento vejo as cenas, depois de ingerir a  necessária água. O rápido Samu chega com dois veículos e agora o que interessa é saber se aquela santa-mártir sobreviverá. Não, infelizmente, o presságio de sua morte invade o meu cérebro, mas registro o momento como marcante em minha vida negativamente. Em pouco tempo, redesenho na mente a estampa pálida da septuagenária senhora, recordando que se tratava de uma viúva, religiosa, piedosa, de bondade que transparece além dos gestos e atos. Eu a conhecia, sim. Tratava-se de Rosa Severiana de Freitas Oliveira, 72 anos, voluntária do Santuário de São Geraldo, ermida que tem em seu comando o querido Padre Cléverson Pinheiro e quase cotidianamente o também estimado Padre Luciano Simões.

Tento esquecer a cena dramática, marcante, dolorosa, para me localizar em problemas estruturais de Itabira. Hoje a cidade carrega um peso terrível que é o seu trânsito caótico, imposto sobre a maioria de suas ruas ou estreitas ou tidas como “para descontar o tempo perdido”, o que é, de verdade, a Avenida Mauro Ribeiro Lage, onde ocorreu o fato com data, hora e minutos anotados por mim: segunda-feira, 31 de agosto, 8h52 exatos. Vejo os quebra-molas abundando por vias e mais vias urbanas e praticamente inócuos. Vejo as rotatórias sendo mais um motivo de medir a impaciência e o egoísmo das pessoas do que uma disciplinadora para todos. Vejo a Avenida João Pinheiro e outras mais, como Cristina Gazire, Li Guerra, Almir Magalhães entre tantas sendo transformadas em pistas de corrida e pergunto: onde está a educação do motorista?

Além da falta de polidez há a desatenção. Em raros momentos são vistos os agentes da empresa que cuida do trânsito fiscalizando velocidade, segurança do pedestre. Na Mauro Ribeiro os motoboys abusam sem limite nas 24 horas do dia. Já os guardas se concentram quase na fiscalização dos estacionamentos, querem o talão marcando o tempo de permanência do veículo, ou nem querem, porque o melhor para eles é, sem dúvida, arrancar uma multa, fazer subir a arrecadação. Diz a  boca pequena que a Prefeitura se anuncia como “quebrada”, embora não tanto quanto o povo, sugado, dolorido, maltratado, em processo de humilhação pelo desemprego, salários corroídos pela inflação ou mesmo esgotados pelo esquema pernicioso que o governo impõe aos aposentados de há muito tempo.

Depois de dizer tudo isso, volto à Dona Rosa, a verdadeira responsável por estas linhas e mártir que aparece para chamar a atenção e fazer com que Itabira volte a ser humana como já foi um dia e seja uma cidade das crianças, jovens, adultos, idosos e não de carros novos, velhos, importados ou chiques. A vida virou uma correria desenfreada rumo ao dinheiro, mas as autoridades precisam pensar mais no ser humano, na sua segurança. Governar não é apenas arrecadar e punir. Na falta de um líder para chamar todos à responsabilidade, nomeamos a humilde Dona Rosa, que deu sua vida para o retorno da educação e do espírito humanitário, que pode estar dizendo isto agora: “Morri para que todos vocês, religiosos de qualquer crença; membros de clubes de serviço, de jovens, de mães, de lazer; profissionais da imprensa, do ensino, da justiça, das empresas; dedicados a associações de bairros, sindicatos de classes, organizações de toda ordem e bem-intencionadas; para que Itabira inteira se junte, se abrace, se confraternize faça uma promoção do fim da violência em todos os níveis e, principalmente, no trânsito, que faz vítimas inocentes em praticamente todos os dias."

E aí convocamos todos a entrar na mesma sintonia daquela senhora que teve morte violenta mas que poderia ter sido, como muitas outras que ocorrem sempre, para mudar a nossa história. Viver bem e saber evoluir na face da Terra é a missão de todos nós. Os mártires são outros quinhentos, esses morrem para suprir a nossa ignorância. E chega de burrice e desamor!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

De volta a neurose tipicamente itabirana: diversificação econômica

A nossa mente é povoada de termos do senso comum ou mesmo adotados pela linguagem técnica. Já houve tempo em que só se falava que “o minério não dá duas safras”, “o petróleo é nosso” e outros slogans não menos importantes ou votados. Na década de 1960 entrou em vigor uma obsessão chamada “diversificação econômica”. A classe política, empresarial, das donas de casa, estudantes e trabalhadores tomavam café, almoçavam, lanchavam, jantavam e dormiam a tal diversificação, drama típico das cidades mineradoras. Em Itabira, ai de quem não fizesse um discurso em cada esquina e citasse o termo como expressão chave. Da busca incessante de alguma atividade que pudesse se encaixar na diversidade de tão nobre objetivo, outro tema apareceu em forma de questionamento com o seu linguajar próprio: qual seria a nossa vocação econômica?

Surge, então, a primeira tarefa: descobrir o que se ajusta ao dom não individual, mas coletivo, da terra em que nasceram Carlos Drummond de Andrade e a Vale. Aí começam os planos diretores que ocuparam o trabalho de consultores na cidade. O primeiro foi elaborado por Radamés Teixeira lá pelos idos de um mil novecentos e lá vai Daniel Grisolia e Wilson Soares. O urbanista previu Itabira crescendo para o lado do Parque de Exposições.  Certo. Contudo, seu erro até agora foi admitir que o bairro Novo Amazonas, com a sua Avenida Ipiranga, fosse se transformar numa Savassi Itabirana.

Paulo Haddad também visitou a cidade inúmeras vezes para dar o seu sinal profético dos números e dos fatos. Na frente ou por trás de eminentes futurólogos, estiveram várias fundações. Uma delas, a João Pinheiro, arriscou inúmeros palpites. Em 1976, esteve debatendo na Câmara Municipal o então presidente do CDI/MG, Celso Mello Azevedo. A partir de sua apresentação, foi agilizada a construção do Distrito Industrial de Itabira, inaugurado em 1984 com uma fábrica de ferro-gusa. Está em atividade esse DI, mas não consegue, nem de longe, assumir a grande responsabilidade de substituir a indústria extrativa mineral.

Nas primeiras páginas dos planos estavam inseridos os nomes de nossa vocação econômica. A primeira aposta foi na atividade metal-mecânica. Por pouco tempo sustentaram esse título e tão logo mudaram o disco para polo moveleiro. A Vale chegou a inaugurar uma pequena fabriqueta de madeira, que funcionou durante algum tempo como modelo experimental. Com base nessa experiência e para aproveitar a vasta produção de pinus e eucalipto na região, despontou-se um grande  projeto chamado Medium Density Fiberboard (MDF), um tipo de trabalho com compensados de madeira, que empolgou toda a região e logo caiu no esquecimento.Via-se facilmente que o mais difícil era encontrar a tal vocação. Até montadoras de automóveis pareciam querer montar os seus galpões por aqui.Tudo no papel.

O termo preferido nunca deixou de ser diversificação econômica, neurose itabirana de doer os tímpanos. Mas, por ironia do destino, nenhum político pensou em educação como capaz de carregar nos ombros o peso da economia de uma Itabira em que o dinheiro voa, corre, disputa  provas, maratonas e nem se cansa. Estão aí as faculdades itabiranas crescendo e se despontando. Hoje, Itabira tem não menos de cinco mil alunos matriculados em cursos superiores. Mais do que isso, podemos espelhar pelo menos em duas cidades brasileiras que praticamente vivem, e muito bem, dessa fonte de receita: Barbacena, a 160 quilômetros de Belo Horizonte e Itajubá, no Sul de Minas Gerais. A Unifei veio exatamente dessa próspera cidade sul-mineira e caminha para, em breve, atender a não menos de dez mil alunos.


Vejam, pois, que presente natural chega de mãos beijadas! Nenhum instituto ou fundação ou consultoria pensou nisso em seus planos, mas se agiganta de forma concreta e visível e palpável e pungente a Cidade Universitária de Itabira. Cadê a poluição que só fica como bem maior na cabeça de ultrapassados políticos e empreendedores do passado? Cadê os problemas que causam aos rios, córregos, nascentes de água essas ultrapassadas indústrias de gusa, aço e similares? A indústria está chegando. Não mexam com a diversificação econômica porque ela surge naturalmente em forma de infraestrutura. Agora a ordem é fabricar conhecimento. Mas, atenção: é importante crer e abraçar a ideia do saber que não ocupa lugar  em nosso cérebro. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

VIDAS ABENÇOADAS ENTRE NÓS. VIVA NÓS!

Foi assim...Estava com a mente em São Sebastião do Rio Preto mas, na verdade, morando em Belo Horizonte e ainda comendo o pão que o diabo fermentou, amassou e assou mal-assado. Mas o que me importa se a festa era de minha tia Maria das Mercês Sana? Ou melhor, devo consertar a tempo: de minha dileta irmã, pois ela sempre foi a mana que até cuidava de mim. Sim, cuidava sempre e sempre. Em  casa ou em Guanhães, onde moramos juntos. Para provar isso, tenho uma frase eternizada por minha Vó Maria, mãe dela, que viveu 105 anos e até os seus últimos minutos dizia, ao me encontrar: “Oh, Mercês, este sapato me faz chorar toda hora!” E não é preciso dizer que até hoje detesto sapatos.

Chegava o dia 16 de julho de 1965. Minha Vó faria 66 anos de idade. Ela e meu Vô Serafim (63) casariam a filha mais nova, minha verdadeira irmã, Mercês, com José Vanderlei Duarte Morais. O romance  dos dois daria um livro e, juntado ao meu envolvimento como pessoa ativa da família, somaria dois compêndios de 500 páginas. Para compensar a nossa proximidade de irmãos e quase gêmeos, diria, Mercês não me convidou para ser seu padrinho. Deveria ter pensado nisso, no meu entender, mas abusando de nossa intimidade, o que fiz eu? Tomei a escolha que ela fez de meu irmão Carlos e assumi o bastão de substituto dele por pura trapaça, conspiração que me fez apropriar do terno dele. Querem uma demonstração de amor fraternal maior que essa?

Para compensar o que ela fez — me abandonou nas suas escolhas — recebi a incumbência que guardo na lembrança com muita honra: levei-a, em Belo Horizonte, ao salão de beleza. E com uma notoriedade: não entrei, fiquei fazendo ronda nas imediações da Praça Sete com Avenida Amazonas. Quando ela saiu dos cuidados de beleza que lhe dedicaram, apresentou-se a mim, na porta do salão, quando fiquei perplexo: quem seria esta moça? Levei infinitos cinco minutos para reconhecê-la. Que bom! Estava mais linda ainda, já pensaram?

Era  a antevéspera. Partimos para a terra natal, onde aconteceria o chamado enlace matrimonial. Ah, aguardem aí. Tenho várias recordações da data, mas adianto que nem dá para contar um milésimo dos fatos porque este texto não é um livro de 500 páginas. Vamos, então, ao que interessa. Estamos na igreja matriz de São Sebastião, toda ornamentada. Vem o padre — sou muito amigo de muitos padres, mas esse meu xará não me deixou saudades —  e arranca todas as flores e fitas e cachos de orquídeas que ornamentavam os bancos. Estava lindo, até eu, na minha ignorância floral, admirava aquela linda paisagem sagrada. Mas fiquei sem entender. Quem não ficou sem ter raiva foi o meu Vô que quase parte para a goela daquele José, que esteja em bom lugar, nem sei se aqui ou em outro mundo. Ele surtou totalmente e pregou as suas lombrigas em nossas caras e contra a exuberância do ambiente. Que tenha sido perdoado por Deus!

A raiva de Serafim, segundo filho de italianos não passava. Até que, no meio da festa, depois de alguns licores e vinhos, vi-o num ato que jamais tinha contemplado na vida, mesmo quase morando no seu sobradão colonial e na sua Pharmácia (com PH mesmo). O que fazia o meu Vô? Ninguém pode imaginar! Gordo mas de porte atlético, bonito como diziam, alto, forte, tímido, ele se transformou e começou a dançar sozinho. Para mim foi um espetáculo inesquecível. Nem precisava ser filmado e  nem fotos foram feitas. Algumas pessoas riam e se deliciavam. Lembro-me do tio Lilito às gargalhadas.. Eu não ria, apenas acionava o poderio de minha memória. Disse a essa memória: “Por favor, registre, guarde, arquive, nunca perca este inesquecível instante!”

Não me perguntem se vou me lembrar de outros detalhes porque foram muitos. Foi um casamento que muito me orgulhou. Por quê? — alguém me perguntaria. Por ele, ou o convívio, foi e é regulada a minha amizade com o Vander, marido da Mercês. Essa amizade oscilava entre o namoro dos dois, ou seja, quando tudo ia bem, nos entendíamos e quando azedava o clima, éramos inimigos ferrenhos. Até que, finalmente, nos tornamos irmãos para sempre. Confesso que devo ao Vander o favor de ter adquirido uma casa antes de me casar. Ele foi um verdadeiro gerente de minhas economias, tomando-me tudo o que recebia de salário da Vale. Além de confiscar os meus centavos, ainda pagava juros. Esses valores acumulados e rendendo atualizações quase dera, para adquirir o imóvel. Posso esquecer?

O tempo passou e, neste 16 de julho de 2015, eles fazem 50 anos de feliz união. É um prêmio a Boda de Ouro, principalmente pela vida que tiveram e têm. Cinco lindos filhos (empatados comigo) e 11 netinhos (me vencem com dois de frente). O melhor de toda a história: todos os filhos bem-encaminhados na vida (empataram comigo) e gratos por terem pais de excelentes virtudes.

Só nos resta recordar que em 16 de julho de 1965 caiu uma estrela em São Sebastião do Rio Preto e iluminou uma família inteira. Vovó Maria, com os seus exagerados carinhos, fez as bonificações se estenderem a uma imensa família. Vovô Serafim, de quem sou suspeito de dizer uma só palavra — nunca me passou um só “pito”, mesmo tendo sido eu sempre um menino peralta — foi um baluarte, quem não sabe? Sua reprovação aos meus frequentes atos de rebeldia se davam com os olhos e com eles vinham também a compreensão, o apoio, a mansidão em confortar nos momentos difíceis e como foi e é difícil uma adolescência!

Neste texto falei mais da família em si. Mas para mim, o casamento é uma união de família. Vander e Mercês são exemplos de como se constroem bons exemplos e como se unem para o futuro. Nos percalços da vida dos filhos e netos, vão construindo o caminho de todos. Por saber de tantas alegrias que triunfam,  não me cabe mais pedir júbilo para os anos que virão. Pedir a Deus? Parece um ato de injustiça, porque sempre disse que Deus sabe o que faz. Temos, então, todos juntos, todos mesmo, de fazer o seguinte: AGRADECER. E amém.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

O FIM DA COMUNICAÇÃO

Nos últimos tempos, falam muito em fim. “O fim do Brasil” é o título de um livro que estou lendo, do mestre em finanças Felipe Miranda. Fim dos tempos ouve-se de religiosos, carolas ou fanáticos e fundamentalistas de doutrinas e seitas. Fim de linha —  linha férrea, anzol,  vara,  pensamento, sonho. Rua sem fim — o que mais existe em cidades feitas na marra no período quase medieval. Fim do mundo — o que os pessimistas aguardam ansiosamente. Finalmente, o fim da comunicação, tema que me assalta as ideias neste exato momento.

Indiferente ao fim de outras coisas, a comunicação está chegando ao seu inadiável limite. E desponta, para explicar isso, ou tornar ainda mais difícil a explicação, o desenvolvimento de muitos e muitos canais, muitos e muitos estudos, muitas e muitas formas. O ser humano inventou o telégrafo, a imprensa, o rádio, a televisão, a internet. À medida que esses poderosos recursos foram aparecendo na face da Terra, foi e vai se extinguindo a comunicação.

Antigamente o homem se comunicava por tambores e/ou fumaça. Conta a história que um aviso à distância era naturalmente transmitido e entendido por quem quer que fosse. Houve uma época, mais recente, em que presenciei o recado para fulano, sicrano e beltrano. Se fosse complicada, a mensagem corria o risco de chegar truncada ou mudada, mas em regra não, seguia inteira e original. Lembro-me muito bem quando os recadeiros diziam que “a notícia boa corre e a má notícia voa”. Ela corria  e voava de boca a boca.

Hoje em dia, ninguém mais dá recado. “Pode deixar que falo com ele” — essa forma inteiriça de resposta a um pedido de transmissão de lembrete se constituía na única atenção dada pelo interlocutor. Ou mesmo, um “podexá”.Nunca, nunca, nunca! Ninguém mais dá recado. Quando ocorre uma esporádica transmissão de mensagem, o destino não crê na veracidade desse aviso. O muito que pode fazer para que tudo corra bem é ligar diretamente para o remetente, mesmo que com muita dificuldade.

Dentro de minha roda de amigos e profissionais, não podendo voltar nem à fumaça nem ao tambor, envio um e-mail. Mas sei que esse não será lido. Então, segue um torpedo (SMS) ou mensagem via MSN ou o chamado via WhatsApp, ou todos juntos. Costumo também ligar que mandei e-mail, SMS, MSN e WhathsApp. Com todos esses recursos, vez por outra sou obrigado a ir pessoalmente ao endereço do destinatário para ver se recebeu todas as tentativas de mensagens. E ele, normalmente, diz: “Não tive tempo!”

Duro de roer ou entender a era em que entramos. Diria que James Watt, com a  máquina a vapor; Samuel Morse, o telégrafo; Alexander Graham Bell,  o telefone; Karl Bens, o primeiro veículo a gasolina; Guglielmo Marcon, o rádio;  Johann Gutenberg, a imprensa; Santos Dumont, o avião; Vannevar Bush, o computador analógico; Frank Whittle, o avião a jato; Telstar I, o primeiro satélite de comunicação; e com objetivos militares, foi criada a rede Arpanet que daria origem à Internet — toda essa trajetória de descobertas ou criações foi absolutamente dispensável porque a chamada nova e desenvolvida geração de hoje chuta o balde e sai dele derramando o leite do progresso.

É o fim. Quer saber o que fazer? Não leia ninguém, não ouça nenhum pé-rapado nem lambedor de rapadura. Não se comunique. Faça o contrário do que sugeria Abelardo Barbosa, o inesquecível Chacrinha: “Trumbique-se!” ou “Dane-se!”

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Uma história verdadeira e de arrepiar

O relógio da Fazenda dos Bambus marcava 15 horas e eu arrancava sozinho dali, montando a Mula Queimada do meu avô Serafim rumo a São Sebastião do Rio Preto. Era fim de férias e acabava a vida mansa que curtia sempre em Santo Antônio do Rio Abaixo, muito bem cuidado pelos tios Magda e Antônio do Inhô. Apesar dos meus 11 anos de idade, naquele tempo os meninos eram mais livres porque não havia banditismo por aí. Ao sair, recebi as bênçãos dos meus tios e o adeus dos primos  Edson, Edir, Edilon, Elair, Edvar, Ernane, Eliane,  Eustáquio, Edésio, Fernando e Antônio (reparem que, quando o estoque de “E” acabou, passou-se para o “F” e o “A” foi o ponto final no herdeiro do nome do patriarca).

São 18 quilômetros de percurso, e a boca pequena dizia seis léguas. O tempo normal de viagem dificilmente passava de três horas. A Mula Queimada, imponente e respeitável, era o xodó do meu avô, e eu, como neto mais velho o mimo dele, que tinha o privilégio de fazer o que queria. O tempo fechado para chuva naquele final de janeiro continha ameaça, não para mim que tinha umacabeça doida de criança. Mas a chegada rapidamente do toró fez com que, num momento de tempestade, me aconchegasse dentro do curral da fazenda do lendário Deolindo do Morro Grande. Vejam como eram pomposos os nomes de antigamente.

E lá ia eu, corajoso e muito seguro porque a Queimada era um verdadeiro gigante das estradas, melhor ainda que estava “ferrada” nas quatro patas. Uma pequena preocupação passou por minha cabeça quando começou a escurecer. Na altura do Córrego dos Casados, onde me casaria 14 anos depois (o tempo daquela época era mais vagaroso, como diziam nas grotas e até em cidades grandes), já estava muito escuro, não tinha o chatérrimo horário de verão, e passava de 18 horas. Daí pra frente era um pulo, bastava virar o Retiro do Niquito (meu futuro sogro) para o Retiro do Tãozinho do Godó (meu pai). Mas uma nova tempestade me pegou no Mato do Chico Lopes, onde morava outro lendário personagem, o Zé Miguel, de longas barbas, que mais parecia um personagem bíblico, que saudava todos os que passavam por ali, a cem metros de distância. Para mim, ele gritou aos super berros: “Ô minino, desce dessa besta que a chuva tá muito dimais da conta!”

Segui viagem numa escuridão de fazer medo, mas a Queimada enxergava até vagalume de lâmpada desligada. De minha parte, só via a estrada quando relampejava. Eram fortes relâmpagos de alta tensão como no teatro com trovões de batucada no céu, como as crianças diziam. O grande desafio da viagem estava por chegar. Ao virar o alto do Morro do Retiro do Tãozinho Godó, depois do Godó, em seguida do Zezé Godó, vi lá o Rio Preto transbordando, ou bufando, palavra comum do dicionário daquelas grotas. Neste momento, tive uma passageira tremedeira porque me lembrei de que a famosa Ponte do Rio Preto estava semidestruída. Digo semi porque a estrutura dela foi feita de ferro, aço, pedras e cimento, às custas do meu avô Godofredo. Ele até ficou “quebrado” porque não recebeu do Estado o pagamento pelo que fez como Conselheiro Municipal. E a estrutura serviu para apoiar a ponte construída em 1960/61 pelo governador Magalhães Pinto. A opção era o chamado vau.

Abro um parêntesis para explicar o que é vau, de acordo com o Aurélio: “É um trecho de um rio, lago ou mar com profundidade suficientemente rasa para poder passar a pé, a cavalo ou com um veículo.”
Mas, como disse, o Rio Preto bufava, ou estava a alguns metros acima de seu nível normal. E eu, meio tremendo e meio  corajoso, pensei comigo: não tenho alternativa. Voltar para aonde? Para Santo Antônio do Rio Abaixo, impossível, já fazia mais de 4 horas e meia que estava viajando às pelejas. Casas, evidentemente há, mas são poucas e eu não tinha liberdade com ninguém. Um senhor chamado Joaquim Godó, morava atrás, no retiro do meu pai, mas me sentia tímido para pedir pousada. Decidi: vou atravessar este mar! Nisso, um morador próximo, de nome João Hermógenes, chamado engraçadamente de João Imorge, viu aquele quadro, pegou o guarda-chuva e gritou: “Minino, nem pense em atravessar este rio! Está “bufando”. Volte para algum lugar.”

Que voltar que nada! Deitei-me na Mula Queimada e me agarrei ao seu pescoço como se fosse um índio de filme faroeste.  Direcionei a rédea para o local que imaginava mais livre de pedras, pois sabia que o risco seria o animal tropeçar e cair. Daí para a frente, bambeei o guidão e o barbicacho...O baixeiro, todo molhado de suor, começou a se encharcar de água suja de barro do Rio Preto, que corria em violenta correnteza. Eu no pescoço da mula só pensando em chegar do outro lado. Não medi o tempo, mas calculei horas, infinitas, eternas. Quando pensava que chegava do outro lado, a correnteza obrigava o animal a nadar, sem apoio para os pés. Mas, aos trancos e barrancos, chegamos ao outro lado.

Aliviado, molhado, tremendo de frio, toquei triunfantemente para a casa do meu avô, onde desarreei a Mula Queimada aos olhares de Serafim Sana de uma janela e Vó Maria de outra. Gritavam sem parar e me mandavam esperar a chuva passar. Não esperei porque a tempestade durava 5 horas de sequência ininterrupta, sem projeto para parar. Soltei a Queimada no pasto, guardei os arreios e apetrechos e zarpei a pé para a casa dos meus pais e minha também.

Conversa nenhuma, papo nenhum, pergunta nenhuma. Um chicote afiado me aguardava friamente: duas, três lambadas na poupança, outras nas pernas, alguns puchões de orelha, de castigo, ajoelhado na sala e mais umas duas horas de oferenda a Deus de um castigo por minha coragem intimorata de enfrentar o rio transbordante e, mais ainda, a falta de coragem de pedir pousada a um morador da estrada ou retornar para a Fazenda dos Bambús. Ao ser liberado do castigo, meu pai me perguntou: “Que tipo de arte você cometeu hoje?” E eu não respondi. Só tomei mais uns arranques, depois o banho, e fui dormir feliz da vida por não ter nem morrido e orgulhoso da história doida que vivi.

  

Dedico este texto à minha prima Afra Regina Sana, que duvidava ou duvida de que já fui cavaleiro; a Marcos Paulo Almeida Sá e Myriam Christina, esses dois últimos amigos de São Sebastião do Rio Preto.

sábado, 13 de junho de 2015

LEVIR CULPI É MAIS UM “ENTREGADOR DE CAMISAS?”

Diz com propriedade o meu amigo Renato Martinho Pereira, emérito comentarista esportivo da Rádio Pontal FM, cruzeirense da gema, que temos, no futebol profissional ou amador, entregadores de camisas ou, esporadicamente, técnicos de futebol. Quando Marcelo Oliveira, atleticano de carteirinha, dirigia o Cruzeiro, ele o chamava assim mesmo: entregador de camisas, embora tenha obtido um incontestável bicampeonato brasileiro para o time azul-celeste.

Ao ver os últimos jogos do Clube Atlético Mineiro, cheguei a uma conclusão parecida: que Levir Culpi é um mero entregador de camisas, mesmo tendo sido Campeão da Copa Brasil pelo time, que lhe paga mais de 500 mil reais por mês, segundo a mídia falada, escrita, televisada e da rede mundial de computadores. Qualquer pé-rapado de ambos os sexos, vê o que ele vem fazendo no Galo. De vez em quando dá certo e o time engrena. Na maioria das vezes dá uma extrema “levirzada”.

No jogo contra o Santos, que vi de cima para baixo, mesmo na cegueira de cadeiras superiores de 1/3 do campo da chamada Arena Independência, que o time alvinegro é o composto por alas e meias, além de um centroavante, com defesa compacta até o bico da pequena área, onde começa a grande cratera inimaginável no futebol medieval, antigo, moderno ou contemporâneo. E um principiante treinador rival pode sentir que é fácil encurralar o time do Galo, que tem apenas um volante, por sinal um gigante chamado Rafael Carioca.

Levir não vê e nem enxerga. Se é glaucoma ou catarata, não sei. Ou será bloqueio mental? E pode ser ainda “pirraçomania”. Sim, todo técnico de futebol precisa ter um curso completo com pós-graduação em Pirraça. Levir é PHD. E convencido. E esperto. Dono não só de seu nariz mas de todos os narizes de um estádio, Mineirão lotado. Termina um jogo, clamorosamente derrotado, como no sábado dia 6, pelo Cruzeiro, ele explica de forma completamente confusa a derrota. Refere-se a uma tal de bipolaridade brasileira que, a meu ver, nem merece comentários. Nada a ver com o buraco no meio e nem com o preparo físico decadente do time a esta altura do campeonato.

Todo mundo por aqui deve até achar um absurdo, mas entendo que um treinador de futebol pode ser qualquer um. Se a escolha de um recair num entregador de camisas, do modelo traçado por Renato Martinho, fica na mesma. Na minha vida esportiva, infelizmente, só conheci dois treinadores verdadeiros, que teriam o diploma assinado por mim: Elba de Pádua Lima, o Tim, da década de 1960, quando dirigiu o Fluminense, e João Saldanha, radialista, que formou a Seleção Brasileira de 1970, que ocupou o cargo por ironia do destino, visto que ele só era comentarista e botafoguense doente.


Como mais um candidato a entregador de camisas, eu diria que o time do Galo está fora totalmente do eixo futebolístico. No Independência, contra o Santos, visto por mim de cima para baixo, enxerguei a cratera ocupada pelos santistas em número de 3 atletas, ou mais, com os jogadores atleticanos espalhados nos cantos do gramado. Para meio entendedor, um escândalo. Nunca vencerá desse jeito. A menos que o burro sem sorte nosso tenha como adversário um jumento azarado. E vai ser difícil porque Levir perdeu a sorte e se vestiu de uma cangalha bizarra, por sinal.