sábado, 15 de fevereiro de 2014

CENTENÁRIO DO TÃOZINHO DO GODÓ (2)


Para falar do que sei sobre o meu Pai preciso retornar  a 1940 quando, sequer, pelo menos fisicamente, não era eu nem um projeto ou talvez nem um sêmen, simplesmente uma energia ou uma alma ou um espírito. Ele, com 27 anos, namorava minha Mãe, na flor dos 17. Notadamente, Tãozinho se apaixonou,  depois de se divertir inocentemente, como era praxe na época, com uma turma de  meninas, no tempo da inocência pura, la belle époque brasileira.

Então, o que ocorreu em São Sebastião do Rio Preto, na década de  40 do século passado?  Vejo sem ver ou sem ter enxergado  — e isso tento explicar para mim mesmo e não consigo — seis homens fortes, negros, saindo da casa de meu avô Seraphim Sanna, carregando minha futura mãe, que está deitada numa cama de madeira a que chamam de catre. Da meia dúzia de dedicados homens fortes que compunham o séquito, consigo reconhecer a metade: Domiro, Sebastião Calixto e Joaquim Sete Léguas. A enferma gemendo insistentemente. Montados em duas mulas, o pai e o noivo sem aliança decididos a resolver a questão daquela moléstia misteriosa. E as janelas apinhadas de gente, ou as portas de vendas, atabalhoados de curiosos, desses saindo o burburinho que não cessava: “Coitada da filha do Serafim!” Vez por outra o lamento: “Coitado do Tãozim do Godó que quer casar com ela!”

E arrancam em viagem  rumo a Morro do Pilar por uma estrada mais parecida com caminhos de pedras,  atalhos estreitíssimos, que dificultavam a posição dos carregadores. A São Sebastião do Rio Preto não chegavam carros automotores. Havia pois, a necessidade de se percorrer  quatro léguas ou 24 quilômetros, sol a pino, ou ameaça de chuva, final de verão, quando costumam ser normais  as tempestades, as pancadas torrenciais, relâmpagos e trovões que metem medo. Homens suados, braços portentosos, silêncio quase profundo em respeito à doente, coitada, sempre examinada pelo pai farmacêutico mais conhecido como “médico dos bãos”. No rodízio que se impunha naturalmente entre eles, quatro sustentavam a estaca de madeira naquela espécie de padiola, que dava um aspecto quase fúnebre à expedição, dois aguardavam a sua vez e trabalhavam como auxiliares: iam na reserva para as substituições de esforços ou forneciam água e medicamentos que estavam em cangalha e eram para a doente da qual todos se apiedavam a cada instante. O lamento naquele tempo era uma  obrigação quase religiosa. Quem não o tinha era considerado um mau-caráter

A primeira parada se deu a alguns quilômetros, precisamente na localidade do Porto, a seguir mais uma na confrontação de Sangrador, Varginha e com destaque, Itambé do Mato Dentro, onde renovaram os  garrafões de água. Havia também um animal cargueiro, que transportava comida para os homens do sacrifício, além de agasalhos e remédios.. Eles paravam, colocavam o catre no chão, debaixo de uma árvore, uma sombra. Enquanto esquentavam os seus caldeirões de "boia" preparada pela Maria Bárbara, tradicional cozinheira de Dona Maria e Seraphim, o chefe da comitiva, pai da enferma, cumpria o ritual de examinar a filha, que não comia, essa era a preocupação que inquietava todos Ao contrário, os seus sustentáculos devoravam cuias e cuités  recheados como se fossem lobos famintos. Tãozinho e Seraphim apenas lambiscavam guloseimas.

À noite, a chegada a Morro do Pilar, a parada numa casa de pensão, os homens da estaca e do catre procurando um lugar para o pernoite e a estadia dos animais. Seraphim, Itália e Tãozinho foram para um velho hotel ao lado da Igreja Matriz. No dia seguinte, enquanto a turma do transporte por atalhos retornava a São Sebastião, os guarda-costas e a guardada embarcavam num veículo fretado para seguir rumo a Belo Horizonte, tudo com sofreguidão indefinível, só perceptível pelo ar grave e silencioso do ambiente. Morro do Pilar, por onde passara o pioneiro e desbravador de terras Gaspar Soares, já era uma vila mais desenvolvida. Mas, mesmo assim, as pessoas se acotovelavam nas portas e janelas procurando um ângulo para ver a filha daquele farmacêutico famoso, que viera de Ouro Preto para a região.

Sem mais olhos curiosos como antes, a comitiva reduzida a três membros, chegara a Belo Horizonte onde, durante um mês, hospedada na Rua Diamantina, casa de parentes,  frequentou diariamente vários consultórios médicos, acompanhando cada dia com menos esperança, a saga de Itália Sana. E não aparecia uma luz no fim do túnel para aquele problema angustiante e desconhecido que assaltava a mente do farmacêutico, tão acostumado que era a grandes emoções. Havia regressado do interior de São Paulo, como sargento do Exército, tomara parte na Revolução Constitucionalista de 1932. Ele, com seus botões, como chegou a revelar mais tarde, pensava, atordoando e aterrorizando a própria alma: “Como dizem que posso curar dezenas e até centenas de pessoas e não consigo salvar a minha filha?”. Dura um mês esse martírio, sem nenhum  resultado prático, ou seja, em minha futura mãe nada de doença fora encontrada sem, contudo, fazê-la levantar-se da cama, tirá-la daquela espécie de mistério que povoava a cabeça de farmacêutico e de médicos. Ela era uma doente sem doença, uma sofredora sem sofrimento, um caso médico totalmente fora dos parâmetros da medicina na época.

Já consultadas todas as fontes da ciência médica que dominava praticamente a era, restou ao chefe Seraphim senão retornar ao local de origem e aguardar o que Deus determinasse. O último dia de permanência na capital teve um ar de silêncio ensurdecedor entre sogro e genro. Ambos saíram para lugar pré-determinado por suas mentes, sozinho cada um, inexplicavelmente determinados ambos a uma façanha. Com medo de tocar naquele assunto sombrio, eles chegaram à noite da espécie de consulta e se entreolharam, um querendo falar para o outro o que fora feito e o que lhes tinha sido revelado. “Ela está com feitiço brabo”, disse um pai-de-santo ao aspirante a cientista Seraphima Sanna. Praticamente a mesma frase fora dita ao Tãozinho por outro visionário do além. Diria que o sogro foi ao Bairro da Glória e o genro às cercanias do final da Avenida Amazonas, tal detalhe não consegui apurar porque eles próprios desconfiavam um pouco dos chamados feiticeiros ou milagreiros. Mas a expectativa era tão forte que acabaram por confrontar-se as informações e daí o que chamaram de uma pequena solução, cumpriram ao pé da letra as recomendações que receberam em terreiros de Umbanda.

A viagem de volta foi menos dolorosa, como era de se esperar, mas nenhum dos acompanhantes, pai e noivo, revelou a outras pessoas  aquela “verdade” que parecia tomar conta de suas convicções. Seria esse um único caso de segredo guardado a duas chaves. Novo táxi alugado, o motorista cumpriu o trato de fazer, no seu Buick a chamada “corrida” Belo Horizonte a Santo Antônio do Rio Abaixo, por preço pré-fixado. Depois de passarem por Morro do Pilar, estavam a três quilômetros de Santo Antônio, o motorista para  o carro e brada de alto tom: “Daqui para a frente  não rodo nem mais um metro!.” A decisão nem parecia estranha não fosse a péssima estrada em que trafegavam. Mas a Seraphim, sempre um homem tranquilo e sereno, mas determinado, que não teria uma saída para o problema, só restou uma alternativa. Assentado no banco de trás com Itália no colo, sacou um revólver 38 (naquele tempo quase todo mundo andava armado) e colocou-o no pescoço do motorista: “Ou você cumpre o combinado ou morre aqui agora!”. Aí a primeira opção foi seguida porque o chofer, obviamente, não queria morrer.

A duras penas chegaram a Santo Antônio, pernoitaram numa pensão enquanto aguardavam a chegada dos carregadores no dia seguinte. A dona da pensão  vendeu a cama, paga antecipadamente pelo Seraphim. Jamais essa dona a  alugaria, dissera, porque em toda a região corria a notícia de que “a filha do farmacêutico padecia de doença ruim e contagiosa”. O retorno a São Sebastião, trajeto de três léguas, deu-se no dia seguinte, por um outro caminho, igualmente íngreme ao anteriormente percorrido. Ao saírem, um espetáculo deprimente  arrancou muitos indivíduos de suas casas na pequena vila e deixou sogro e genro deliberadamente horrorizados:  a cama usada e vendida foi incinerada na porta da pensão, como se fosse um ritual de macumba ou um desses incêndios que ocorrem em lixões do dia a dia. E a pequena população santantoniense mantinha-se de olhos arregalados.

Já de volta à vila de São Sebastião, a vida retorna ao que era antes. Aí escreve Tãozinho do Godó em sua autobiografia: “Depois de pensar muito sobre o que estava acontecendo, Seraphim resolveu suspender toda a medicação da Itália e determinou alimentação mais forte para ela, quase forçada. Depois de muita insistência, minha irmã Maria Jacintha conseguiu levá-la diariamente à igreja, sempre à noite e, com isso, o tempo foi passando e Itália  dava sinais de cura. Depois de dois anos de espera, ainda noivos ou namorados, finalmente, fomos liberados para o casamento, que ocorreu em 30 de outubro de 1943, data de aniversário do Seraphim”.

Sobre o assunto casamento, mais  uma nota manuscrita na autobiografia de Sebastião Cândido Ferreira de Almeida: “Para pedir autorização para o casamento, escrevi uma carta ao Seraphim, isso antes da viagem a Belo Horiazonte, e ele nunca respondeu, apesar de termos continuado o namoro sem noivado. Não usamos aliança, portanto, e para mim aquela situação foi um pouco incômoda. Como eu gosto muito dela — sempre e sempre — e parecia que ela gostava de mim também, passamos por esse constrangimento”.

Obs: A título de esclarecimento, informo que sempre ouvi contar toda a história acima relatada, até com  mais detalhes. Mas, inexplicavelmente, continuo pensando que eu estava presente naquela trajetória. A tudo acompanhei, recordo, não abro mão, sei todos os detalhes da viagem. Este assunto conversava sempre com o meu pai e ele se mostrava surpreso com o que lhe contava.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

CENTENÁRIO DO TÃOZINHO DO GODÓ (1)

Ele deixou escrito: “Eu, Sebastião Cândido Ferreira de Almeida, conhecido como Tãozinho do Godó, nasci em São Sebastião do Rio Preto, Estado de Minas Gerais, aos 27 de fevereiro de 1914. Sou filho de Godofredo Cândido d’Almeida  (Godó) e Maria Natividade Ferreira de Almeida (Dona Sinhá do Godó).

Frequentei os bancos escolares da Escolas Reunidas Nossa Senhora das Graças até o  terceiro ano primário. Num dia em que não estava lá com a cabeça muito boa, além de  estudar eu trabalhava muito na Venda do Godó, meu pai, com meus dez anos de idade, um aluno me chamou de “olho de gato”. Sem perceber, atirei nele um vidro de tinteiro e fui expulso de aula pela professora. A partir do dia seguinte, não retornei mais à escola, apesar dos insistentes pedidos de minha Mãe.

Continuei levando a minha vida no balcão da Venda, que oferecia tecidos, calçados, aviamentos, alimentos, bebidas, ferragens e miudezas. Não recebia pagamento pelo que fazia até que, quando adulto e pensando em me casar, meu pai me ajudou a montar a loja que foi o meu ganha-pão a vida toda. Meus irmãos que permaneceram vivos (e aqui ele oculta que teve uma irmã morta por afogamento no córrego que fica no fundo da casa de seu pai): Maria Jacintha, José (Zezé), Irmã Míriam, Luzia, Godofredo e Domingos.

No dia 30 de outubro de 1943, casei-me com Itália Sana de Almeida, filha de Seraphim Sanna e Dona Maria Magno Sana, ambos descendentes de italianos, nascidos em Ouro Preto. Seraphim, meu sogro, era farmacêutico, instalado na Vila em 1933.

Do casamento nasceram dez filhos: José, Carlos, Maria das Graças, Sebastião, Elizabeth, Roberto, Renato, Mary, Marisa e Keile. Continuei morando em São Sebastião do Rio Preto, onde exerci a atividade de vereador, fui membro da Banda de Música da Banda do Godó, além de outras funções na comunidade”. Aqui faço uma interrupção de sua autobiografia e passo ao que acrescento. Mais na frente, retornarei.

Pronto. No próximo 27 deste mês de fevereiro ele faria 100 anos se aqui estivesse.  Eu, o filho mais velho, tomo a iniciativa de contar por capítulos algumas passagens de sua vida. Naturalmente,  muitos vão dizer que se trata de uma biografia autorizada, portanto, sem muitos atrativos. Na verdade, nada temos nós da família a esconder de sua personalidade.

Meu pai tinha um gênio realmente muito forte. Naturalmente, ele carregava as suas razões que nos deixam em estado de reflexão. Se era uma pessoa integralmente humana, por que facilmente se incompatibilizava com as pessoas? Está aí um desafio para psicólogos e outros especialistas. Para este simples escriba, ele era o reflexo de suas atitudes. Ou seja, não tolerava determinados defeitos no ser humano, mas, evidentemente, nem em si próprio. Se exigia que outras pessoas com as quais conviviam fossem honestas, quer dizer que ele era honesto da cabeça à ponta dos pés.

Cada um de seus filhos tem uma história dele para contar. Este espaço está aberto a cada um, bem como a outros parentes, irmãos, sobrinhos, primos, amigos que queiram se manifestar. Preciso alertar a quem nos acompanhará neste trabalho sobre o anacronismo. Ou seja, mais uma vez faço o lembrete: quem observa os fatos históricos vê a Idade Média com os olhos da Idade Média. Assim diziam os mais renomados historiadores.

Ele faleceu no dia 23 de março de 1989, no Hospital Carlos Chagas, vítima de um erro médico. Água na pleura foi a “causa mortis”. Para que  eu pudesse atestar toda a verdade o seu último suspiro ocorreu com a sua cabeça apoiada no meu colo. (Continua...)

Tãozinho do Godó em 1955
         

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A galinhada mais gostosa de todos os tempos em São Sebastião do Rio Preto. Sem galinha

Melquíades é o nome dele. Encontra-se, no momento, curtindo a sua merecida vida de aposentado, com a família, em sua terra natal, São Sebastião do Rio Preto. Filho de ah... preciso ver no meu atestado de casamento o nome do pai dele, acho que Adolvano Glicério da Silva, sei lá, mas sempre foi conhecido como Nego da Olinda, o juiz de Paz do ex-arraial de São Sebastião do Cemitério. O nosso personagem de hoje, o filho do popular Nego, então é ele mesmo, o Meio Quilo, um quase apelido do Melquíades.

Meio Quilo tinha uma ferraria ou forja  bem no centro da vila, perigosamente no andar  térreo de um velho sobrado que já ameaçava cair. E, hoje, analisando os riscos que oferecia, teria o casarão apontados pelos multiplicados bombeiros que vagam por aí, como o  primeiro a ser interditado em qualquer canto do mundo. Mas, graças a Deus, romperam anos a fio e os tempos e só ruiu o prédio com a sua demolição antes do final do século XX.

Na década de 60 do século passado, quando abrigava a citada forja, jamais tinha sido uma espécie de cozinha das famosas galinhas com arroz que se realizavam pelo menos duas, três e até quatro vezes por  semana. Mas acabou sendo uma dessas fatais demolidoras de aves que sobravam nos poleiros que atraíam os “pegadores profissionais”, aqueles que sabiam dar o bote no pescoço da ave sem um barulho sequer e até mesmo o esparramar de suas companheiras.  Uma turminha de vagabundos, entre tantos eu, que nunca perdi um desses jantares da madrugada no pouco tempo em que perambulei por lá como adolescente. A turma saía pelos quintais afora, como se andasse numa rua qualquer, e não deixava que o cacarejar fora de hora das aves perturbasse o sono de seus legítimos donos. O alvo da vadiagem eram aves gordas, às vezes já estudadas antecipadamente. O aviso corria de boca a ouvido pelas portas de botecos e assentos de praças, com ele o convite para  devorar a dita cuja coitadinha, sem que se vazasse uma pista sequer aos não confiáveis.

Não havia lugar definido para o encontro fatal na calada da noite. Os comes e bebes (havia o acompanhamento infalível de um litro de cachaça) ocorriam  sempre  em locais diferentes,  alternados, sendo o arroz oferecido pelo patrocinador com os demais temperos.  O convite aos comilões chegava com um pedido a um ou outro: “Leve a pinga”. E não podia mesmo faltar a “malvada” , já que o arraial, depois cidade, carrega desde a antiguidade o nome quase oficial de Gambá. Para  enriquecer essa cultura, registro aqui uma frase do saudoso amigo José Lucas Ferreira, o Zezé de Dona Maricas do Sótão do Padre (os nomes das pessoas costumam buscar a origem até no bisavô ou bisavó, uma característica cultural do lugar): “Em São Sebastião o único que não bebe é o sino da igreja, que está de boca pra baixo”.

Numa bela noite em que faltava energia elétrica nas ruas, como era praxe, recebemos o mais inusitado dos convites: “Melquíades, ou melhor, Meio Quilo, mandou chamar para uma galinhada na sua tenda”. Tenda, assim se chamava a forja. E foi à meia-noite, hora que fazia tremer muita gente naquele tempo, principalmente os que ainda ouviam histórias de assombrações do Manoel Bispo Nascente, chegamos ao destino. Infalivelmente,  Joãozinho Kaki, Zé Flávio, Teia e outros gatos pingados faziam parte da comitiva. Eu no meio deles, sem dúvida o mais agitado e entusiasmado, modéstia às favas, pois nem conseguia dormir  antes das 5 da manhã.

Adentramos a tenda. Uma escuridão de buraco negro tomava conta do interior do ex-casarão do  Nhozinho do Jacintho, outra lenda da cidade. No fundo da oficina, um “panelão de cozinhar para marujada”, como dizia um dos presentes, transbordava de galinha, ou galinhas, com arroz, jamais imaginadas que existiriam um dia, especialmente naquela noite em que nada de especial havia, nem era aniversário do cachorro que vigiava a tenda.  Para enxergar a  panela era preciso apertar a “barriga” do fole da forja. Aí ele fumegava temporariamente  como um relâmpago de alto-circuito sem o trovão de banda de música do Godó.

Pratos cheios, cada um no seu canto, assentados todos, os pedaços de coxas eram anunciados pela espantosa esperteza do Teia, que bradava aos quatro cantos:  “Uai, Meio Quilo, você matou quantas galinhas? Só eu peguei três coxas!”  (risos, risos e mais  risos).  Manjando a charada da noite, Zé Flávio rasgava a garganta de vibração com a novidade, que já parecia uma fraude, com a ênfase alucinatória anunciada. A desconfiança não se alastrou porque praticamente todos já babavam seus pileques em cima da camisa. Alguém perguntou ao Melquíades, acho que foi o Élio Quintão, o Broa, onde e na mão de quem tinha comprado  ou “roubado” as galinhas, e ele  nem quis responder, ou apenas declarou timidamente: “Isso é mistério, vocês vão saber depois”.

E lá se foi o que estava na panela. Rapada e raspada até o fim,  todos elogiaram a “galinhada” do Meio Quilo, feita no fole, na brasa e na forja que era uma cópia da oficina tradicional do velho Mingola. A mim, ele solicitou um atestado de qualidade do produto, como se fosse algum relatório exigido por um órgão público competente. Rindo como todos, segurando uma gargalhada maior, falei aos quatro cantos da oficina: “Esse macarroz  foi o mais gostoso que até hoje devorei na vida! E olha que já sou velho nisso!”

Em tempo: macarroz é o nome que encontrei no meu pobre dicionário para definir uma mistura de macarrão com arroz, ambos queimados no fundo da panela  para parecer pedaços de frango. E viva o humor, a novidade e a noitada inesquecível vivida dentro da forja do Meio Quilo!   

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

José Vieira Reis: quem não conheceu o Teia do Roque?

Ele foi o rapaz mais engraçado que existiu na face da terrinha chamada São Sebastião do Rio Preto. Meu amigo incondicional dos tempos de solteirice, sempre requeria a presença dele para ouvir velhos causos, principalmente dos antepassados que conheceu ou teve notícias. E não apenas eu, mas também José Flávio Almeida Dias e o João Guadalupe de Almeida compunham o grupo. Lembro-me muito bem quando íamos a Ferros e lá nunca arranjamos uma namorada, até porque existiam moças demais e todas impediam a conversa a dois. Mas não me esqueço de uma carta que veio pelo correio, uma espécie de abaixo-assinado por algumas donzelas subescrita com os seguintes dizeres no envelope: José Sana, Joãozinho, Zé Flávio e Zé Reis.

Como primeiro destinatário, abri o envelope. Lá dentro nada havia senão uma saudação que nos deixou sem nenhuma vaidade e até mesmo perplexos: “Aos quatro rapazes elegantes: Cobra, Onça, Jacaré e Elefante”. Contei esta passagem de nossas vidas apenas para lembrar que tudo começou nesse tempo, meados da década de 1960. Outro detalhe: o Teia nunca bebeu algo que contivesse álcool. Ele, normalmente, entrava na rodada, mas jogava a sua cota fora quando todos estávamos distraídos. E pagava a conta — isso era um fato religiosamente cumprido. Se alguém me fala que ele passou a gostar de álcool mais tarde, tenho a honra de dizer que bebíamos por ele e para ele. E só.

O que narrar da vida desse amigo inseparável? Em primeira mão, todos os nascidos e criados em São Sebastião do Rio Preto o conheceram muito bem. E para falar dele, notadamente sobre ele, acho que um livro seria pouco. Digo um livro das passagens que são do meu domínio total. Vou resumir apenas algumas palavras: casou-se com Marlene Ferreira, com quem teve filhas, somente filhas. Resolveram todos morar em Itabira depois de algum tempo na terra natal. Ocupou o sobrado em que nasci, que o seu sobrinho Hémerson e Guiomar reformaram mais tarde. Por ironia do destino, depois de Sobrado do Tãozinho, a casa passou a ser chamada de Sobrado do Teia e, hoje, do Hémerson, que o reformou ou reconstruiu por gentileza tal e qual o velho casarão antigo existiu. Digo gentileza porque o Hérmerson me procurou e deu a devida explicação por adotar uma construção semelhante à antiga.

Agora, passo a apenas um causo verídico que ocorreu com ele, envolvida na pequena história, também, a sua esposa Marlene. Estamos neste instante nas férias de julho da década de 1970. Sebastião Geraldo de Almeida, outra notoriedade, o maior contador de anedotas do mundo (que me desculpem Ari Toledo e outras feras) sabe perfeitamente como se deu o fato. Sebastião da Naguita, como é conhecido, residente em Belo Horizonte, bancário (acho que banqueiro, mas arruma pra lá) levou quatro casais que passaram uma semana na cidadezinha. O programa do dia não foi voltado para o Rio Preto, considerando o inverno severo daqueles saudosos tempos. Mas à noite sempre havia um programa diferente. E aí sobrou uma noitada no Bar do Teia para uma data especial.

Devidamente agendados, aportaram  e foram gentilmente recebidos pelo Zé Reis, nosso personagem, verdadeiro gentleman, que os acomodou nas devidas cadeiras. Eram dez pessoas, ou cinco casais e requerem bebidas várias, entre elas o refrigerante, com predominância para a cerveja e, na abertura de cada rodada, aquela cachacinha que em São Sebastião nunca pôde faltar, até porque o segundo nome da cidade é Gambá. Gambá é um animal com 40 a 50 centímetros de comprimento, que aprecia a cachaça mais que qualquer outro alimento. O leitor já deve ter percebido o porquê do nome.

Voltando à  turma de BH assentada comodamente em bancos e cadeiras, começou a festa. Faltavam comestíveis e Dona Marlene cuidou deles com afinco. A cada 15 minutos, descia ela a escada com uma bandeja dos deliciosos quitutes, com pendência para pasteis de queijo e carne, a estas alturas adorados pelos ilustres visitantes. Um desses, quando percebeu que não eram anotadas as cervejas abertas e nem as bandejas de salgados que desciam as escadas no princípio às pressas, depois mais devagar, resolveu assumir o lugar do garçom e passou a fazer anotações para, no final, facilitar o pagamento da despesa.
De repente, ele, o apontador de dados, precisou ir ao banheiro e isso acontece, ninguém é de ferro.

Lá demora um pouco mais que o normal. Retorna e aí é que se mostra palidamente atônito e preocupado. A mesa tinha sido ampliada, chegaram outros amigos do Sebastião, garrafas de cerveja tinham sido abertas, outras, vazias, guardadas e Dona Marlene descera não se sabe mais quantas vezes escada abaixo com agora os já escolhidos pasteis de carne e de queijo. Aí, o anotador, resolve conversar com o Teia para externar o problema detectado:

 — Seu Zé Reis, por favor, venha aqui. Olha, eu estava anotando tudo aqui neste papel desde o início. Refrigerantes, cervejas, salgados, cigarros, tudo, tudo, tudo. Mas tive que sair, ir ao banheiro, e agora perdi tudo, ocorreram mais despesas e não sei mais como iremos acertar, no final, as contas com o senhor.
O nosso amigo José Vieira Reis não pensou um segundo para dar a sua resposta em cima da pinta, depois de um pigarro, outro pigarro, uma pequena ida ao banheiro para cuspir logo e retornar:
— Oh, moço, como você se chama? — e nem esperou a resposta e completou: olha, não esquente não, rapaz! Depois a gente calcula assim por alto e pronto. Vai comer e beber mais!


E voltou ao banheiro para outro pigarro e outra cusparada. (A estas alturas, quem estiver por perto da Marlene vai perguntar a ela o seguinte: “É isso verdade?” Aguardo a resposta com a consciência tranquila do dever cumprido de contar um dos mil causos inesquecíveis da vida do meu amigo José Vieira Reis.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Vou assinar meu autoatestado: sou idiota e não se discute



Vou sair para uma viagem daqui a pouco e só devo retornar na quinta-feira. Acredito que vou ficar fora deste espaço obrigatório, portanto, por dois dias. Os meus equipamentos de deslocar  estão meio emperrados: notebook  trocando teclado e tablet meio doido.

Quando retornar, devo redigir um manifesto a mim mesmo, me declarando um idiota. Assinarei e, provavelmente, o levarei ao cartório para registrar. Estava esperando terminar a leitura de O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM IDIOTA, de Olavo de Carvalho, mas não será preciso, sou um idiota por antecipação.

E só tem um motivo por enquanto. Talvez tenha mais, mas no momento, não me lembro. Ontem disse a um amigo do face, petista roxo, que dorme enrolado com uma  bandeira vermelha, que não mais discutirei política. Há vários dias venho tentando entender o que se passa na cabeça da tal presidenta, candidata à reeleição, senhora Dilma Rousseff somente por um fato: seus insistentes investimentos no exterior, especialmente em Cuba, onde está erguendo monumentais obras com o vil metal que ninguém conta.

Hoje, 28 de janeiro, os jornais abrem manchetes colossais sobre o Porto Cubano, construído com dinheiro do Brasil e mostra outros investimentos, superiores a  um bilhão de dólares que são “aplicados” (será isso mesmo?) no país, cujo proprietário ainda é Fidel Castro, com gerência do irmão, Raúl. Tudo o que se pode pensar favoravelmente às intenções petistas se esbarra, com otimismo, em dúvidas  atrozes.

É o comunismo que vem aí? Que o diga o meu amigo Armando Bello. É compromisso ainda não saldado, o famoso dinheiro da cueca e de malas pretas das eleições? Somente a Justiça pode esclarecer e sentenciar.  O eleitor cubano elegerá Dilma? Só quem entende de eletrônica digital pode mostrar  o mistério das urnas. Empresários brasileiros reclamam de falta de investimentos em portos brasileiros. Será que algum país de fora não vem socorrer o Brasil?

Olha, o negócio é o seguinte, para pensar mais domesticamente: Zé da Égua  mora na Cidade de Deus e vende banana para os moradores de Serra do Capeta, que estão quebrados, mas é um arraial distante. Aí o vendedor de bananas resolve chamar o Zé do Burro, seu irmão, pega o dinheiro dele e constrói roças no lugar vizinho. Assim os moradores da Serra do Demônio somariam  poder aquisitivo e poderiam continuar comprando as bananas. Mas quem mora na Cidade de Deus tem que esperar até que o processo se agigante e o dinheiro retorne, ou pode nem retornar. Enquanto não retorna, as mortes de fome são inevitáveis nas rodas da Cidade Divina.

Desisto de continuar tentando explicar a matemática da Dilma. Paro no meio do caminho e me conformo: sou um idiota porque não entendi nada. Alguém poderia me explicar, mas peço que não percam  tempo comigo. Idiota, idiota, idiota. Vou redigir a minha autoconfissão e levo ainda nesta semana no Cartório de Registro de Títulos e Documentos para registrar.

Afinal, meu nome é Zé do Burro, que arrumou o dinheiro para o Zé da Égua.

Até lá e me desculpem pelas idiotices...

sábado, 25 de janeiro de 2014

O Sapo da Minha Terra Natal



Vou contar a história como se fosse um conto infantil, daqueles que nos faziam dormir quando criança ou mais precisamente, às vezes, nos tiravam o sono quando continham uma dose de terror. Era uma vez um sapo. Ah, não, a história começa assim: era uma vez um arraial do interior. Nada tinha de novidade senão a sua vida pacata com alguns empinados de burros depois da algazarra, ou mais precisamente, entro numa contradição incrível, pois, verdadeiramente, todos viviam uma vida feliz. Se havia algo que poderia ser preocupante era a poluição daquele córrego, o quase Rio das Posses, que atravessa o povoado. Mas havia tanta água descendo que, hoje concluo, o regato não passava de um inofensivo quadro de ameaça à saúde. Havia no lugarzinho - vou revelar logo o seu nome - antes de tudo havia a chamada verminose como única doença pública, uma ameba,  esquistosomose e outras ameaças de vermes ou bactérias menos votadas. O arraial, ou vila, ou povoado, ou cidade agora, se chama São Sebastião do Rio Preto.

Como eu ia dizendo, havia um sapo. E o sapo morava na vila. Daqui para a frente chamo esse  cururu apenas  de Sapo da Minha Terra Natal, com iniciais maiúsculas. Para mim era o único e deslumrante, aquele que ao anoitecer começava a deixar escapar o som de suas entranhas, “roncando” mansamente em nossos ouvidos. Imaginava aquele bichinho, solitário, debaixo da ponte de madeira e terra, em frente ao sobrado em que morava e perto de dezenas de outras construções antigas, coloniais ou semi-coloniais. Chegava as 18 horas,  o sino da Igreja Matriz batia solenemente a Hora do Angelus, todos se levantavam de onde estivessem: se arreando um animal, paravam e rezavam;  se assentado, levantavam-se; se tinham um chapéu na cabeça, tiravam-no com orgulho;  enfim, cada um alterava o seu jeito de ser  naquele momento enfático da vida do arraial. Enquanto o sino batia, o sapo também batia a sua lata, imaginava  na minha ignorância infantil. Depois a minha tia Ninita, a professora do lugar, que era o nosso dicionário, a nossa gramática, a nossa ortografia e a nossa enciclopédia, nos explicava que o sapo coaxava, assim como coaxavam a rã e uma tal perereca, todos da mesma família dos anfíbios mais comuns que existem na fauna brasileira. 

A rotina se repetia tanto que parecíamos todos profetas, sabíamos a hora de tudo, o momento das reverências a Deus. Uma hora depois começaria a “reza do terço”, se não com o padre presente, uma catequista para puxar as ave-marias e os pai-nossos, seja quem fosse, ou Dona Lucinha, Dona Conceição Maia, Zica, Maria Tereza e outras. Foi assim durante anos e anos, quebrando-se os costumes aos domingos, com as missas e o povo da roça chegando. E nas festas, que tinham a Banda de Música do Godó animando, sem contar as marujadas do Cauís, Banqueta e Engenho, ah, na frente desta o quase legendário Raimundo Garangui, nome tradicional que lembrava muito seus ancestrais africanos e as comunidades quilombolas que sobraram e hoje estão espalhadas em General Carneiro, distrito de Sabará e Belo Horizonte.

O tempo passou. Eu indo e vindo. Indo para Guanhães ou Conceição do Mato Dentro ou Belo Horizonte para estudar, sempre presente nas férias e me identificando plenamente, a cada permanência na pequena vila, com o coaxar do Sapo. Imaginava esse bichinho sempre  o mesmo, que parecia bater sem parar, todo dia, sua lata particular, ao anoitecer, ou nos tirava o sono, ou  ninava-nos, crianças inocentes. Junto do sapo, fui virando adulto, depois comecei o meu período de entender  plenamente as ordens de Deus, ou da Natureza, e formar a minha família também. Nessas mudanças, afastado da vila, que virou cidade, livrando-se do jugo não tanto lucrativo dos mandos vindos da “metrópole”, Conceição. Sim, éramos colônia do reinado, nada recebíamos de melhoramentos, tudo tinha a nossa nota fiscal de aquisição, luz, água, banda de música, coral da igreja, marujos e até caboclos, escolas em que as professoras recebiam pagamentos semestrais como se ninguém comesse, vestisse e fizesse festas.
                                                
Até que um dia, sem querer, eu já havia perdido o contato auditivo com o invisível Sapo, batedor de latas. Como se fosse um desencanto sintomático, fui percebendo que aqueles intermitentes coaxares não existiam mais, ou se existiam estavam escondidos, completamente imperceptíveis, sons sem destaque, tapados por barulhos ensurdecedores de intrusos que chegaram ao lugar praticamente sem pedir licença e pensando que estivessem agradando.  
                            
O asfalto tinha se aportado no lugar como um milagre, com muita luta, mas, chegara, sim. Arrancando muita  vibração e, ao mesmo tempo, esperanças e, principalmente, durante sete longos  anos, o quase único lazer da criançada, da garotada e até dos adultos praticantes, o campo de futebol. Tirara também a tranquilidade dos lares, crianças não podem mais brincar nas ruas e nem têm onde brincar, se as quadras que construíram para o esporte em pouco tempo viraram garagens de equipamentos de guerra?  E o conhecido Estádio Dr. João Rodrigues de Moura tinha se transformado num pasto para burros, bestas, mulas, cavalos éguas, vacas, bois, bezerros e, sempre que chovia, num pantanal por onde deveriam estar também os sapos, as pererecas, as rãs. Contudo, o Sapo da Minha Terra Natal deveria continuar lá debaixo da ponte, agora de cimento armado, em frente aos inexistentes sobrados, exceto um ou outro, especialmente o da Família de meus primos, do Marcos à Maria Antônia, passando pela afilhada Marinês e pela Afra, sem esquecer o saudoso Jairo.

O que era mais desagradável ainda não mencionei.  É aquele momento que fez não somente o coaxar do Sapo da Minha Terra Natal ficar ofuscado no meio de sons estridentes. Não, caminhões de não sei quantas toneladas,  sempre carregados e sempre transgredindo as normas do peso, vigiados, acreditem, por um fiscal da própria multinacional, apelidado a estas alturas de “Raposa que toma conta do Galinheiro”. Eles chegam, às vezes perfilados um atrás do outro, roncando como equipamentos de guerra, balançando as casas como num miniterremoto, tremulando a até agora resistente Igreja Matriz de São Sebastião. Com isso, fazem com que homens e mulheres de olhos esbugalhados compareçam a reuniões da mineradora. Aí, ocorrem os momentos de  consolo, quando falam quase sempre e somente os técnicos treinados, que parecem subir de entusiasmo nas paredes como lagartixas profissionais, com as suas palavras praticamente decoradas, que enchem de esperança aquela “gente piedosa numa oração ardorosa” bem definida no hino, ou na valsa de José Afonso de Vasconcelos, letra de Mozart Bicalho. 

Mas que oração é essa? Para que as casas, construídas sem o menor  zelo, de estrutura do tempo em que os cavaleiros  vinham das roças para as festividades, as missas das 11 horas, e nem havia  calçamentos para tilintar, agora as casas trincas irreparáveis? Ah, os trustes treinados dizem: “Estamos aí para reparar todo e qualquer estrago”. E é verdade isso? Parece que sim, dizem os moradores , coitados, porque “arrumaram a casa de uma mulher humilde depois que uma carreta-monstro destruiu quase toda a sua fachada, entrando pelos quartos, sala e cozinha”. Mas ainda nem sequer, complementa a informação, quiseram  ver  a casa do Zé Buty, aquele que vai virar uma lenda na cidade por seus feitos engraçadíssimos. “A casa dele desce morro abaixo toda vez que passam aqueles brutais roncadores e a qualquer hora chega lá embaixo, no Córrego do Alexandre”.

Não há mais o que dizer. Só preciso me recorrer ao Sapo da Minha Terra Natal que, quem sabe,  estaria ainda coaxando debaixo da ponte, cujo coaxar não é mais ouvido por ninguém graças aos sons  inescrupulosos, estridentes  e penetras das carretas monstruosas que arrasam uma cidade ex-pacata, outrora de paz.  E fui lá debaixo da ponte ao entardecer e aguardar o “roncado do sapo” como dizem na terrinha, e esperei. Veio a noite incontida, veio a friagem da relva molhada, ouvia os canhões da Anglo American e de suas empreiteiras afundarem a tranquilidade no horrendo desfile pelas ruas tortuosas. Mas o Sapo nada, não estava ali, era uma abominável ausência.

E me perdoe, meu povo conterrâneo e amigo e piedoso da valsa do Zé Afonso, o Sapo humilde, percebendo que não havia mais espaço para viver e nem dispondo de algum instrumento para protestar, xingar, gritar, fechar as vias, tomou vergonha na cara e saiu para procurar outra ponte, outro córrego, outro regato para fazer nele o seu inofensivo coaxar, sinônimo de sua vida. 

E com pena de todos os que nem conheceram a vida pacata perdida por pura omissão, mesmo assim, nesse cenário tristonho,  que “o Padroeiro abençoe esse mimoso rincão”, segundo o otimismo incorrigível de Mozart Bicalho.