sábado, 20 de fevereiro de 2016

CONTRA A DITADURA COMUNISTA: OU VAI OU RACHA! AGORA OU NUNCA!

De vez em quando sou surpreendido por um  conhecido ou até mesmo desconhecido no meio da rua. São muitos esses surpreendentes cidadãos, de todas as religiões e times de futebol, que exalam humor negro ou de A Vida é Bela. Alguns aparecem-me como assombração (daqueles de Machado de Assis ao descrever o horror da meia noite) com uma lista dos que morreram, outros dos nascidos. Uns declinam nomes de sobreviventes e outros de uma vida nova e cheia de luz. A maioria, contudo, traz uma resma de reclamações contra mim e contra tudo. Uma delas com a seguinte pergunta: “Por que você escreve pouco ou quase nada sobre política partidária municipal?” Olha, sei responder, mas fico mudo por uns tempos, a voz embargada dá tempo de meu interlocutor fugir no meio do povo na sua dura missão de atravessar uma rua que tem mais veículos que gente.

Como a mudez segue em frente e o cliente exasperado desaparece (hoje em dia ninguém quer ouvir ninguém, só falar), resolvo manifestar aqui a minha explicação. Primeiro, quero dizer que, ao me afastar da função jornalística desisti de fazer politicagem de boteco e esquina. De repente, entro na politicagem nacional por força de uma necessidade imperiosa. Ao farejar, ver, sentir e apalpar essa obrigação de engajamento ao sentido pátrio do termo, recordo-me que na ditadura militar brasileira fui um atacante de ponta-esquerda e ao mesmo tempo uma vítima. Não sofri repressões imediatas como se podia prever nos fatos que aconteciam e se repetiam, mas tive uma pena imputada e que até hoje me rende ação contra uma empresa.

Ao me lembrar dos fatos que começaram a se suceder em 1964, digo de mim para mim: 
que saudade tenho do Armando Bello! Prejuízo inestimável a sua partida prematura. Já disse isso, inclusive numa reunião do Rotary Clube de Itabira, que me agraciou com um troféu honrosamente emoldurado no nome dele. Armando combatia noite e dia o comunismo como se esse comunismo estivesse ali na primeira esquina. Fernando Silva e eu ríamos dele numa diversão que levava horas de debates.

Como, numa época anterior, o meu MDB era apenas contra o militarismo, não avaliei o que fosse uma simples ditadura. Um dia, porém, ele me convenceu. Foi tanto o convencimento que um ex-professor, catedrático, PHD, se exasperou comigo com a seguinte frase: “Retiro todas as notas máximas que lhe dei nos trabalhos acadêmicos, tanto em graduação quanto em pós-graduação, se você continuar escrevendo essas baboseiras sobre comunismo!”

Mais tarde, constrangido, se explicou: “Qualquer ameaça de comunismo no Brasil, os Estados Unidos intervêm, não permitem que ocorra aqui”. Mas discordei e cortamos relações políticas durante uns dois anos. O golpe de estado que está se armando contra o Brasil é sorrateiro, em conta-gotas e começou oficialmente com a edição do Foro de São Paulo, em 1990, documento assinado por Fidel Castro e Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, ou melhor, a partir do primeiro mandato de Lula, até mesmo os céticos já ouviram o ex-presidente explicar e detalhar os planos chamados de “Projeto do PT” que nos conduzem de olhos vendados ao fim do mundo. Logo em seguida, enfileiram atos lentos e gradativos no rumo da ditadura comunista, notadamente os mais incisivos assinados pela atual presidente, Dilma Rousseff, muitos doutrinados pelo dinossauro Franklin Martins. Não vou me alongar nesta tentativa de convencimento. Receito a leitura de um importante livro que ensina e alerta (CARVALHO, Olavo de (2013); O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. São Paulo: Editora Record, 615 p.).

O que me intriga de fato é a existência dos que ousam reclamar de mim, quando, a maioria, condena o chamado “golpe” por uns e “revolução” por outros, de 1964, e nem percebem uma conspiração silenciosa ocorrendo neste PPP (País da Piada Pronta, criação inteligente do José Simão) e  de estúpidos pseudoletrados, ou supostos intelectuais, rumo ao socialismo/comunismo (que são a mesma bizarrice), que degola a população, como estava sendo feito na Argentina e foi interrompido recentemente por Maurício Macri e em processo de extinção na Venezuela, pequeno-rico país que se tornou, em olhar incrédulo, uma pobre-coitada nação em que faltam até pastas de dentifrício e papel higiênico, para não dizer o essencial.

Amarga incoerência: ser contra a ditadura militar que não era comunista e a favor de uma  fabricante de lambedores de rapadura que são os povos conhecidos da América Latina, aos quais essa nossa futura ditadura ainda tem o descaro de enviar bilhões de dólares e de euros para cumprir os desígnios do maldito Foro de São Paulo.

O Brasil está à beira do comunismo, construído paulatinamente, às custas de uma paciência de Jó, com uma esperança da miséria total. As diferenças dos golpes são: de direita, na cara, imediato, como foi o de 1964; de esquerda, traidor, vagaroso, falsamente conduzido, como agora. Neste momento, indescritíveis escândalos de corrupção se escancaram às nossas vistas e bolsos, há uma pressa sendo imposta pelo petismo para acelerar a tomada do poder. E, então, a amada democracia escorre por água abaixo, queira ou não queira, não vê quem não quer. Mais desastrosa que corrupção, a falta dela abre caminhos para infinitos assaltos na calada dos decretos, MPs e até leis.


Se o que tento explicar do fundo do coração sincero não é entendido, vai o último apelo: basta a quem tem um mínimo de consciência e inteligência para ver a teoria e prática do que foi feito neste atual (des) governo e o que deu como resultado. Assim, está aí o meu desafio, a começar por Itabira, a que prometo me dedicar quando o pior for evitado: agora ou nunca contra as filosofias malogradas mundo afora. Nunca antes neste mundo nenhum regime da natureza dessas doutrinas criminosas deu certo. Nem Engels nem Marx, nem Lênin nem Stálin, nem Fidel nem Chávez! E não serão heróis os incapacitados Lula e Dilma!

A QUEM INTERESSAR POSSA




INTERROMPO AQUI A NOVELA DO INACREDITÁVEL...


AGUARDANDO MANIFESTAÇÃO DE INTERESSE.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

HISTÓRIA VERÍDICA DO INACREDITÁVEL

AMOR  A  TODO  VAPOR  E  DOR  A  TODO  CALOR
(Capítulo 7)
.Vocês estão ouvindo a Rádio Cata Prego, 95,7 FM e estamos no ar com o programa “Prego no Sapato e no Coração”. Bom dia, ouvintes! Hoje, 14 de setembro de 2009, segunda-feira. Que vocês tenham um excelente início de semana.
Esta a voz do locutor Nielsen José que, de segunda a sexta-feira, é líder de audiência no seu horário. O disc-jockey também é grande amigo de Karen que, quando pode, o ouve até esperando que decline o seu nome. Afinal, quem não gosta de ser lembrado? Sempre um abraço, como este agora:
— Alô, Karen Helena, pessoa feliz, menina ligada no programa. A você um abraço e muito grato por aumentar a nossa audiência.

Por perto, as colegas de Karen sorriem e uma ou outra resolve perguntar, admirada:
— Que felicidade é essa, hein Karen?
— Eu sempre sou feliz. Quando a felicidade não vem, eu vou atrás dela. — retrucou sorrindo a balconista da loja especializada em moda feminina. E o trabalho continua. Karen em pleno horário de trabalho e com alguns clientes sendo atendidos, outros aguardando atendimento.

Os comentários, mais frequentes às segundas-feiras, prosseguem entre fregueses da loja e vez por outra  na voz de Nielsen José, quase sempre se referem aos graves acidentes que ocorrem na BR-132, que requer duplicação. Algumas pessoas dizem que a obra foi iniciada. Mas, não, é apenas engambelo, “enrolo”, para diminuir a revolta do povo. Mais uma vez pessoas da cidade, muito conhecidas, perdem a vida ou são gravemente feridas na tenebrosa estrada que liga também os cata-preguistas à capital. Uma das clientes da loja, Maria do Rosário, traz nomes de pessoas e famílias que viveram dramas no último fim de semana.

A emissora também trata de problemas sentimentais, de coisas do coração.  Abraços e mais abraços de Fulana para Beltrano. “Maria oferece a José a melodia que vamos tocar agora e manda um recado: ‘venha me ver que estou com saudade’, e me faço de cupido” — floreia o jovem radialista muito ouvido na terra do sol quente sem mar, isto é, de Minas Gerais. Há comentários sobre textos nos sites locais e o horóscopo do dia paralisa várias pessoas para ouvir. É assim: desligam as máquinas de lavar roupa, as enceradeiras ou os liquidificadores que, por ventura estejam funcionando. A maioria, mulheres, diz que, ora não acredita nas previsões, ora comenta: “Meu Deus! Hoje deu certinho pra mim!”

A notícia mais esperada do dia não sairia divulgada no rádio, pois consistia  na concretizada transferência de Marcos Aurélio, de João Pessoa para Pinhais, ou seja, do Nordeste ao Sul do País.
— Ele está aqui bem pertinho de nós, Karen! Agora você pode vir vê-lo.
— Que nada, Nieta! Você me faz de boba. Estive olhando no “Google” e constatei que a distância ficou praticamente a mesma coisa. Então, estou feliz porque ele teve uma melhora salarial e ainda mudou de clima, se é que estava saturado do calor de sua terra.
— No detalhe clima, acredite, ele se assustou, mas isso passa. Aqui é um pouco frio para ele, que já adquiriu umas blusas. Que tal você dar a ele de presente um blusão de couro? — cutucou a amiga cupido.
— Boa ideia! Vou ver o preço aqui e você veja aí pra mim. Onde for mais barato e melhor nós compramos.
— OK.

E em breve, questão de duas horas e meia de intervalo, já estavam as duas com preços nas mãos.
— Achei um modelo aqui que custa caro demais, Nieta!
— Quanto?
—  Você não acredita: R$ 550,00, a que achei mais bonita.
—  Nossa! Aqui é muito mais barato, apenas R$ 425,00 e mercadoria excelente.
—  Então eu faço a transferência de depósito para você e você compra aí mesmo! Me mande a foto dela pelo Zap-Zap ou inbox. E também os dados de sua conta bancária.

Tudo foi feito e, em pouco tempo a transferência de valores estava realizada.

Agora o telefonema de agradecimento, tarde da noite, como sempre:
— Alô, querida Karen!
— Oi, Marquinhos!
— Que lindo!
—  O que lindo?
—  Você me chamar de Marquinho, ô xente!.
—  Uai, pode me chamar de Karinha.
—  Tá, Karinha! Que lindo o blusão de couro que me enviou!
—  Gostou?
—  Se gostei! Acabo de receber o seu presente. Nem era para me dar presente fora de época.  Meu aniversário é em maio, o Dia dos Namorados em junho...
—  É um presente de Natal adiantado.
—  Quero te ver lindo vestindo esse blusão!
—  Vou esperar você aqui.
— Combinado, Marquinhos! Vou aí, sim, estou combinando tudo com Nieta. Espero que ela cumpra comigo e iremos em fevereiro.Um beijo!
— Ela me disse. Vou ficar esperando. Mil beijos!

O namoro de Karen com Marcos Aurélio já caminhava para completar, em mês de fevereiro, um ano de profícua existência. Ambos mostravam-se felizes e havia uma expectativa muito forte para o tal encontro que planejavam. Apesar da expectativa, existia um controle feito até por Dona Querenina, mãe de Karen:
— Se eu fosse você esperaria um pouco mais de tempo para conhecer esse rapaz.
E Karen jamais discordava, pois via a mãe com todas as virtudes brilhantes e desejáveis. Contudo, Querenina não deixava de amenizar o seu palpite:
— Só quero que você seja feliz, desejo-lhe o melhor.
— Sempre concordei com a senhora, Mãe, mas conhecer o namorado é a primeira necessidade de um relacionamento amoroso, não acha?. Como vou continuar trocando mensagens com ele, já nos gostamos muito, mas sem nos encontrarmos?
— Não, filha, você está certa. Espero que faça o melhor! Isso foi o que disse.

A história continuava. O telefone, se não tocasse ao meio-dia e quarenta e cinco minutos, hora do almoço, chegavam mensagens via MSN. E na hora de dormir. Todo dia e toda noite, sem uma falta só, mesmo que ocorresse imprevisto chegaria imediatamente, justificativa, como: estava sem internet ou linha de celular; tive que me ausentar; precisei ir a um evento. As justificativas eram de ambas as partes. Ninguém falhava. Brigas? Não, nunca, pelo menos até essa altura do tempo. As fotos passaram a ser trocadas com mais frequência e foi por isso que, Karen conversava a respeito de uma imagem que mandou: ela estava ao lado de dois colegas de trabalho, dois rapazes. Comentou com a amiga Nancy, esposa de Nielsen:
— Ele fez um monte de perguntas sobre o Carlos e o Jerônimo, que trabalham na loja.
E Nancy:
— Já começou o ciúme! Tomara que não siga à frente.

Chegou o Natal e fizeram uma festa particular pelo telefone. Karen, que só bebe sucos, nem refrigerante aceita, fez um caprichado de laranja com adoçante, enquanto Marcos, do lado de lá da linha, abriu uma garrafa de vinho. Ele já está morando em Pinhais há duas semanas. O seu amigo Geraldo, namorado de Antonieta, preparou tudo e agora moram juntos num apartamento. Pagam aluguel, mas estão na expectativa de receber o apartamento do senhor Joaquim, pai de Marcos Aurélio. Ele está sendo pintado.

Também a família de Marcos já estava quase toda no Sul, mais precisamente em Curitiba: Seu Joaquim e Dona Francisca, mãe e pai dele. Coincidência ou não, os pais de Marcos já tinham imóveis no Sul, tanto em Curitiba quanto em Pinhais e também em Londrina. Um desses estava destinado ao Marcos e o amigo Geraldo. Mudariam mais tarde. Joaquim, aposentado, mas ainda empresário forte, vive de alugueis também, com imóveis em João Pessoa e em Recife, além de outros empreendimentos de loteamento e fábricas de “sei lá o que”, como diz Antonieta, que sempre completava:. “Um bem de vida ou bom da boca”, difundia, afirmando que Karen deu sorte até em entrar para uma família simples e rica. Seu Joaquim, autêntico cabeça chata da Paraíba, sempre desejou e conseguiu trabalhar no Sul por causa do clima e de um ambiente mais adequado econômica e financeiramente. Os outros filhos, irmãos de Marcos, dois rapazes e uma moça, ficaram na Paraíba por enquanto.

Os namoradinhos falavam em casamento. Sim. Assunto de todas as conversas. Em formar família. Apesar dos três filhos de Karen com Enéias, ela, com quase 35 anos, queria pelo menos um casal para completar a sua felicidade. Com encontro marcado para daqui a apenas um mês, Karen acabava de receber uma surpresa pelo Correios: a famosa “aliança de compromisso”, que gera uma expressão assim no Facebook: “em um relacionamento muito sério”. 

Além da aliança de prata, chegou uma foto de Marcos com Karen, que ela agradeceu surpresa, assim: “Meu gato, já estamos juntos! Que este sonho se realize!” Obra de um amigo de Marcos, foi feita uma montagem via photoshop e postada na página de ambos. E era nada mais, nada menos que os dois abraçados à beira de uma cachoeira. Paisagem indescritível ao fundo. Nunca tanta sede de amor desfilou pelas páginas internacionais do Facebook, se bem que trocadas apenas entre duas pessoas. Estamos ainda em janeiro e a expectativa do encontro deixava Karen de coração batendo mais forte. Quando abriu o seu Face, em Pinhais, já tarde da noite, o paraibano não se conteve  ao ler que era o gato e que estava junto da gatinha, se inspirou, em forma de agradecimento, por naquele momento, e postou a mensagem: 

“Te amo. Com todas as letras, palavras e pronúncias. Em todas as línguas e sotaques. Em todos os sentidos e jeitos. Com todas as circunstâncias e motivos. Simplesmente, te amo” — assinado: Marcos Aurélio. Nunca, em todo o quase um ano de namoro Karen se emocionou tanto. Chorou. As lágrimas faziam curvas no seu rosto arredondado como se não estivessem querendo cair. Ela não se conteve. Dona Querenina entrou no seu quarto e viu aqueles olhos vermelhos:
— O que é isso, minha filha? O que aconteceu?
— Nada, Mãe! É uma mensagem linda que recebi aqui. Depois mostro à senhora. Preciso aproveitar o momento de inspiração e ver se consigo dar resposta.

E a resposta não tardou: “Que não faltem bons sentimentos. Que nos falte egoísmo. Que nos sobre paciência. Que não nos falte esperança. Que cada caminho escolhido nos reserve boas surpresas. Que cada um de nós saiba ouvir cada conselho dado por uma pessoa mais velha. Que não nos falte vontade de sorrir. Que nenhum de nós se esqueça da força que possui. Que não falte fé e amor.” Assinado: Karen Helena. Depois disso, aliviada pelo susto de uma bater forte no peito, dormiu como um anjo faria, segundo dizeres das mais cândidas amigas.

Mas vem o imprevisível, nos últimos tempos rondando a vida de Karen. Foi o seguinte: Marcos não quis telefonar, alegou que estava muito ocupado com a nova mudança e encarregou a sua amiga Antonieta de resolver o assunto. Assim:

— Karinha, minha filha, tenho uma notícia para você. Nem o Marcos quis dá-la de primeira mão!
—  Meu Deus, o que aconteceu? Diga logo porque o meu  coração bate muito forte!
—  Acalme-se! É o seguinte...

E a ligação caiu. Demora de uns dez minutos e novamente o telefone toca:

— Alô!!! Essa porcaria de operadora de telefonia celular está me dando raiva — esbravejou Antonieta lá das terras de Pinhais.
— Me diga logo, antes que caia a ligação de novo, Nieta!
— É o seguinte: a empresa em que Marcos trabalha o convidou ou o promoveu a fazer um estágio em Portugal. Ele ainda não deu a resposta, mas quer que você se inteire do assunto e dê o seu palpite.
— Nossaaaaaaa! Que loucura! Estávamos pensando em uma ida aí em fevereiro, na data de comemoração de um ano de namoro. Não é possível!
—  Olha, Karinha querida, ele vai conversar com você. Pediu-me apenas para preparar a sua cabeça. Ele vai telefonar-lhe hoje mesmo, à noite, e expor a situação. Pelo que ele me disse, a resposta será sua. Marcos quer ouvir a sua opinião.
— Tudo bem. Vou aguardar. Quem sabe ele muda de ideia, né?
— Ou lhe mostra um planejamento mais interessante. Que tal vocês morarem em Portugal?
— Não sei não, viu? Tenho a minha família, a vida pra mim está mudando muito rapidamente, estou me assimilando, mas mudar de país agora não é meu desejo.

Despediram-se com Karen completamente muda, olhando para o teto, as pessoas fitam-na naquela hora de almoço também assustadas, cada uma com uma cor diferente. Wilton avança sobre ela:
— O que foi, Mãe?
— Nada! Vamos almoçar, querido!

Para aliviá-la — quem sabe! — entra em ação num parêntese, a famosa conselheira particular, a Onça Parda, lá da terrinha chamada Zumbeta e falar de amor. Mas logo uma onça? Ela, que aparece muito pouco, pelo menos é frequente nas ocasiões que ocorrem as emoções. E ela defende o amor incondicionalmente. Diz com euforia e autoridade: “Os brutos também amam”. E o intermediário desta descrição passional pergunta: “Dona Onça Parda, isso é nome de filme”. A resposta da selvagem: “Certo, correto, concordo. E se refere a um ser humano brutalizado. Como sou uma declarada feroz e selvagem, digo que entro no lugar do principal personagem, que é humano que se transforma”. Assim, a onça quer dizer que o amor existe entre os animais irracionais assim como os racionais, que se propõem a ser realmente humanos. Graças às palavras do segundo maior felídeo neotropical, menor apenas que a onça-pintada, pode ser esclarecido que amar por correspondência ou online também é amar. Depois de deixar a sua mensagem, a Onça Parda fecha o parêntese e se despede.

Chega a noite fatídica e Karen não tinha mais paciência de aguardar o chamado de Marcos. Mas, finalmente, lá pras dez da noite, a ligação ocorre:

— Alô, Karinha!
— Alô, Marquinhos! Não aguento mais esperar. O que está  acontecendo? Antonieta me massacrou com uma notícia que acaba com a nossa possibilidade de nos ver em fevereiro. Você não pode fazer isso comigo! Vem cá, pelo amor de Deus!
— Não, meu amor! Vou viajar para Portugal amanhã. É uma oportunidade que nunca mais terei na vida. Vou trabalhar numa empresa em sistema de treinamento e ao mesmo tempo de monitoria. Ou seja, vou ensinar e aprender. Nada está selado como definitivo sobre ficar lá ou não. Faço-lhe uma  promessa: já conversei por telefone com diretores da empresa e eles autorizaram a minha vinda em fevereiro ao Brasil. Então, desde já, adianto a você que o nosso encontro não está adiado. Palavra de honra que estarei aqui no país com você.

Foi um alívio para Karen que está cada vez mais apaixonada. Deixava transparecer, embora dissesse pouco. E aí estão as maravilhas acontecendo. Falta o quê? Logicamente, a promessa do encontro. Anteriormente, o dia 13 de fevereiro tinha sido marcado, agendado. Onde seria? Os detalhes iriam ser acertados mais na véspera. Agora o que interessava é que dois pombinhos seriam soltos em algum lugar de Belo Horizonte, ou Cata Prego, ou onde fosse, até mesmo no Jardim Zoológico.

Uma vida toda mudada. Karen nada queria mais na vida fazer, principalmente naqueles dias. Uma expectativa que não a deixava concentrar-se sequer no trabalho. Dia desses deu um troco errado para uma cliente na loja. Sorte que era amiga dela e também honesta. Seria um prejuízo para si própria, pois o caixa diário não fecharia. A menina tentava se concentrar, mas não conseguia.

Outra vez foi a uma lanchonete no centro da cidade e pediu um suco e uns salgadinhos. Depois um chocolate  — como ela ama essa guloseima! Ao sair, não pagou a despesa. Em compensação, esqueceu a bolsa numa cadeira. A movimentação de clientes na lanchonete ainda permitiu um milagre: uma garçonete pegou a bolsa e guardou. Junto dela estava a “comanda”. A bolsa foi aberta e lá estão, de cara, documentos de Karen. Em poucos minutos, ela recebe um telefonema. Era do local em que havia lanchado. Imediatamente, ela retorna e lá paga a despesa.
— Meu Deus, não sei o que está acontecendo comigo! — exclama com a balconista e a caixa.
— Fique tranquila, moça, você é de confiança! — essa a resposta que recebeu.

Conversas todos os dias. Desta vez internacionais. Falavam mais por mensagens escritas. Acertaram, finalmente: 13 de setembro, domingo, à tarde, Marcos chegaria ao Aeroporto Presidente Tancredo Neves, em Confins, região de Belo Horizonte. Só faltava confirmar a hora da chegada. Grande dia seria. Ela de aliança de compromisso e esperando que ele chegasse assim também. Haveria um abraço e um beijo cinematográficos. Karen já conhecia Confins de algumas viagens. Queria ir lá sozinha, mas Antonieta se adiantou e disse que iria com o seu namorado Geraldo Bonifácio.

Nas conversas entraram as belezas de Lisboa. O rapaz estava, parecia, também apaixonado pela terra de Camões e Fernando Pessoa. Lá ele conheceu grandes paisagens e se encantou com a educação do português. Não era um povo de que diziam absurdos como, por exemplo, piadas. E estava programando passear um dia com Karen nas cidades próximas, como Aparecida, de que ouvia falar belezas e mais belezas. Ele católico meio relapso e Karen mais dedicada um pouco, achava que gostariam de passar pelo menos algumas horas na cidade, distante cerca de 100 quilômetros. Ele descrevia as belezas de Portugal para a namorada, ao telefone. Aos poucos ela começava a gostar, também da cidade.

Contudo, vai chegando a hora do casal no Brasil. Hoje é 10 de fevereiro de 2010. O telefone toca e Karen se precipita para atender, atropelando cadeiras e mesas. A voz do lado de lá é de Antonieta, cujo zunido desaparece num segundo. Karen repõe o aparelho no gancho. Espera tocar novamente. Não toca. Resolve discar o número de Antonieta. Telefone ocupado, é o sinal que recebe. De novo no gancho, o telefone fixo da casa de Dona Querenina não toca mais. “Cadê o meu celular?” Wilton, seu filho, corre ao seu quarto onde ele toca também.  Atende-o e dispara escadaria abaixo para entregá-lo à mãe. Karen diz um alô quase afônico, já que aquele momento estava um tanto quanto tenso. Antonieta dá uma informação do lado de lá.

E Karen emudece. Esfria. O que aconteceu? Não acredita. Olha para cima e para os lados procurando constatar se era mesmo verdade a notícia que recebia. Nem um pio sai de sua boca. Respiração funda começa a chorar.

— Meu Deus! — só isso diz e parece desmaiar no sofá. Silêncio...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

HISTÓRIA VERÍDICA DO INACREDITÁVEL. (Capítulo 6)

O PASSO DIFÍCIL DA AMIZADE PARA O AMOR

Enéias chegou cedo à sua casa, viu e sentiu com um certo ressentimento, de vazio por dentro, que, agora, a separação estava consumada. Engraçada a questão, serve até para muitos exemplos aos casais que vivem procurando parâmetros em questões similares: enquanto o marido esperava reconciliação, a esposa Karen  simplesmente desejava ser reconquistada pelo próprio marido. Como nenhum dos dois tomou a iniciativa de uma conversa pacificadora ou romântica, deu nisso, ou seja, no nada feito. Quer dizer: nem sempre o silêncio é a solução para os quesitos de uma vida em paz, quanto menos a inércia.

Nessas horas, quem sabe, modestamente, um bom vinho tinto seco a dois, ingerido sob o silêncio da noite ou da madrugada, resolva. E, assim, ou seja, sem uma tomada de medidas inovadoras, passaram-se os dias sequentes para adaptação à nova vida da dupla que encerrava 17 anos de união. Karen volta para a casa da mãe e leva consigo  o “rapa de tacho” Wilton com pouco mais de sete anos àquela altura. Das meninas, Ana, a mais velha, fica com o pai e a do meio, Adília, parte para o Vale do Aço para estudar.

Enquanto isso, na Paraíba – eita João Pessoa boa! —  a vida queimava de calor e amor, saudade sem estrutura inicial, mas viva e forte, segundo palavras do já apaixonadíssimo Marcos Aurélio. Ele dispõe da presença de um amigo confidente, Geraldo Bonifácio, as notícias transmitidas à namorada Antonieta, e Karen, agitada e esperançosa de uma vida em paz na velha São José do Cata Prego. Tempos climáticos diferentes, quente no Nordeste, frio no Sul e temperado no Centro-Sul, mas o tempero de sentimentos se dava mesmo sob as rédeas de Maria Antonieta, só dela, dona de toda a situação, liderança inconteste.

Vamos colocar os pingos nos iis: Antonieta amava Bonifácio e este amigo de Marcos, que ama Karen, que não ama ninguém. Ou ainda espera por Enéias? Parece até aquele poema de Drummond...

“João amava Teresa 
que amava Raimundo
que amava Maria 
que amava Joaquim
que amava Lili
que não amava ninguém...”

Parece com a Quadrilha de Drummond,  mas não é. Virou apenas enfeite para o divertimento de muitos os que acompanham uma história de vida. Pois, então, muita gente quer saber o que vai dar esta história e não há pressa para seguir à frente. As pessoas são pacientes nas novelas de TV, mas por aqui preferem a brevidade. Tudo será narrado conforme o que se sucedeu, até com mais presteza. E, agora, há uma mudança bem acentuada ocorrendo na vida de algumas pessoas. Karen, por exemplo, está saindo do estado de expectativa de retorno à monotonia de uma vida de casada ou meio-casada, terminando a sua expectativa de ser reconquistada, estancando-se agora numa desilusão sem medidas. O que era intrigante neste caso até agora é que na vida de Karen e Enéias jamais um equívoco, uma discussão turvaram a felicidade conjugal. De repente, tudo vira de cabeça para baixo.

A desilusão era um vácuo coberto por uma amizade virtual bem adiantada, por sinal, com aquele “protegido” da cupido Antonieta. Realmente, Karen gostava de ser cortejada e o era por mensagens no MSN ou SMS e até Zap-Zap, Face ou ao telefone, por Marcos. Só que preferia que mantivesse aquela situação como amizade.

Pelas ruas da cidade, tortuosas e movimentadas, ela, Karen não ia além do que podia a sua simples imaginação. Com quase ninguém para conversar, reparava que todo mundo estava sempre ocupado ao celular. “Incrível, que mundo é este?”! Sentia a mudança nas relações pessoas com pessoas. Via amigos, amigas, conhecidos, desconhecidos, todos indisponíveis. É uma mania esquisita do momento, o mundo parece optar por contato online a um frente a frente, cara a cara, olho no olho. A maioria digitava, outra parte ouvia música. Nas caminhadas em alguma avenida, é comum encontrarem-se casais desligados, ou seja, cada um no seu fone de ouvido.

A vida, a que chamam de real, vai se transformando aos poucos em vida silenciosa. Reduzem-se os contatos interpessoais, poucos abraços e beijos. A tecnologia toma o lugar do sentimentalismo. Ela própria, na sua nova solidão, tentava se adaptar a esse novo mundo. E não era mais ninguém, a não ser as duas sagradas criaturas: Antonieta lá do Sul e Marcos, no Nordeste. Uma a empurrando ao amor que lhe era duvidoso e outro, terno e cada vez mais amável, confortando-a pela vida que considera sempre um desafio.

Ela própria entra em êxtase: “Não é desagradável ser esse relacionamento uma amizade pura”, comentava Karen com os mais próximos.  “Mas, por que, meu Deus, ele insiste em amor? Existe base para esse salto?” — Pensava consigo mesma ou às vezes com os  mais chegados. O que a intrigava era que, se ele não enviasse uma mensagem, não proferisse um alô, a tristeza e o vazio vinham logo, sentia que Marcos  está fazendo falta  com as suas palavras mansas e oportunas para cada momento. Mesmo porque não o conhece ainda pessoalmente. As reflexões valiam para conter o seu ardor de ávida por amigos. Tanto que ela teve esta conversa com Antonieta:

— Nieta, queria que o meu relacionamento com Marcos não passasse de amizade.
-— Também eu penso assim. Só que ele virou totalmente a cabeça e quer que seja um namoro sério e fiel.
— Impossível! Como vou namorar alguém que não conheço?
— Eu conheço e o abono pra você. É uma pessoa muito atraente, desejado por todas as meninas, sério e correto.
— Vou acreditar em você até que o veja, pegue em suas mãos e até possa ter ou não o desejo de beijá-lo. Enquanto isso não acontece, gostaria que ele me tratasse como amiga, ora, somos amigos! Fora disso não é mesmo razoável. 
— Olha, Karen, acho que você está certa. Vou ver se consigo fazê-lo entender e, assim, promovam um encontro físico, pessoal, tangível, total.
— Tudo bem. Um bom dia para você!
— Bye!

E assim aconteceu. Imediatamente, o panorama ficou mudado. De repente, Karen sentiu, pelos novos contatos, por escrito ou por fala, com Marcos, a sua mudança inesperada. Ela  estranhou a aceitação imediata ao novo sistema adotado por ele e e até quis perguntar o motivo. Ora, pensou consigo mesma, nem dava tempo para que Antonieta falasse com ele.Inteligente e cautelosa, calou-se. Na voz como sempre arranhada do amigo Marcos, percebeu que ele tinha sido advertido e, imediatamente, tomado a sua decisão. Até que houve uma conversa entre os dois assim:

— Marcos, você é mesmo meu amigo?
— Claro, isso está muito claro. Você tem dúvida?
— Olha, estou sentindo falta de umas palavras que me dizia e não diz mais... como, por exemplo, que quer me ver, que quer me dar um abraço, que gosta de mim.
— Acho que não preciso mais dizer isso a você, Karen. Quero que se sinta à vontade.
— O que você pensa de minha situação, de meu fim de relacionamento com o Enéias?
— Não faço nenhum juízo. Nenhum... Acho que você é madura para resolver tal questão com maestria. Você quer voltar pra ele?
—Queria, mas não quero mais. Não quero porque lhe dei a oportunidade da reconquista e ele não a aproveitou. E acho que agora está bem feliz com a sua antiga namorada.
— Se você tem a certeza de que ele tem outra namorada, acho que deve esquecê-lo imediatamente...
— Era isso o que queria ouvir de meu amigo.Obrigada.

E, então, ia o amor sendo colocado de lado, de molho, no banco de reservas. Ou como diz sempre Nielsen no seu programa de rádio, “os sentimentos sendo cozinhados como um galo duro”. Logo ele que é cruzeirense, torce pelo time azul, mesmo sendo comentarista de futebol, que respeita o rival Atlético como time forte e duro. E “vingador”, como está escrito no hino alvinegro. Mas, para a sua esposa, Nancy, é sempre assim, os casos se repetem. Sem nenhuma maldade, o locutor comenta em programa que tem sido cada fez mais frequente os namoros virtuais que acabam se tornando reais. E contou um caso interessante sobre um casal que se casou online sem se conhecer pessoalmente.

Todos, afinal, torcem para que haja um desfecho feliz naquele imbróglio romântico em que se transformara a vida daquelas pessoas, todas amigas, principalmente o casal Enéias-Karen, de sua família inteira e até mesmo Antonieta, que fora funcionária de seu empreendimento comercial, um restaurante feito com  amor de iguarias deliciosas. As sugestões do locutor, diariamente sobre o prato do almoço era um momento bem quente de seu horário. Muita gente se embriagava de fome pelas sugestões. Esse é o poder do rádio!

Aqui entra, num rápido parêntese, não apenas um intruso, mas acabam sendo duas oportunas criaturas metidas a sábias. Ele, o Gambá da Rua de Baixo e o Sapo da Ponte. E olhem que ficou na espreita a Onça Parda, decidida a dar um palpite também. Os dois curiosos, lá de outras paragens, da cidade vizinha de  Zumbeta,  pequenina e por isso chamada de Pílulas de Vida do Doutor Ross, isto é, que resolvem, começam a discutir entre si sobre o tema do momento, um papo cabeça entre bichos. Pode?

— Você acha, senhor Sapo, que é correto transformar amizade em namoro?
— Ora, isso já foi discutido, considero que entre os dois sexos é impossível. A amizade já é namoro.
— Então, por que chega com essa cara de reprovação?
— Você entendeu mal, seu Gambá bicudo! Sou contra transformar uma amizade virtual em amor virtual...
— Mas que tipo de amor você, Sapo, enxerga entre Marcos e Karen, se ambos estão a uma distância de mais de 2 mil quilômetros?
— Qualquer atitude de ambos é precipitação, amigo Gambá. Acho primordial que se conheçam pessoalmente. É preciso captar gestos, palavras, atitudes, sondar simpatia, empatia, tudo para se ver que há realmente sentido a continuidade dessa história.
— A empatia é fator primordial. Ela resolve tudo, meu caro Sapo. E chega de o senhor continuar coachando a noite toda, perdendo tempo em dizer a verdade. . 
— Então, vamos aguardar, seu fedorento! – finalizou a conversa o senhor Sapo da Ponte. E a Onça Parda, que funcionou espontaneamente como mediadora, pediu que fosse fechado o parêntese.

Tá certo!. Queira ou não queira o mundo ao redor, eis que a palavra amizade não comporta  mais neste presente caso, porque, de repente, ambos perceberam que não era mais possível um viver sem o outro, mesmo que fosse isto mesmo, online, a dois mil quilômetros de distância. 

E ocorria uma tentativa até certo ponto interessante: Geraldo tentava convencer Marcos a mudar de cidade. Estava  Geraldo prestes a conseguir uma transferência empresa ou mudança de emprego, seu objetivo agora seria levar consigo o amigo. Segundo Antonieta, que o instigava sempre, esse se tornou o objetivo, ou seja, praticamente o próximo passo da vida desse grupo dentro do qual um ama o outro. Nos seus encontros no centro da cidade, os amigos trabalhavam a ideia. Geraldo arrastou Marcos para um cafezinho, e aí foi demorando até cair a noite e começarem a pedir cerveja mais cerveja. Durante a conversa, regada a bebida preferida dos dois, havia uma condição: trabalhar noutra cidade, no Sul, comportaria mudar-se completamente. Marcos Aurélio tem pai e mãe, além de duas irmãs e teria que encaixar todos noutra cidade bem longe.. Mesmo que  a família tenha boa condição financeira, então, bastava para uma mudança de região, já que o pai de Marcos tinha de há muito empreendimentos pequenos em Curitiba.

— É muito trabalhoso, Geraldo, convencer meu pai e minha mãe a se mudarem para o Sul — asseverou Marcos Aurélio — mesmo com imóveis lá.
— Vamos combinar — concluiu o amigo — você toca no assunto com ele e o resto deixe por minha conta.

Despediram-se e em poucos dias, Seu Joaquim e Dona Francisca resolveram comprar uma casa na praia, perto de Curitiba, além de um apartamento no centro da bela cidade sulina. Mas ainda não arredaram pé de João Pessoa. Seria, no caso, como disse o pai de Marcos, investimentos. Mas o mecânico-metalúrgico Marcos esperava contato do amigo Geraldo Bonifácio para se desligar de sua empresa. Faltava um novo emprego para Marcos, o que também era questão de tempo, devido à sua competência, esse é o pensamento de todos. 

Por isso não durou muito e a sua saída de João Pessoa foi sentida demais pelos diretores com os quais ele trabalhava, mas, como dizem os experientes: as oportunidades não aparecem todos os dias e agora seria uma nova vida, numa região mais próspera. E estava, então, contratado o rapaz, ou melhor, os dois amigos numa mesma empresa, a Foster Co., multinacional metal-mecânica paranaense.

Movida pelos acontecimentos, sentindo apenas que essa mudança poderia ter sido melhor para os dois, ou seja, que Marcos viesse para São José do Cata Prego, Karen sentiu, geograficamente falando, que o “amigo” era uma bênção de Deus, pensou logo que ir ao Sul ver essa pessoa fosse infinitamente mais fácil. Na vontade de ir, no desejo que parecia ser de ambos, o ânimo tornou-se patente. E se misturaram desejos de encontro com a real situação do momento. Afinal, Karen e Marcos, que continuavam trocando mensagens, eram o quê? Amigos, namorados, desconhecidos especiais?

Depois da trégua que deram para conter o namoro, voltaram a parecer  espontaneamente, nas mensagens diárias o tratamento  “querida” “querido”, “meu bem” e até “meu amor”. Então, Karen, livre e desimpedida resolveu permitir ou deixar acontecer, como mandam as regras desse sentimento que, segundo os poetas, chega sem que se perceba, embora, um dia desapareça também, deixando ou não vestígios ou marcas. 

No caso de Karen e Marcos estava definitivamente feita a ponte da amizade para o amor. E nem se cogitava mais ouvir a expressão virtual. Era tudo real e fim.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Mesmo virtualmente, está iniciado um namoro

(Capítulo 5)

Introspectiva desde os seus primeiros passos aqui no Planeta Terra, Karen Helena tornou-se outra pessoa, completamente ao contrário. O que tinha mudado para refletir tanto na sua personalidade ? Ninguém sabe, nem ela, sequer as pessoas mais íntimas, pelo menos por enquanto. O que ela estaria fazendo de novo? Absolutamente nada exteriormente. No fundo, contudo, ela sentia, sem explicar e sem se explicar, que ocorriam mudanças extraordinárias em sua caminhada de ser vivente Ela estava ainda morando na sua casa própria, com os filhos e o marido, só que separada fisicamente deste, como se sabe Na sua troca de palavras com Enéias estava tudo normal, até as anedotas que surgiam vez por outra eram compartilhadas entre eles. Afinal, ambos sempre se entenderam como amigos, fora do amor.

Mas o que é o amor, afinal? Esse troço, como dizem lá pros brejos abaixo, não seria somente algo prazeroso, cheio de motivações e cultivador de emoções? Inexplicável! Às vezes o casal vive as mesmas aventuras como de Enéias e Karen durante 17 anos e muito bem. De repente, algo se rompe, uma torneira vaza e o cano começa a deteriorizar-se. Antônio Mesquita, sempre presente nas discussões sobre o assunto, amigo da família, comentou numa roda de amigos: “O casamento durou 17 anos? Puxa! Deu certo demais e foi um milagre!” Em seguida, completa: “De minha parte, considero esse tal de matrimônio uma instituição fracassada!” E desfia uma série de exemplos com casos verídicos na ponta da língua, citando o milagre e o santo: “Sem a preocupação do casamento, a união dá muito mais certo!” — arremata.

Karen decidiu, naquela tarde de um dia ensolarado de janeiro de 2009, ir conversar com a sua genitora, que mora em bairro não tão distante, mas na outra ponta da cidade:
—  Pronto, cheguei, a bênção, mãe1
—  Deus te abençoe, minha filha, mas o que traz você aqui agora?
—  Novidade, né? Mas aproveitei que nesse horário estava sem nada para fazer e sabia que a senhora permanecia em casa, então, vim conversar um pouco sobre um assunto um tanto quanto delicado.
—  Ihhhhhhhhhhhh!!! Espero que seja coisa boa e não desagradável!

Karen Helena estava disposta a resolver o seu delicado problema agora e, então, foi diretamente ao assunto:
— Mãe, estou me separando do Enéias! — e deu uma parada como se a separação fosse aqueles segundos de acontecer e voltar ao normal, numa respiração do ar impuro que a cidade emite e distribui para os seus moradores, de graça, esperando toda a reação da calma Dona Querenina. Fitou-a nos olhos, esperou mais um pouco, até que a querida mãe retrucasse:
— Assim, de repente, parecendo sem motivo sério? Por que nunca abordou esse assunto comigo? Ou melhor, fiquei sabendo, pelas suas meninas, que vocês estavam dormindo em quartos separados, mas Aninha me disse, sim, acho que foi ela — ou foi a Adília? — Não, foi Aninha mesmo, que me explicou tudo direitinho, isto é, que tudo aconteceu por causa de divergências sobre os malditos pernilongos. Acabamos rindo bastante e comentei com elas assim: meninas, já pensou se seus pais se separam e jogam a culpa do divórcio nos pernilongos? (rsrsrsrsrs)...
— Aquilo foi uma desculpa que ele e eu arrumamos para justificar um fato que aconteceu e que dele não pretendíamos fazer alarde.

— Agora me conte, minha filha, o que, de verdade, ocorreu? Foi chifre que saiu por aí? (rsrsrsrsrsrs)...
— Mais ou menos, mãe, não vamos conversar isto agora, em respeito a ele que optou por não discutir. Sei que houve um caso dele, mas não me magoei. Olha, acho até que posso entrar com as minhas culpas como revide, embora não tenha sido, mas jamais tive tal intenção.

A conversa, depois de uma parada quando o telefone fixo da casa tocou, foi prosseguida por Querenina 15 minutos depois:

— Olha, você que sabe o que está fazendo. Tudo o que quero para os meus filhos e netos é a felicidade. Você sabe que detesto dar palpites em casos assim de relacionamento familiar, sempre fui assim, principalmente com a minha família.

— Sim, mas eu, como filha e ainda assim única — Dona Querenina tem apenas Karen como mulher e mais dois rapazes — não poderia deixar de vir conversar com a senhora. Ainda mais que não tenho outro lugar para morar senão a sua casa!

Por aí o diálogo se encerrou. Querenina foi cuidar da casa e a filha retornou à casa que deixaria no dia seguinte.

Faltou um assunto que Karen omitiu à sua mãe. Será que estava prestes a iniciar um inédito namoro que, por ser virtual, quis esperar  acontecer inicialmente? Propostas e mais propostas de Marcos Aurélio, ainda morando em João Pessoa. choviam. Ela, na sua filosofia do pé no chão, segurança total, ainda preferia ficar assim sem aceitar. Mas era verdade que aquelas palavras convidativas a um encontro, as animadoras esperanças que chegavam, tanto escritas quanto faladas, lhe davam estímulo quase cem por cento para garantir que a sua vida estava prestes a mudar.

A voz “arranhada”, que ela própria assim apelidou, mas que parecia um sussurro de carinho no ouvido ansioso por ser adulado como uma preparação para o romance, estava dominando plenamente a sua queda pelo rapaz de 28 anos, seis anos mais nova que ela, que lhe prometia amor para sempre, amor eterno, como dizia o incorrigível e talentoso Nelson Rodrigues: “O amor é eterno ou não era amor”.

O janeiro foi todo assim, de sussurros quase ininterruptos, predominando a voz arranhada, que acabou sendo uma novidade. Essa novidade tinha que acontecer rápido, ou seja, Karen queria ficar frente a frente com aquele que, aos poucos, tornava-se seu amor. Sem uma palavra a alguém sobre o amor que se iniciava, olha que interessante: a sua amiga Antonieta, aquela que se tornou uma promissora cupido em sua vida, real responsável pelo início deste romance, passou a ser indispensável.

Aí entra o Sapo da Ponte, atrevido como sempre, mas desejoso de prestar algum esclarecimento. A sua intromissão se deve ao caso de Karen ter andado pensando noite e dia, dia e noite, em não exceder de amizade. Mas o Sapo não concorda. E apurou o seguinte: "Entre um homem e uma mulher não é possível haver amizade. É possível haver paixão, hostilidade, veneração, amor, mas amizade, não."  A frase, o Sapo da Ponte, com exclusividade buscou do notável escritor irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900), parece datada, mas não podia estar mais em sintonia com as atuais discussões sobre as relações entre os sexos. Assistido por mais de seis milhões de pessoas, um vídeo amador se tornou viral nos Estados Unidos e no Canadá justamente por explicitar a diferença de opiniões entre homens e mulheres no que tange às amizades entre homem e mulher.

Nele, um estudante universitário pergunta a suas colegas de faculdade se elas acreditam ser possível existir amizade entre um homem e uma mulher. A resposta? “Sim, claro”, dizem todas. Já quando ele dirige a mesma questão a seus colegas homens, ouve de todos que “hummm... não!”

O tema, abordado de forma lúdica no vídeo, ganhou roupagem científica em três recentes pesquisas que buscam entender melhor as implicações das amizades entre pessoas de sexos opostos. Numa delas, os estudiosos definiram os quatro tipos mais comuns de relações entre eles e elas. Em outro estudo, pesquisadores concluíram que existe ao menos um pequeno nível de atração na maioria das amizades entre os dois sexos , o que não é necessariamente ruim, já que a terceira pesquisa aponta que o sexo, para surpresa (e alegria) de muitos, pode fortalecer os laços entre os amigos. Aqui o Sapo volta para a Ponte e dá como concluída a sua “ajuda”.

Mas, afinal, Karen estava liberada pelo compromisso desfeito e pôde deixar que as rédeas de seu coração seguissem soltas ou às soltas. Agora é com ela mesma, que pensa, imagina, faz profundas reflexões sobre o amor. E chega à sua própria conclusão: “Amor é momento, instante, passagem, para não dizer balela”. Para o Mesquita, que é tão sabido quanto o Sapo da Ponte, o que atrapalha o casamento é o compromisso, a obrigação, as leis artificiais e as exigências. Para ele, que mandou na época o recado a Karen: “Se for mudar de amor não se case porque o casamento torna o homem e a mulher plenamente donos um do outro; sem casamento as pessoas lutam para a cada dia conquistar o seu par e aí a união se torna longa”.

O Gambá da Rua de Baixo, de outras histórias quase silenciosas, aproxima-se quando o Mesquita diz alguma coisa. Na verdade, o Gambá fala baixinho, sem ênfase, e apenas meigo, quase inaudível. Ele não é burro, entende que não precisa de voz rompante para convencer alguém sobre determinado assunto. Para ele, basta o seu cheiro horroroso, característico do dele próprio, também chamado de Opossum, ou Ticaca, que tem um discurso próprio sobre o ciúme: “Estado emocional complexo que envolve um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de que se pretende o amor exclusivo”. Pela definição é dado o sinal da presença do egoísmo, totalmente fora do contexto humano, apesar de ser uma característica forte do home atual.

A partir de um princípio de namoro — Karen pensava que só virtualmente não seria válido um relacionamento — a menina, prestes a divorciar-se do primeiro e único casamento, quis falar mais com a sua amiga Antonieta. Se ela se interessou tanto, se foi uma cupido bem aplicada, teria que ir prestando mais informações a respeito de seu amigo Marcos Aurélio. E assim, passaram a conversar, ora por telefone, ora pelo MSN praticamente toda noite. A pergunta de Karen a Antonieta a embaraçou por alguns instantes:

— Já senti que Marcos é um homem inteligente nas paqueras, falando mais claramente, afinal, ele é ou não é um galanteador profissional?

Antonieta ficou meio entre a porta e a parede, mas deu a sua resposta:

—  Calma, minha filha, já lhe falei que ele vive do trabalho, da casa para a companhia que o admitiu e vice-versa. Desde quando se formou em técnico metalúrgico a sua vida é uma grande monotonia. Nem pense que ele é igual aos outros homens, o conheço há muitos anos.

Na conversa, Maria Antonieta sugere a Karen que se torne amiga mais íntima de seu namorado, o Geraldo Bonifácio, colega de trabalho do Marcos Aurélio. E veio aquela corriqueira pergunta:

— Você não tem ciúmes dele não?
E a resposta em cima da pinta:

— Juro que sou meio ciumenta, ou toda ciumenta, mas garanto a você que de você não tenho nem um fio de linha! E você perguntou se Marcos é galanteador, vou lhe dizer que o meu namorado era um grande “chavequeiro”, mas o consertei para sempre. Assim que nós, mulheres, devemos fazer com esses galãs safados que, se deixar, acabam se dando bem com as suas conquistas e nos deixando a ver navios.

Assim as duas amigas encerram a conversa e saem para as últimas façanhas do dia, antes do sono reparador. Obsessiva, Karen Helena não para de pensar: “Estou gostando mesmo desse cara, mas eu quero me encontrar com ele, quero, quero, quero”. E guarda uma frase que, certa vez, alguém lhe disse: “Na internet só tem enrolo, mentira, tapeação, tudo feito por pessoas desocupadas e inescrupulosas. Nunca, jamais, serei vítima disso!”


E olhando para a foto do namorado virtual, que colou na parede de seu quarto, fechou os olhos e dormiu...

sábado, 9 de janeiro de 2016

HISTÓRICA VERÍDICA DO INACREDITÁVEL

A amizade aproxima-se de seu objetivo. E a vida continua
(Capítulo 4)

E estamos em setembro de 2008 numa casa da Rua das Flores, cidade de Cata-Prego, Estado de Minas Gerais, Brasil, América do Sul, Mundo. Karen Helena, com coragem e tudo, parte para a frente do espelho e se olha assustada. “Nossaaaa... preciso de um recauchutagem urgente!” — clamou de si para si a situação de seu semblante,. como se fosse um pneu desgastado. Os olhos fundos e profundos, escuros, olheiras quase roxas como se tivesse levado uns incríveis bofetadas. As sobrancelhas requerem  trato especial de algum profissional qualificado. A face clara paira  um pouco inchada como uma manga rosa exposta na fruteira da copa. Não se acha bonita nem antes nem agora ao sair da cama. Ou melhor, na sua perene humildade, requer as coisas lindas somente para outras pessoas. Sinal  insofismável de virtudes que trouxe do berço, da mãe, um pouco do pai saudoso. Veio  a conclusão imediata: “Preciso me cuidar!” Ou ir ao borracheiro?
                                                     
Correu direto ao smarthphone e o encontra cheio de mensagens. No Facebook  havia uma foto sua com a família: filho, filhas e a mãe amada, adorada, os filhos venerados. Faltou o marido, repórter de “Diário de Cata-Prego”. As opiniões dos amigos em comentários nunca variavam: “Lindos, lindos, lindos!”. Olhou uma  foto sua feita no trabalho, melhor dizendo, numa feira realizada na cidade. Ela como recepcionista, depois expositora, a seguir vendedora, a profissão nata. Clicou em fotos e os inarredáveis comentários: “Linda, linda, linda”. E voltou a pensar: “Se eu fizer um sélfie ou selfie (inglês)  e postar, com essa feiúra  toda, juro que vão comentar mesmo assim: ‘Linda, linda, linda’. Então, devo ouvir a minha opinião somente  e digo a mim mesma que estou horrível, horrível, horrorosa. Vou ligar pro salão de beleza e pronto, devo cuidar de mim”. Papo final, horário marcado para a tarde. Era um sábado desses sem agitação, nem casamentos, nem aniversários.

Por conta do nada ter o que fazer, vai ao computador. Abre o No Facebook. Lá está o “amigo” Marcos Aurélio com mensagens e suplicando atenção: “Bom dia, querida amiga!” — o anúncio de sua presença às 9:15. A seguir outra mensagem: “Quero mais uma foto sua. Me envia? Anexo uma minha para vc espantar baratas”. Que diabo, pensou Karen,. ele já tem a minha foto. Mas isso é bom. Sinal de haver insistência em ser amigo porque viu a minha cara de há muito. Com certeza, gostou dela. Karen Helena ainda não respondeu. Esperou. e leu “Escrevendo” — informa a tecnologia do MSN, ou melhor, havia pulado para o WhatsApp.  Adiante: “Outro sélfie para você!”. E Karen repara bem a imagem: “Não parece bonito de morrer, não é um galã de cinema de Hollywood nem um ser bronzeado como um artista havaiano. Isso me convence de uma coisa: ele não é trapaceiro”. As fotos eram normais, ou seja, ele nem muito lindo, mas razoavelmente bonito. Avaliou o rapaz: alto, moreno, sem cabeça chata como os nordestinos, tudo bem. Mas o que importa são as palavras, afinal, eram apenas amigos e assim queria continuar sempre, desfrutando de sua cultura.

Deu as suas respostas. Desta vez mais branda, bem amena e diferente do contato passado.  Respeitosa, amiga, interessada numa amizade nordestina. Ter amigos nesses lugares é bom. Quem sabe, um dia, uma temporada de descanso? O Nordeste é, hoje, uma região muito requisitada pelo resto do Brasil. Acabou-se aquele tempo de ter pena do povo por causa da seca, de esperar que o governo implemente aqueles planos especiais de ajuda ao agricultor, ou ao fazendeiro. Nada como do tempo de Vidas Secas, drama inconteste de Graciliano Ramos. Então, dedilharam muito, muito, muito. Marcos Aurélio cada vez mais interessante, ela avaliava. Escreve bem, pensou. Expressa sentimentos com a autoridade de quem os sente. Faz  expressões vivas tornarem-se uma espécie de sussurros. Como? Vou ver se dá para explicar: parece que ela está perto dele, sentindo seu hálito, vendo seus gestos, algo assim notável e de gosto apurado. Ele conta casos de sua amizade com Antonieta, com 22 anos, seis anos mais nova. “Nossa! Graças a Deus, não haverá nada mais que amizade entre nós porque tenho 34 e não vou mesmo namorar um verdadeiro menino para mim. Já tenho uma filha de 13, outra de 11 e um menino de 7. Posso me soltar mais porque você se  parece um amigo muito leal!” — escreveu a ele de supetão, quase sem pensar. Arrependeu-se mas não dava tempo mais de apagar. Deixa pra lá, pensou..

“Idade não interessa!” — Exclama o paraibano vendo escorrer por entre as teclas do computador a sua esperança, pois o que deseja, de verdade é conquistar aquela mineira muito bem recomendada pela amiga Nieta, moradora de São José dos Pinhais. Nessa conversa via  Zap-Zap que se passou houve várias tentativas de um papo por telefone, uma conversa mais natural. Ambos tentaram discar, mas nada concretizado. Ficou a promessa de se falarem pelo som e,  no bate-papo, clareou-se mais o desejo de Karen de trocar palavras vivas, normais. Nada de relevante, pensou Karen, porque foi muito bom saber que ele se expressa bem e é bom trocar palavras com quem respeita o nosso achincalhado idioma.  Então, na verdade, há, neste dia de contato, muita vibração positiva, aquilo que Karen sempre ouve nas palestras ou nos livros de autoajuda, muito comum, a mesma linguagem dos especialistas no tema.

E em casa? Como estava o ambiente familiar? Uma pequena mudança que os filhos notaram, é claro, mas parecia algo assim com um único culpado: os pernilongos. O quê? — alguém se assustaria. Que diabo de pernilongos são esses? O seguinte: Karen e Enéias tiveram uma pequena discussão. Voz baixa. Nada de gritos de ciúme por parte da mulher, apenas um princípio forte de amor próprio. É o que ocorre com as  pessoas hoje  em dia: “O único problema do casamento é a falta de confiança” — já escrevia em sua coluna  do jornal Estado de  Minas, em 1952, a conselheira e guia sentimental Ivone Borges Botelho. A afirmativa continuou valendo como se fosse uma lei para os anos seguintes.

E nisso aparece o intruso, mas quem sabe providencial, o Sapo da  Ponte para fazer abrir um novo parêntese como no capítulo anterior. Ele chega com os seus ensinamentos. Diz que o mais importante de toda a história do casamento é a mudança de comportamento, sentimento, entendimento. Vem  dizendo que no tempo do onça os homens nunca tinham contato com  a  namorada senão por recados, às vezes rápidos  encontros na rua, ou um aceno de mão. Se gostava da menina, chamava um cupido para conversar com ela ou escrevia aos pais dela. Para pedir  casamento, mesmo sem contato algum um com a outra, escrevia uma carta, ou incumbia alguém de fazer por ele. A resposta do pai da moça quase sempre vinha, no caso de positiva, marcando já a data do casório. Se fosse negativa, havia o respeito total e cancelavam-se os sonhos. Não havia naqueles tempos o esquentar de impetuosas paixões.

O Sapo esclarece que quando e enquanto havia namoro, perdurava também o mesmo comportamento de antes, nem um toque nas mãos, não havia esse “desrespeito”. O bicho, coaxando bem alto, explicava o seguinte: “O pai da moça queria saber que o pretendente da sua  filha era, fisicamente, um homem normal. Ou seja, se tinha o costume de ‘trocar o  óleo’ em alguma casa de tolerância”. Em outras palavras, a família da moça queria ter sempre a certeza de que o namorado ou noivo jamais ficaria com o seu par antes do casamento. “Sexo antes de se casar é não somente pecado, como também um risco porque, tratando-se de uma desvirginada ela ficaria marcada para sempre”, concluiu o Sapo que explica, ainda a necessidade de se saber o estado financeiro do futuro namorado. Aí o bichinho pula fora e fecha este parêntese.

Voltamos à casa de Karen, onde o ambiente não pesou em nada. Apenas o casal acertou que ela dormiria em outro quarto por causa dos pernilongos. Parecia  brincadeira, mas a explicação é a seguinte: ele, Enéias, queria sempre dormir com a janela aberta. Ela, Karen não aceitava, porque esses “Culex Pepeans Fatigans” (nove científico do extrator de sangue) preferem a mulher. A explicação da separação de corpos aos filhos se deu assim, exatamente para que ninguém se envolva. De si para si, Karen explicou-se que precisava dar um tempo ou uma oportunidade para o marido. Chegou a confidenciar a uma de suas amigas de trabalho, Elenice, que queria ser reconquistada pelo Enéias.

Aí segue a vida. De longe, Marcos se julgava já apaixonado, interessado, louco para ir à frente com Karen. Assim, ocorreu um longo bate-papo já no mês de dezembro do mesmo ano, 2008. Falaram-se muitas vezes por telefone. Quando um não encontrava o outro, deixavam mensagens nas redes particulares. Mas o normal passou a ser o falatório que aumentava — e muito mesmo — as contas telefônicas. Contudo, surgiu um pouco mais tarde o telefone via WhatsApp, totalmente gratuito, as trocas de afagos aconteciam ao vivo e quase a cores. Inacreditável era a percepção de Karen. Pensava ela que a voz do amigo fosse algo assim entrecheada de arranhos, um pouco fanhosa. Será o sotaque do Nordeste? Ou é uma alteração feita pela distância, pois estavam a mais de 2.800 quilômetros de separação física.

À amizade ela já havia se entregado inteiramente. Considerava Marcos Aurélio um verdadeiro guru, talvez um psicólogo de graça. Todas as suas questões mundanas contava para ele, ou por escrito pelo WhatsApp ou MSN ou num telefonema. Eram problemas do seu casamento que se desmoronava aos poucos, dos filhos que os sentia diferentes ou no relacionamento com os demais familiares e até amigos. Certo dia, Karen gritou ao telefone umas expressões fantásticas de elogios ao amigo. Disse que estava se sentindo cada vez mais segura quando conversava com ele, agradeceu-o penhoradamente

Chegou  a época do Natal e do Ano-Novo e aconteceu um fato interessante: Karen quis comprar um presente para o seu amigo. Resolveu, então, ligar para a amiga Antonieta, como sempre a cupido dessa amizade que se empenhava em tornar-se namoro ou amor. E a ligação:
— O que você acha de eu lhe dar um presente, Nieta?
— Espetacular! Boa ideia, minha amiga.
— O que você, então, me sugere?
— Tenho que pensar. Você me dá um tempo? Acho que preciso ligar para ele.
— Então, aguardo a sua chamada, Nieta. Tão logo me fale, vou comprar e envio a ele.
— Olhe — antecipou Antonieta — eu devo ir lá me encontrar com o meu amor, né? O rapaz de que lhe falei, Geraldo Bonifácio, que é colega de emprego do Marcos em João Pessoa. Devo passar por lá as festas de fim de ano. Posso levar o presente dele ou eu mesma comprar para você.

— Olha, me veio uma luz aqui agora — diz Karen — não vou dar presente nenhum. Ele é meu amigo e nem penso em transformar isso em namoro. Dar-lhe um presente vai parecer interesse meu. Minha mãe me ensina que uma mulher nunca deve se antecipar ao homem no interesse sentimental  — concluiu Karen e deu como encerrado o assunto.
E Karen volta para si mesma. Percebe uma mudança operando: era muito calada e se tornou uma tagarela. Mas nunca contava tudo, deixava as pessoas sem saber, logicamente, o que se passava com ela. Fazia perguntas incríveis às pessoas. Por exemplo:

— Você acredita no amor?
— Existe ilusão e existe amor de verdade?
— A grande descoberta do ser humano na terra chama-se amor?
— As pessoas podem apaixonar-se mais de uma vez?
— O amor existe na adolescência ou na idade madura?

Caminhava pelas ruas de sua cidade sempre à cata de uma pessoa com quem falar. Não encontrava, no entanto, as que desejava abrir-lhes o coração. Quando aparecia alguém mais confiável, levava-lhe a notícia, que seria de uma paixão que “atravessava o coração de alguém” mas nem dizia nenhum dos “alguéns”, o de lá ou a de cá. Percebeu que falava muito e precisava se conter. Lembrou-se de uma palestra em que o palestrante dizia: “A grande utopia das pessoas é encontrar ouvintes”. Naquela ocasião, o conselho do psicólogo que falava tinha o seguinte conselho: “Não ceda! Só fale com quem o quer ouvir. Normalmente — explicou na ocasião — as pessoas querem falar, somente falar.


Nelson Rodrigues, escritor brasileiro que brilhou no seu tempo (década de 1960) e continua ainda vendendo livros, apesar de estar em outro plano de vida. Segundo ele, somente duas pessoas nos ouvem hoje, o psicanalista e o médium espírita. Ao primeiro pagamos para que nos ouça; ao segundo apenas nos curvamos a uma nova fé religiosa. “A igreja vazia também é um ouvinte: — ouvia o eterno e ouvia o sagrado, que estão enterrados em nós”, escreveu o dramaturgo.

E estamos em setembro de 2008 numa casa da Rua das Flores, cidade de Cata-Prego, Estado de Minas Gerais, Brasil, América do Sul, Mundo. Karen Helena, com coragem e tudo, parte para a frente do espelho e se olha assustada. “Nossaaaa... preciso de um recauchutagem urgente!” — clamou de si para si a situação de seu semblante,. como se fosse um pneu desgastado. Os olhos fundos e profundos, escuros, olheiras quase roxas como se tivesse levado uns incríveis bofetadas. As sobrancelhas requerem  trato especial de algum profissional qualificado. A face clara paira  um pouco inchada como uma manga rosa exposta na fruteira da copa. Não se acha bonita nem antes nem agora ao sair da cama. Ou melhor, na sua perene humildade, requer as coisas lindas somente para outras pessoas. Sinal  insofismável de virtudes que trouxe do berço, da mãe, um pouco do pai saudoso. Veio  a conclusão imediata: “Preciso me cuidar!” Ou ir ao borracheiro?
                                                     
Correu direto ao smarthphone e o encontra cheio de mensagens. No Facebook  havia uma foto sua com a família: filho, filhas e a mãe amada, adorada, os filhos venerados. Faltou o marido, repórter de “Diário de Cata-Prego”. As opiniões dos amigos em comentários nunca variavam: “Lindos, lindos, lindos!”. Olhou uma  foto sua feita no trabalho, melhor dizendo, numa feira realizada na cidade. Ela como recepcionista, depois expositora, a seguir vendedora, a profissão nata. Clicou em fotos e os inarredáveis comentários: “Linda, linda, linda”. E voltou a pensar: “Se eu fizer um sélfie ou selfie (inglês)  e postar, com essa feiúra  toda, juro que vão comentar mesmo assim: ‘Linda, linda, linda’. Então, devo ouvir a minha opinião somente  e digo a mim mesma que estou horrível, horrível, horrorosa. Vou ligar pro salão de beleza e pronto, devo cuidar de mim”. Papo final, horário marcado para a tarde. Era um sábado desses sem agitação, nem casamentos, nem aniversários.

Por conta do nada ter o que fazer, vai ao computador. Abre o No Facebook. Lá está o “amigo” Marcos Aurélio com mensagens e suplicando atenção: “Bom dia, querida amiga!” — o anúncio de sua presença às 9:15. A seguir outra mensagem: “Quero mais uma foto sua. Me envia? Anexo uma minha para vc espantar baratas”. Que diabo, pensou Karen,. ele já tem a minha foto. Mas isso é bom. Sinal de haver insistência em ser amigo porque viu a minha cara de há muito. Com certeza, gostou dela. Karen Helena ainda não respondeu. Esperou. e leu “Escrevendo” — informa a tecnologia do MSN, ou melhor, havia pulado para o WhatsApp.  Adiante: “Outro sélfie para você!”. E Karen repara bem a imagem: “Não parece bonito de morrer, não é um galã de cinema de Hollywood nem um ser bronzeado como um artista havaiano. Isso me convence de uma coisa: ele não é trapaceiro”. As fotos eram normais, ou seja, ele nem muito lindo, mas razoavelmente bonito. Avaliou o rapaz: alto, moreno, sem cabeça chata como os nordestinos, tudo bem. Mas o que importa são as palavras, afinal, eram apenas amigos e assim queria continuar sempre, desfrutando de sua cultura.

Deu as suas respostas. Desta vez mais branda, bem amena e diferente do contato passado.  Respeitosa, amiga, interessada numa amizade nordestina. Ter amigos nesses lugares é bom. Quem sabe, um dia, uma temporada de descanso? O Nordeste é, hoje, uma região muito requisitada pelo resto do Brasil. Acabou-se aquele tempo de ter pena do povo por causa da seca, de esperar que o governo implemente aqueles planos especiais de ajuda ao agricultor, ou ao fazendeiro. Nada como do tempo de Vidas Secas, drama inconteste de Graciliano Ramos. Então, dedilharam muito, muito, muito. Marcos Aurélio cada vez mais interessante, ela avaliava. Escreve bem, pensou. Expressa sentimentos com a autoridade de quem os sente. Faz  expressões vivas tornarem-se uma espécie de sussurros. Como? Vou ver se dá para explicar: parece que ela está perto dele, sentindo seu hálito, vendo seus gestos, algo assim notável e de gosto apurado. Ele conta casos de sua amizade com Antonieta, com 22 anos, seis anos mais nova. “Nossa! Graças a Deus, não haverá nada mais que amizade entre nós porque tenho 34 e não vou mesmo namorar um verdadeiro menino para mim. Já tenho uma filha de 13, outra de 11 e um menino de 7. Posso me soltar mais porque você se  parece um amigo muito leal!” — escreveu a ele de supetão, quase sem pensar. Arrependeu-se mas não dava tempo mais de apagar. Deixa pra lá, pensou..

“Idade não interessa!” — Exclama o paraibano vendo escorrer por entre as teclas do computador a sua esperança, pois o que deseja, de verdade é conquistar aquela mineira muito bem recomendada pela amiga Nieta, moradora de São José dos Pinhais. Nessa conversa via  Zap-Zap que se passou houve várias tentativas de um papo por telefone, uma conversa mais natural. Ambos tentaram discar, mas nada concretizado. Ficou a promessa de se falarem pelo som e,  no bate-papo, clareou-se mais o desejo de Karen de trocar palavras vivas, normais. Nada de relevante, pensou Karen, porque foi muito bom saber que ele se expressa bem e é bom trocar palavras com quem respeita o nosso achincalhado idioma.  Então, na verdade, há, neste dia de contato, muita vibração positiva, aquilo que Karen sempre ouve nas palestras ou nos livros de autoajuda, muito comum, a mesma linguagem dos especialistas no tema.

E em casa? Como estava o ambiente familiar? Uma pequena mudança que os filhos notaram, é claro, mas parecia algo assim com um único culpado: os pernilongos. O quê? — alguém se assustaria. Que diabo de pernilongos são esses? O seguinte: Karen e Enéias tiveram uma pequena discussão. Voz baixa. Nada de gritos de ciúme por parte da mulher, apenas um princípio forte de amor próprio. É o que ocorre com as  pessoas hoje  em dia: “O único problema do casamento é a falta de confiança” — já escrevia em sua coluna  do jornal Estado de  Minas, em 1952, a conselheira e guia sentimental Ivone Borges Botelho. A afirmativa continuou valendo como se fosse uma lei para os anos seguintes.

E nisso aparece o intruso, mas quem sabe providencial, o Sapo da  Ponte para fazer abrir um novo parêntese como no capítulo anterior. Ele chega com os seus ensinamentos. Diz que o mais importante de toda a história do casamento é a mudança de comportamento, sentimento, entendimento. Vem  dizendo que no tempo do onça os homens nunca tinham contato com  a  namorada senão por recados, às vezes rápidos  encontros na rua, ou um aceno de mão. Se gostava da menina, chamava um cupido para conversar com ela ou escrevia aos pais dela. Para pedir  casamento, mesmo sem contato algum um com a outra, escrevia uma carta, ou incumbia alguém de fazer por ele. A resposta do pai da moça quase sempre vinha, no caso de positiva, marcando já a data do casório. Se fosse negativa, havia o respeito total e cancelavam-se os sonhos. Não havia naqueles tempos o esquentar de impetuosas paixões.

O Sapo esclarece que quando e enquanto havia namoro, perdurava também o mesmo comportamento de antes, nem um toque nas mãos, não havia esse “desrespeito”. O bicho, coaxando bem alto, explicava o seguinte: “O pai da moça queria saber que o pretendente da sua  filha era, fisicamente, um homem normal. Ou seja, se tinha o costume de ‘trocar o  óleo’ em alguma casa de tolerância”. Em outras palavras, a família da moça queria ter sempre a certeza de que o namorado ou noivo jamais ficaria com o seu par antes do casamento. “Sexo antes de se casar é não somente pecado, como também um risco porque, tratando-se de uma desvirginada ela ficaria marcada para sempre”, concluiu o Sapo que explica, ainda a necessidade de se saber o estado financeiro do futuro namorado. Aí o bichinho pula fora e fecha este parêntese.

Voltamos à casa de Karen, onde o ambiente não pesou em nada. Apenas o casal acertou que ela dormiria em outro quarto por causa dos pernilongos. Parecia  brincadeira, mas a explicação é a seguinte: ele, Enéias, queria sempre dormir com a janela aberta. Ela, Karen não aceitava, porque esses “Culex Pepeans Fatigans” (nove científico do extrator de sangue) preferem a mulher. A explicação da separação de corpos aos filhos se deu assim, exatamente para que ninguém se envolva. De si para si, Karen explicou-se que precisava dar um tempo ou uma oportunidade para o marido. Chegou a confidenciar a uma de suas amigas de trabalho, Elenice, que queria ser reconquistada pelo Enéias.

Aí segue a vida. De longe, Marcos se julgava já apaixonado, interessado, louco para ir à frente com Karen. Assim, ocorreu um longo bate-papo já no mês de dezembro do mesmo ano, 2008. Falaram-se muitas vezes por telefone. Quando um não encontrava o outro, deixavam mensagens nas redes particulares. Mas o normal passou a ser o falatório que aumentava — e muito mesmo — as contas telefônicas. Contudo, surgiu um pouco mais tarde o telefone via WhatsApp, totalmente gratuito, as trocas de afagos aconteciam ao vivo e quase a cores. Inacreditável era a percepção de Karen. Pensava ela que a voz do amigo fosse algo assim entrecheada de arranhos, um pouco fanhosa. Será o sotaque do Nordeste? Ou é uma alteração feita pela distância, pois estavam a mais de 2.800 quilômetros de separação física.

À amizade ela já havia se entregado inteiramente. Considerava Marcos Aurélio um verdadeiro guru, talvez um psicólogo de graça. Todas as suas questões mundanas contava para ele, ou por escrito pelo WhatsApp ou MSN ou num telefonema. Eram problemas do seu casamento que se desmoronava aos poucos, dos filhos que os sentia diferentes ou no relacionamento com os demais familiares e até amigos. Certo dia, Karen gritou ao telefone umas expressões fantásticas de elogios ao amigo. Disse que estava se sentindo cada vez mais segura quando conversava com ele, agradeceu-o penhoradamente

Chegou  a época do Natal e do Ano-Novo e aconteceu um fato interessante: Karen quis comprar um presente para o seu amigo. Resolveu, então, ligar para a amiga Antonieta, como sempre a cupido dessa amizade que se empenhava em tornar-se namoro ou amor. E a ligação:
— O que você acha de eu lhe dar um presente, Nieta?
— Espetacular! Boa ideia, minha amiga.
— O que você, então, me sugere?
— Tenho que pensar. Você me dá um tempo? Acho que preciso ligar para ele.
— Então, aguardo a sua chamada, Nieta. Tão logo me fale, vou comprar e envio a ele.
— Olhe — antecipou Antonieta — eu devo ir lá me encontrar com o meu amor, né? O rapaz de que lhe falei, Geraldo Bonifácio, que é colega de emprego do Marcos em João Pessoa. Devo passar por lá as festas de fim de ano. Posso levar o presente dele ou eu mesma comprar para você.

— Olha, me veio uma luz aqui agora — diz Karen — não vou dar presente nenhum. Ele é meu amigo e nem penso em transformar isso em namoro. Dar-lhe um presente vai parecer interesse meu. Minha mãe me ensina que uma mulher nunca deve se antecipar ao homem no interesse sentimental  — concluiu Karen e deu como encerrado o assunto.
E Karen volta para si mesma. Percebe uma mudança operando: era muito calada e se tornou uma tagarela. Mas nunca contava tudo, deixava as pessoas sem saber, logicamente, o que se passava com ela. Fazia perguntas incríveis às pessoas. Por exemplo:

— Você acredita no amor?
— Existe ilusão e existe amor de verdade?
— A grande descoberta do ser humano na terra chama-se amor?
— As pessoas podem apaixonar-se mais de uma vez?
— O amor existe na adolescência ou na idade madura?

Caminhava pelas ruas de sua cidade sempre à cata de uma pessoa com quem falar. Não encontrava, no entanto, as que desejava abrir-lhes o coração. Quando aparecia alguém mais confiável, levava-lhe a notícia, que seria de uma paixão que “atravessava o coração de alguém” mas nem dizia nenhum dos “alguéns”, o de lá ou a de cá. Percebeu que falava muito e precisava se conter. Lembrou-se de uma palestra em que o palestrante dizia: “A grande utopia das pessoas é encontrar ouvintes”. Naquela ocasião, o conselho do psicólogo que falava tinha o seguinte conselho: “Não ceda! Só fale com quem o quer ouvir. Normalmente — explicou na ocasião — as pessoas querem falar, somente falar.


Nelson Rodrigues, escritor brasileiro que brilhou no seu tempo (década de 1960) e continua ainda vendendo livros, apesar de estar em outro plano de vida. Segundo ele, somente duas pessoas nos ouvem hoje, o psicanalista e o médium espírita. Ao primeiro pagamos para que nos ouça; ao segundo apenas nos curvamos a uma nova fé religiosa. “A igreja vazia também é um ouvinte: — ouvia o eterno e ouvia o sagrado, que estão enterrados em nós”, escreveu o dramaturgo.